Faria anos no dia 11 de Novembro o Senhor Dr. Renato Figueiredo, homem ilustre em toda a acepção da palavra, e a quem S. João da Madeira muito deve.
Conheci o Sr. Dr. Renato Figueiredo quando ele era Director da Biblioteca Municipal de S. João da Madeira e estava eu em pleno exercício das minhas funções docentes. Nas actividades culturais da Escola, juntamente com a Associação de Estudantes, valíamo-nos muitas vezes da preciosa colaboração da Biblioteca. Recordo que pedi ao Sr. Dr. Renato Figueiredo para colaborar num jornal da Escola “Porta Aberta” tendo ele redigido o editorial. Logo aí me apercebi da qualidade da sua escrita e do seu talento literário.
Assim começou entre nós uma grande amizade, uma espécie de namoro literário. Dali para a frente houve muitas outras actividades dignas de registo e nunca o Sr. Dr. Renato se negou a colaborar com a Escola. Telefonou-me várias vezes a felicitar-me quando escrevia pequenos artigos para os jornais da terra. Acarinhou a apresentação do meu primeiro livro na Biblioteca, esteve presente na apresentação dos meus outros livros, incluindo em minha casa em Vale de Cambra. Dignou-se escrever alguns textos sobre a minha escrita, de que me orgulho e que guardo como verdadeiras relíquias.
Desta partilha de gostos e de ideias nasceu entre nós um grande respeito e amizade. E a amizade alimenta-se de muitas formas e também se alimenta à mesa. Desta forma, criou-se então um grupo de amigos que reunia habitualmente no restaurante Sétima Arte, restaurante que já não existe tal como a maior parte dos amigos do grupo. Fazíamos jantares mensais, acompanhados de leitura de textos, de poemas, de anedotas…momentos excelentes que não se esquecem. Aí, para além de um Senhor educado, gentil, discreto, reservado, revelou-se uma pessoa de conversa descontraída, com grande sagacidade e inteligência, humor e até brejeirice de contornos impensáveis para quem não o conhecia como nós na intimidade de amigos.
Para além da sua actividade político-social enquanto funcionário da Oliva, da sua acção cultural como Director da Biblioteca e da Academia de Música, não posso deixar de referir que foi ele o grande responsável pela valorização da obra do escritor João da Silva Correia, de que a Autarquia tanto se orgulha e bem. Foi ele que arrancou o escritor das cinzas e o trouxe à luz do dia. Para além do seu maior estudioso, foi ele o promotor da publicação da sua obra na íntegra. Foi também o grande responsável pela atribuição do nome do escritor à Escola João da Silva Correia, a escola onde lecionei. Nisso se empenharam a professora Clara Reis, o nosso querido e saudoso colega professor João Araújo e eu.
Por tudo o que fez este homem de grande cultura, de profundo talento literário e de uma especial sensibilidade poética, repito que muito lhe deve S. João da Madeira
Visitei-o pouco antes de morrer. Impressionou-me a serenidade e a lucidez com que via chegar o seu fim. Levei-lhe uns chocolates com motivos de Primavera. Ele esboçou um sorriso e disse: “Para mim não há mais Primavera. Confesso que não tenho medo da morte, mas do sofrimento”. Parece que não sofreu e morreu como quis, lúcido, com a lucidez com que sempre viveu.
E assim chegou ao fim. Bem-haja o jornal Labor que teve a grandeza de publicar as suas preciosas crónicas em volume. Talvez seja essa a sua eternidade. Para terminar, deixo um poema de meu irmão que tão bem revela a grandeza de alma deste saudoso amigo que partiu.
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Apenas dois raios da frouxa luz do crepúsculo penetram na janela e atravessam a sala bordejando timidamente a penumbra e tocando de leve brilho os sapatos negros.
No além do quarto para lá da porta a densa quietude da paz e do silêncio.
Sobre a cama um corpo sem dobras estendido de cima a baixo.
Nem uma vela nem uma flor nem uma renda.
O mesmo leito onde dormiu os sonos temporários.
O mesmo leito onde o sono temporário se fez definitivo.
A nudez física de singelo pudor enfiada num longo e magro fato preto.
A nudez da vida despida de mentira vaidades e impurezas.
A nudez da morte limpa de crenças e fantasias.
A nudez da vida e da morte abraçadas por fim no esquálido encontro de um corpo que foi gente.
Gente que a gente não gosta de ver partir por ser rara.
Por ser um verso do Universo ou simples protão, mas daqueles que deixam na sua órbita um rasto de luz e dignidade.