Nota prévia
Há dias escrevi um texto sobre o caso Ronaldo. O meu editor, Francisco Tavares, ao lê-lo lembrou-me que eu publiquei um texto sobre desportistas de alto nível, Roger Federer e Tiger Woods, há vários anos atrás, e enviou-me o texto, e sugeriu-me que o reutilizasse. Aceitei a sugestão e organizei uma pequena série tomando como ponto de partida o excerto desse texto que estava ligado ao desporto e não só. Esta expressão de não só, recoloca o excerto selecionado desse longo texto sobre David Ricardo e da especialização internacional em termos de hoje, em termos de uma Europa que se desindustrializou e que desvalorizou, talvez por isso mesmo, o ensino de qualidade.
Aceitei a sugestão e começo a partilhar a partir de hoje essa pequena série, com a nota de apresentação abaixo.
JMota
Introdução
Dedico esta peça ao meu amigo Mariano com quem vi jogar Federer no Estoril e em que ficámos os dois espantados com a aparente ausência de esforço de Federer sobre cada pancada em velocidade.
Coimbra, em 9 de Outubro de 2026
Recentemente partilhei uma curta nota sobre o caso Ronaldo, intitulado Um curto apontamento sobre desporto e crescimento emocional. Hoje, volto ao tema porque a questão que aí é levantada ultrapassa o nível do desporto futebol, levanta-se em qualquer outro desporto, tem equivalente ao nível das nações, do que elas produzem, do que elas exportam, daquilo em que se especializam, levanta-se ao nível do que se ensina e da forma como se ensina e exige nas Universidades, tem a ver com a forma como se prepara a formação dos nossos filhos desde crianças para o futuro que irão ter.
O meu editor, Francisco Tavares leu o texto acima referido e diz-me “em tempos escreveste um artigo sobre Federer e Tiger Woods, e ando à procura dele”. Encontra-o e envia-mo, foi o que lhe pedi. Enviou-mo e, de facto, era um texto escrito em 2019 em que me debruçava sobre o comércio internacional em sistema de monoespecializações ou de especializações diversificadas, exemplificada com o absurdo de algumas cadeias de valor da produção e comercialização, como no caso das bolas de ténis e da água Figi. E neste meu texto tinha como paralelo, a formação dos cidadãos, dividida em dois grupos, formação de polimatas, caso de Roger Federer, ou de especialização específica extrema e desde criança, o caso de Tiger Woods, ou no caso português, Cristiano Ronaldo que tanta tinta está a fazer correr.
O texto que me foi enviado, é velho de quase 7 anos, e é este texto que eu aqui retomo. Revejo o texto e imediatamente me lembro de ter visitado há dois anos o sítio eletrónico de um muito bom especialista financeiro, Barry Ritholtz, e no seu sítio tomei conhecimento de um dos melhores artigos que li sobre o NEW DEAL, de Marshall Auerback [1], sobre o renascimento de uma nação, os EUA, no tempo do NEW DEAL. Nesse texto apela-se a um novo “New Deal” na era Obama, um projeto que Obama foi incapaz de repetir, projeto a que a Europa de Schauble, de Durão Barroso, de Centeno, de Merkel, de Passos Coelho virou ostensivamente as costas. Estes últimos preferiram a desindustrialização e as políticas austeritárias e dessas opções europeias estamos agora a pagar uma fatura bem pesada.
No sítio eletrónico de Barry Ritholtz, e nessa altura, li que Federer tinha recebido o grau de doutor honoris causa em Letras Humanas (Doctor of Humane Letters) pelo Dartmouth College, em 2024. Como Federer foi para mim um dos desportistas de referência, como Ronaldo também foi, pensei: hei-de cá voltar para ler isto. Nunca mais me lembrei e só agora perante a leitura do meu texto de 2019 e perante a situação absurda criada por Ronaldo e pelos seus assessores, assim como pela Federação Portuguesa de Futebol e o seu selecionador, é que recordei que tinha um discurso de Federer para ler.
Ao reler o meu texto de 2019 onde ligo globalização extrema, tipos de especialização dos países no comercio internacional e diferenciação profissional nos cidadãos no quadro de cada país, lembrei-me assim do que tinha visto no sítio eletrónico de Barry Ritholtz e fui então ler o seu discurso. Lá estava ele, esse discurso do Federer no sítio de Barry Ritholtz (o vídeo aqui e em texto aqui), e li-o, e gostei muito do que li. E assim também o incluo nesta pequena série.
Ao lê-lo, fiquei com uma certeza, a de que as minhas elogiosas referências a Federer no texto de 2019 pecam por defeito, e por muito. Dois grandes desportistas, e no fim das respetivas carreiras desportivas, com destinos completamente diferentes, Federer recebe um doutoramento Honoris Causa de uma das mais prestigiadas universidades do Mundo, Dartmouth [2], enquanto Tiger Woods, o homem que preparado desde criança para ser um grande jogador de golfe, sofre as desgraças brutais de uma vida emocionalmente em dificuldade, desgraças umas após outras.
