EUGÉNIO DE ANDRADE

Se vens à minha procura,
eu aqui estou. Toma-me, noite,
sem sombra de amargura,
consciente do que dou.

Nimba-te de mim e de luar.
Disperso em ti serei mais teu.
E deixa-me derramado no olhar
de quem já me esqueceu.

* João Rodrigues – voz (tenor)
Nuno Vieira de Almeida – piano
Assistente musical – Fernando Serafim
Supervisão artística – Nuno Vieira de Almeida
Técnico de piano – Fernando Rosado
Coordenação executiva – José Moças
Gravado na Escola Superior de Música de Lisboa, de 3 a 15 de Agosto de 2009
Gravação, edição e masterização – José Manuel Fortes

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!

Poema: Eugénio de Andrade (in “As Mãos e os Frutos”, Lisboa: Portugália Editora, 1948 – p. 55-57; “Poemas 1945-1965”, col. Poetas de Hoje, Lisboa: Portugália Editora, 1965 – p. 55-56)
Música: Fernando Lopes-Graça (ciclo “As Mãos e os Frutos”, 1959)
Intérpretes: João Rodrigues & Nuno Vieira de Almeida* (in CD “Fernando Lopes-Graça: Clepsidra; As Mãos e os Frutos; 3 Canções de Fernando Pessoa”, Tradisom, 2009)

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!
Porque não vens de olhos enxutos
e não despes as mãos
de mágoas e de lutos!

Porque hás-de vir semimorta,
com um ar macerado e de bruxedo,
e não despes os ritmos, o cansaço,
e as lágrimas e os mitos e o medo!

Porque não vens natural,
como um corpo sadio que se entrega,
e não destranças os cabelos
e não nimbas de luz a tua treva!

Porque hás-de vir com a cor da morte
— se morte já temos nós!
Porque adormeces os gestos,
porque entristeces os versos,
e nos quebras os membros e a voz!

Porque é que vens adorada
por uma longa procissão de velas,
se eu estou à tua espera em cada estrada,
nu, inteiramente nu,
sem mistérios, sem luas e sem estrelas!

Ó noite eterna e velada,
senhora da tristeza, sê alegria!
Vem doutra maneira ou vai-te embora,
e deixa romper o dia!

* João Rodrigues – voz (tenor)
Nuno Vieira de Almeida – piano
Assistente musical – Fernando Serafim
Supervisão artística – Nuno Vieira de Almeida
Técnico de piano – Fernando Rosado
Coordenação executiva – José Moças
Gravado na Escola Superior de Música de Lisboa, de 3 a 15 de Agosto de 2009
Gravação, edição e masterização – José Manuel Fortes

Não É Verdade

Poema: Eugénio de Andrade (in “As Palavras Interditas”, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 61-62)
Música: Fernando Guerra
Intérprete: Simone de Oliveira* (in single “Não É Verdade / Maria Saudade”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1978; LP “Simone”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1979; CD “Grandes Êxitos”, Movieplay, 1992; CD “Simone de Oliveira”, col. Clássicos da Renascença, vol. 37, Movieplay, 2000)

Cai, como antigamente, das estrelas
um frio que se espalha na cidade.
Não é noite nem dia, é o tempo ardente
da memória das coisas sem idade.

O que sonhei cabe nas tuas mãos
gastas a tecer melancolia:
um país crescendo em liberdade,
aureolado de trigo e de alegria.

Porém a morte passeia nos quartos,
ronda as esquinas, entra nos navios,
o seu olhar é verde, o seu vestido branco,
cheiram a cinza os seus dedos frios.

Entre um céu sem cor e montes de carvão
o ardor das estações cai apodrecido;
os mastros e as casas escorrem sombra,
só o sangue brilha endurecido.

Não é verdade tanta loja de perfumes,
não é verdade tanta rosa decepada,
tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
tanto relógio, tanta pomba assassinada.

Não quero para mim tanto veneno,
tanta madrugada erguida pelo gelo,
nem olhos pintados onde morre o dia,
nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

Amanhece.
Um galo risca o silêncio
desenhando o teu rosto nos telhados.
Eu falo do jardim onde começa
Um dia claro de amantes enlaçados.

Nota: Os versos “aureolado de trigo e de alegria” e “tanta madrugada erguida pelo gelo” foram posteriormente modificados pelo autor, surgindo na edição canónica da poesia reunida (“Poesia”, Fundação Eugénio de Andrade, 2005) com a forma, respectivamente, “entre medas de trigo e de alegria” e “tanta madrugada varrida pelo gelo”.

