O MAPA (A saga do anadel)-VIII- um vizinho de Alfama – por Carlos Loures

Lisboa, manhã de domingo, 20 de Agosto de 1485.

 

A mulher, bonita, roliça e ainda jovem, com uma mantilha negra cobrindo-lhe a cabeça, vem abrir a porta. Parado ao cimo da escada, depara-se-lhe um moço cuidadosamente trajado. Um visitante jovem, mas com um ar austero, quase assustador. Sob a aba do chapéu, uns olhos escuros perscrutam-na, parecendo capazes de lhe ler o pensamento. A voz é seca e as palavras cuidadosamente pronunciadas, com um acento estrangeiro:

– Quero falar com ele.

A mulher, compõe com os dedos o cabelo escuro sob a renda da mantilha, enquanto diz para dentro:

– Está aqui um senhor para falar contigo – afasta-se para o estrangeiro passar.

Um rapaz magro, de cabelo cortado curto, vem do interior da casa onde estava a barbear-se, preparando-se para ir à missa na Sé.

O visitante é um jovem moreno de estatura meã, bem trajado com roupas leves cobertas com uma capa rachada em tecido de cambraia. Na cabeça um capeirão cuja aba dianteira quase lhe cobre o rosto. Atavios de cores escuras, austeras. Entra sem retirar o chapéu. Olha em redor, o ambiente modesto da casa, como que avaliando-o. Esboça um sorriso irónico ao ver uma profusão de crucifixos e de imagens de santos. O jovem convida-o a sentar-se, enquanto com uma toalha limpa da cara os restos de sabão. O visitante senta-se e num português correcto, mas com forte acento, pergunta:

– Então já me sabes dizer quando?

– Na próxima sexta-feira, depois das Trindades.

– Porquê? – Não pode ser antes?

– É o dia em que… – olha a mulher que está parada a escutá-los… os sábios hebreus, o costumam visitar. Não vai poder sair muito cedo, tanto mais que no sábado tem um trabalho para entregar – e conclui – depois de eles saírem ficará sozinho.

– Seja então sexta-feira. Temos de falar com o tal Gato Pardo – e levanta-se – o moço, com algum embaraço, pergunta-lhe:

– Não lhe farão mal, pois não? – O estrangeiro, leva os dedos da mão direita ao seu colar. Ri-se:

– Claro que não! Uns safanões quando muito… – depois aponta os santos e os crucifixos – Os conversos são sempre exagerados a ostentar a conversão – ri-se e acrescentou voltando para o casal uma máscara onde já não há riso, apenas um ar taciturno, ameaçador – Cuidado. Os verdadeiros cristãos sabem isso! – e sai sem se despedir.

O rapaz olha a mulher que foi fechar a porta. Ouvem os passos do estrangeiro descendo os degraus:

– Não sei se devia fazer isto. E se o maltratam?

– Uns safanões, tu ouviste. Que mal lhe podem fazer uns safanões?

– Não sei, temo…

– Não temas. Vai correr tudo bem.

– Mas devo-lhe tanto, foi como um pai para mim.

– Ah foi? Não terá sido mais como um amo para ti? Não tens sido um servo? Não lhe fazes os recados? Não preparas a mesa para ele e os amigos merendarem? Estudaste na escola-catedral, como o filho?

– Bem, ensinou-me a profissão…

– Ora, ora! Uns safanões não o vão matar. E o dinheiro faz-nos falta – e encaminhando-se para a porta – Anda, não percas mais tempo, vamos à missa. Ainda chegamos atrasados.

 

 

 

 

 

 

 

Mosteiro de São Francisco, Inverno de 1561.

 

O mosteiro de São Francisco de Enxobregas dista dos muros da cidade, para Oriente, um terço de légua. Neste albergue de cinquenta e cinco frades menores de observância, tem decorrido a minha vida, de modo tranquilo. São dias feitos de silêncios, de refeições acompanhadas pela leitura das Sagradas Escrituras, de meditativos passeios pelo claustro e pelo pinhal que envolve o mosteiro, de toques de sinos a horas certas – das Matinas às Ave-marias, das Laudes às Completasde recolhimento à sombra da cela que se transformou na carapaça onde abrigo uma vida de tartaruga. Frades cenóbios, observantes ou de observância, são os que seguem a regra e o exemplo da vida de recolhimento e mendicância levada pelo nosso santo fundador, il poverello. No Reino, além dos observantes, a ordem acolhe monges claustrais, que ensinam Teologia ou tentam moderar as tentações mundanas que flagelam os grandes, integrando, como conselheiros ou confessores, o pessoal da Corte.