O discurso de Federer remete-nos para uma formação humanista, para uma formação de polímata, é proferido numa universidade que o reconhece e nele há um conjunto de conselhos aos jovens. De entre estes sublinho o de nunca se desistir perante as dificuldades porque há sempre um além possível para lá delas e, no quadro do ensino, remete-nos para a formação de polímata contra a de especialização específica. Curiosamente sobre esta temática perfeitamente articulável ou comparável com o que se disse sobre o caso Ronaldo, deixo-vos, nesta série, dois curtos textos e muito recentes.
Num deles, publicado pelo Financial Times, Gillian Teet diz-nos:
“Assim, a grande questão que agora se coloca — tanto para os financeiros como para os reguladores e os educadores — é como formar profissionais com competências avançadas em IA, que também sejam capazes de recorrer ao pensamento crítico necessário para identificar tanto as oportunidades como os riscos (muito reais) associados à IA.
As empresas que conseguirem encontrar esses profissionais serão as verdadeiras vencedoras. Por isso, todos os olhares estarão postos nos estagiários de 2026.” Fim de citação
No segundo texto, Joe Wilkins diz-nos:
- Um grande número de estudantes vai sair da universidade diplomados e entrar no mercado de trabalho sendo, na prática, iletrados.
- Embora muitos líderes de opinião tenham debitado eloquentemente sobre a importância da «literacia na IA» — basicamente, a compreensão de como utilizar eficazmente as ferramentas de inteligência artificial —, as empresas para as quais estes futuros estudantes se encaminham, continuam a depender fortemente da literacia tradicional, ou seja, da capacidade de ler e escrever. Apesar do seu alegado potencial revolucionário, há bastantes provas de que a IA ainda não teve um impacto significativo na produtividade no local de trabalho, bem como evidências de que o seu impacto económico continua limitado. Isto significa que os estudantes que apostarem inteiramente na IA, em detrimento de outras competências, provavelmente descobrirão que não estão devidamente preparados para as exigências reais da vida após a universidade.
O grave de toda esta história de ensino do tipo STEM ou do tipo polímata é que hoje nem o ensino tipo STEM tem a qualidade que tinha outrora, muito longe disso – as citações são claras nesse sentido -, nem o sistema está disponível para investir em Humanidades, e mesmo que o estivesse colocar-se-ia o mesmo problema que se tem hoje com o ensino tipo STEM. É preciso investir, e investir muito desde a primária até à Universidade se queremos ter diplomados à altura das exigências das sociedades modernas e nisso os Estados neoliberais não estão interessados. Veja-se o que se passa em França ou no nosso país.
O leitor poderá pensar que estou a exagerar. Não creio e a confirmá-lo deixo-vos aqui dois excertos de dois professores universitários americanos,
De Ronald Purser, professor na San Francisco State University:
- Os estudantes pagam propinas por diplomas que não conquistaram através da aprendizagem.
- Os docentes avaliam trabalhos que sabem não terem sido realizados pelos próprios estudantes.
- Os administradores celebram «ganhos de eficiência» que, na realidade, representam perdas na aprendizagem.
- – Os empregadores recebem diplomados cujos graus académicos já não significam nada em termos de competências reais.
- [Estudantes e pais] certamente já se aperceberam desta decadência. As matrículas e as taxas de permanência no ensino superior estão a cair a pique, sobretudo em sistemas públicos como o da Universidade Estadual da Califórnia (CSU). Os estudantes estão a concluir, e com razão, que faz pouco sentido contrair dívidas esmagadoras para obter diplomas que poderão em breve tornar-se obsoletos.
De Troy Jollimore, Professor da Universidade Estadual da Califórnia:
«Enormes quantidades de estudantes vão sair das universidades com diplomas e entrar no mercado de trabalho sendo, na prática, iletrados.»
E acrescentou ainda:
«Sempre que falo com um colega sobre este assunto, surge sempre a mesma questão: a reforma. Quando é que me posso reformar? Quando é que posso sair disto? É nisso que todos estamos a pensar agora.»
Há exagero sim senhor e muito, não no que estou agora a reproduzir, eu próprio antecipei a minha passagem à reforma por não aguentar mais a vaga de ignorância que começava a varrer toda a Universidade. Há exagero, sim senhor, mas este é o enorme silêncio que é feito em torno de tudo isto, e sobretudo no silêncio de gente que tem obrigação de não desconhecer esta realidade
E é tudo
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[1] A versão portuguesa desse texto foi editada pelo blog A Viagem dos Argonautas em 2013. (ver aqui)
[2] Nota de editor: Roger Federer já recebera um título de Doutor honoris causa em 2017, atribuído pela Faculdade de Medicina da Universidade de Basileia (veja aqui), sendo mencionado o compromisso de Federer com as crianças em África através da sua fundação que prestava apoio a mais de 300.000 crianças no sul de África.