* Arranjos e direcção de orquestra – Thilo Krasmann
Produção – Carlos Lacerda
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – José Manuel Fortes e Luís Alcobia

Um Nome

Poema: Eugénio de Andrade (in “Mar de Setembro”, Porto: Imprensa Portuguesa, 1961; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 112)
Música: Fernando Lopes-Graça (ciclo “Mar de Setembro”, 1962)
Intérpretes: Fernando Serafim & Fernando Lopes-Graça* (in 10CD “Centenário Fernando Lopes-Graça (1906-1994) – Arquivos da RDP”: CD8, RDP-Radiodifusão Portuguesa, 2006)

Di-lo-ei pela cor dos teus olhos,
pela luz
onde me deito;
di-lo-ei, Deus de perdoe, pelo ódio,
pelo amor
com que toquei as pedras nuas,
por uns passos verdes de ternura,
pelas adelfas,
quando as adelfas nestas ruas
podem saber a morte;
pelo mar
azul,
azul-cantábrico, azul-bilbau,
quando amanhece;
di-lo-ei pelo sangue
violado
e limpo e inocente;
por uma árvore,
uma só árvore, di-lo-ei:
Guernica!

Nota: O trecho “di-lo-ei, Deus de perdoe, pelo ódio,/ pelo amor” foi posteriormente modificado pelo autor surgindo na edição canónica da poesia reunida (“Poesia”, Fundação Eugénio de Andrade, 2005) com a forma “di-lo-ei pelo ódio, pelo amor”.

* Fernando Serafim – voz (tenor)
Fernando Lopes-Graça – piano
Gravado na Emissora Nacional, Lisboa, a 11 de Janeiro de 1963

URGENTEMENTE

Poema de Eugénio de Andrade (in “Até Amanhã”, Lisboa: Guimarães Editores, 1956; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 78-79)
Recitado por Mário Viegas

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Urgentemente

Poema: Eugénio de Andrade (adaptado) [texto original >> acima]
Música: Pedro Costa; Queco
Intérprete: Nortada* (in LP “Urgentemente”, Ovação, 1991, reed. “Urgentemente 97: Memória dos Que Passam”, Associação Ricardo Marques/Ovação, 1997)

[instrumental]

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar. [bis]

[instrumental]

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar. [bis]

[instrumental]

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios,
rosas e rios e manhãs claras.

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar. [bis]

[instrumental]

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar. [bis]

[instrumental]

É urgente o amor, é urgente
permanecer.

* Nortada:
Ricardo Marques – voz
Queco – teclados
Santiago Ribeiro – saxofone
Carlos Costa – bateria
Pedro Costa – cordas e percussões
João Ricardo – baixo e guitarra clássica
Produção – Jorge Quintela
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa
Técnico de som – João Pedro de Castro

Lisboa

Poema: Eugénio de Andrade (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Trovante
Intérprete: Trovante* (in LP “Baile no Bosque”, Valentim de Carvalho, 1981, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD “Saudades do Futuro: O Melhor dos Trovante”: CD1, EMI-VC, 1991)

Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes…»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

[instrumental]

Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes…»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

[instrumental]

* Trovante:
Artur Costa – saxofone alto, flauta de bisel, voz
João Gil – viola, voz
João Nuno Represas – percussões, voz
Luís Represas – voz solo, bandolim
Manuel Faria – pianos acústico e eléctrico, Yamaha CS 80, e acordeão
Participação especial de:
Fernando Júdice – baixo eléctrico, contrabaixo
Guilherme Inês – bateria
Luís Caldeira – flauta transversal
Arranjos e direcção musical – Trovante
Produção – Nuno Rodrigues
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos, em Março de 1981
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Corte – Fernando Cortês
Montagem digital (edição em CD) – Miguel Gonçalves

LISBOA

(Eugénio de Andrade, in “Coração do Dia”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 93-94)

Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes…»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu sabias?

Já não se vê o trigo

Poema de Eugénio de Andrade (in “Branco no Branco”, Porto: Limiar, 1984; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 358-359)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD “Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX”: CD2, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)

Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo

infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.

* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel

Canção Breve

Poema: Eugénio de Andrade (in “Os Amantes sem Dinheiro”, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 44-45)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP “O Peso da Sombra: A Poesia de Eugénio de Andrade”, Diapasão/Sassetti, 1980)

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

* Luís Cília – voz e viola
Pedro Osório – piano e sintetizador
Manuel João Afonso – violino
António Oliveira e Silva – violeta
Luiza de Vasconcelos – violoncelo
José Eduardo – viola baixo
Direcção musical – Luís Cília
Produção – Sassetti
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa, a 12, 13 e 14 de Dezembro de 1979
Técnicos de som – Rui Remígio, Fernando Santos e Luís Flor

Encostas a face à melancolia…

Poema de Eugénio de Andrade (in “Branco no Branco”, Porto: Limiar, 1984; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 353)
Recitado por Natália Luiza* (in Livro/2CD “Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX”: CD2, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)

Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves

à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também

foi sobre as dunas a exaltação.
Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.

* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel

CAVATINA

Poema de Eugénio de Andrade (in “Véspera da Água”, Porto: Editorial Inova, 1973; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 202)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)

Obstruído o caminho da transparência
só me resta reunir os fragmentos do sol nos espelhos
e com eles junto ao coração
atravessar indiferente a desordem matinal dos mastros.

Quanto mais envelheço mais pueril é a luz
mas essa vai comigo.

Cavalos

Poema: Eugénio de Andrade (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: José Abreu
Arranjo: Ciro Bertini
Intérprete: Samasati* (in CD “ArrePios d’Alma”, MIG Produções, 2009)

Cavalos de sol sedentos,  | bis
mansos cavalos de seda.  |
Cavalos bebendo a sombra
verde e rosa das palmeiras
ou bailando nas areias
com as luzes derradeiras. [bis]

Cavalos de sol sedentos,  | bis
mansos cavalos de seda.  |
Cavalos de romanceiro
disparados como setas
em terras da minha terra
ou só na minha cabeça. [bis]

Cavalos de sol sedentos,  | bis
mansos cavalos de seda.  |
Cavalos bebendo a sombra
verde e rosa das palmeiras
ou bailando nas areias
com as luzes derradeiras. [bis]

Cavalos de sol sedentos,  | bis
mansos cavalos de seda.  |
Cavalos de romanceiro
disparados como setas
em terras da minha terra
ou só na minha cabeça. [4x]

* [Créditos gerais do disco:]
José Abreu – voz
Raul Abreu – guitarra portuguesa, guitarras acústicas adicionais e coros
Ciro Bertini – piano, flauta, acordeão, contrabaixo
Ruca Rebordão – percussão
Mauro Ramos – bateria
Dikk – baixo
Miguel Camilo – guitarras acústicas
Produzido por Ciro Bertini
Gravado e misturado por Miguel Camilo nos MIG Estúdios, Sintra, em 2001
Masterizado por Miguel Camilo, nos MIG Estúdios

CAVALOS

(Eugénio de Andrade, in “Aquela Nuvem e Outras”, ilustrações por Júlio Resende, Porto: Edições Asa, 1986)

Uma canção de cavalos
me pede o Miguel que escreva:
Cavalos de sol sedentos,
mansos cavalos de seda.
Cavalos bebendo a sombra
verde e rosa das palmeiras
ou bailando nas areias
com as luzes derradeiras.
Cavalos de romanceiro
disparados como setas
em terras da minha terra
ou só na minha cabeça.
Cavalos de sol sedentos,
mansos cavalos de seda:
uma canção de cavalos
me pede o Miguel que escreva.

AS PALAVRAS

Poema de Eugénio de Andrade (in “Coração do Dia”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 88)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

O SAL DA LÍNGUA

Poema de Eugénio de Andrade (in “O Sal da Língua”, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1995; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 541-542)
Recitado por José Manuel Mendes* (poeta) (in CD “Vozes Poéticas da Lusofonia por Timor: Festa da Língua Portuguesa”, Gravisom, 1999)

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém — mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

* Gravado nos estúdios da RDP, Lisboa, a 22 de Junho de 1999
Produção digital – José M. Gouveia (RDP)
Masterização – João Oliveira, nos Estúdios Gravisom, Lisboa

O LUGAR DA CASA

Poema de Eugénio de Andrade (in “O Sal da Língua”, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1995; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 514)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

METAMORFOSES DA CASA

Poema de Eugénio de Andrade (in “Ostinato Rigore”, Lisboa: Guimarães Editores, 1964; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 125)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

Tocaram a terra, o céu de nuvens claras

Poema de Eugénio de Andrade (in “Branco no Branco”, Porto: Limiar, 1984; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 364-365)
Recitado por Natália Luiza* (in Livro/2CD “Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX”: CD2, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)

Tocaram a terra, o céu de nuvens claras,
demoraram-se nos ramos,
abriram-se à secura,
por momentos foram constelação.

Chegavam à noite fatigadas,
mal dormiam inquietas com a morte
das águas. O ardor
das manhãs tornava-as diáfanas.

Era seu ofício acariciar a luz,
colher no ar
a forma de um fruto, de uma pedra,
levá-los em segredo para casa.

assim eram as mãos, elas próprias
não o sabiam.

* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel

OS TRABALHOS DA MÃO

Poema de Eugénio de Andrade (in “Ofício de Paciência”, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1994; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 498)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)

Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita.
A si coube sempre
a tarefa mais dura: semear, colher,
coser, esfregar. Mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatigá-la.
O fim não pode tardar: oxalá
tenha em conta a sua nobreza.

CORAÇÃO DO DIA

Poema de Eugénio de Andrade (in “Coração do Dia”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 89)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD “Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX”: CD2, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)

Olhas-me ainda, não sei se morta:
desprendida
de inumeráveis, melancólicos muros;
só lembrada
que fomos jovens e formosos,
alados e frescos e diurnos.

De que lado adormeces?
Alma: nada te dói?
Não te dói nada, eu sei;
agora o corpo é formosura
urgente de ser rio:
ao meu encontro voa.

Nada te fere, nada te ofende.
Numa paisagem de água,
tranquilamente,
estendes os teus ramos
que só a brisa afaga.
A brisa e os meus dedos
fragrantes do teu rosto.

Mãe, já nada nos separa.
Na tua mão me levas,
uma vez mais,
ao bosque onde me sento
à tua sombra.
— Como tu cresceste! —
suspiras.

Alma: como eu cresci.
E como tu és
agora
pequena, frágil, orvalhada.

* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel

PEQUENA ELEGIA DE SETEMBRO

Poema de Eugénio de Andrade (in “Coração do Dia”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 92-93)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Não há ninguém à entrada de novembro

Poema de Eugénio de Andrade (in “Branco no Branco”, Porto: Limiar, 1984; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 377)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)

Não há ninguém à entrada de novembro.
Vem como se não fora nada.
A porta estava aberta,
entrou quase sem pisar o chão.

Não olhou o pão, não provou o vinho.
Não desatou o nó cego do frio.
Só na luz das violetas se demora
sorrindo à criança da casa.

Essa boca, esse olhar. Essa mão
de ninguém. Vai-se embora,
tem a sua música, o seu rigor, o seu segredo.
Antes porém acaricia a terra.

Como se fora sua mãe.

O INOMINÁVEL

Poema de Eugénio de Andrade (in “Ofício de Paciência”, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1994; “Poesia”, 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 497)
Dito pelo autor (in CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade”, Numérica, 1997)

Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
— nem sequer sabemos se tens nome.


Capa do LP “O Peso da Sombra: A Poesia de Eugénio de Andrade”, de Luís Cília (Diapasão/Sassetti, 1980)


Capa do CD “Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade” (Numérica, 1997)
Retrato por Jorge Ulisses (1980).
Contém quarenta e dois poemas de Eugénio de Andrade ditos pelo autor.


Capa do livro “Poesia”, 2.ª edição, revista e acrescentada (Fundação Eugénio de Andrade, Dezembro de 2005)
Poesia reunida. Organização, nota de edição e bibliografia por Arnaldo Saraiva.


Eugénio de Andrade por Luís Dourdil (1941)


Eugénio de Andrade por Martins Correia (1949)


Eugénio de Andrade por Júlio Pomar (1951)


Eugénio de Andrade por Carlos Carneiro (1953)


Eugénio de Andrade por Dórdio Gomes (1960)


Eugénio de Andrade por Lagoa Henriques (1965)


Eugénio de Andrade por Júlio Resende (1976)


Eugénio de Andrade por Mário Botas (1980)


Eugénio de Andrade por Graça Martins (1987)


Manuscrito autografado do poema “Retrato”

__________________

Outro artigo sobre Eugénio de Andrade neste blogue:
Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade

Sem comentários:

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s