Pessoas há que nascem para navegar a existência sem aventuras. Sou uma delas. Talvez por isso, tanto me entusiasme a evocação dos feitos de meu pai e de meu trisavô. A tartaruga inveja a lebre – interrogo-me se não sucederá também o contrário. Meu bisavô e meu avô viveram, como eu, vidas ordenadas, pacatas, honestas. Descoloridas, como são as vidas ordenadas, pacatas e honestas. Tendo em conta os meus estudos de Latim, Ética, Filosofia e outros temas humanísticos, para não falar das Sagradas Escrituras, saberes adquiridos à força de chibatadas com os bons clérigos que ensinavam na escola catedralícia da Praça dos Escanos, esperava que me fosse confiada a biblioteca que, como pude observar quando aqui cheguei, estava num caos em que só o irmão Bernardo, o velho bibliotecário, se sabia orientar. Se lhe pedíamos um livro, o santo homem lá ia encontrá-lo sem hesitação, entre os milhares de códices, em pergaminho ou papel, que as estantes acolhiam. Acocorava-se rente ao chão ou trepava a escadas de madeira, com uma rapidez que, dada a sua avançada idade, nos fazia temer pela sua segurança. Porém, se queríamos ser nós a encontrar a obra pretendida, bem podíamos desesperar, pois a bússola que permitia navegar aquele oceano de conhecimento, perdia-se nos esconsos labirintos da bernardina mente. A ordenação pela qual arrumava os muitos espécimes do espólio, não era alfabética em relação aos títulos, nem temática, nem onomástica, estabelecida por afinidades idiomáticas ou quaisquer outras… O sistema parecia ser algo de iniciático. Uma vez em que buscando um livro, o questionei sobre o seu método de arrumação, se assim podia chamar àquela barafunda, tendo-o veladamente, censurado, ouvi do velho Bernardo um resmungo logo seguido de um anexim: «A colher é que sabe da quentura da panela». Parecia ser um caótico universo onde os astros colidiam entre si, porém Bernardo, seguindo regras que só ele conhecia, mantinha tudo a funcionar sem atropelos, numa ordem que Nosso Senhor não consegue impor ao desatinado mundo em que vivemos. Foi-me mais fácil, na infância, entender o mistério da Santíssima Trindade do que a explicação que o irmão Bernardo me deu, mais do que uma vez, quando tive de recorrer ao saber acumulado no seu feudo de papel, pergaminho, velo e, sobretudo, muita poeira, feudo compartilhado com as numerosas, e mui sábias, aranhas que por ali teciam e continuam a tecer suas teias.

Quando disse ao superior do convento, o abade Malaquias, da minha pretensão de ajudar o irmão Bernardo e de o poder vir a substituir num futuro que a Natureza iria estabelecer, pois Bernardo ultrapassara já nessa altura os setenta anos e, embora estivesse longe de mim o querer impor limites à generosidade divina, parecia evidente que não poderia manter-se por muito mais tempo no seu lugar. Porém, o superior opinou que eu era demasiado jovem para uma tarefa tão exigente em experiência e encontrou-me uma ocupação que entendeu ser semelhante à que eu pretendia. Fui encarregado de tratar da vasta horta do convento que descia por uma verdejante encosta até às mansas águas do rio e de me habilitar nas misteriosas artes de bem semear e colher os legumes com que se cozinham as substanciosas sopas e saladas desta pequena comunidade de frades e servidores. Um velho monge, tolhido pelo reumatismo e pela artrite, o irmão Afonso, semi analfabeto, mas sabedor de tudo ao que plantas, ervas, hortaliças e flores dissesse respeito, foi o meu mestre. Tudo o que sei de horticultura e floricultura lhe devo, para não falar nos muitos anexins que com ele fui aprendendo. Era uma cena diária que, sobretudo os noviços, não dispensavam – o irmão Afonso, sentado num escano, dando-me as suas instruções e rindo depois até ficar roxo e quase sufocar perante o espectáculo da minha inabilidade e eu, esforçando-me, de enxada ou ancinho em punho, resmungando e maltratando os canteiros e leiras. Porém, como quase sempre acontece com todas as coisas, embora, até então, mal distinguisse um pinheiro de uma macieira, acabei por aprender e me tornar um hortelão, senão competente, pelo menos razoável. Mesmo quando nos julgamos perdidos e nos achamos imersos em trevas, mergulhados em profunda escuridão, à força de muito tropeçar e de bater com a cabeça nas paredes e nas traves do tecto, acabamos sempre por encontrar uma salvadora saída para a luz.

Foram mais de trinta anos a sachar, a mondar ervas daninhas, suspenso do brotar dos rebentos das hortaliças, dos feijões, favas, nabos, espinafres, alfaces, ervilhas, chícharos, alhos, salsa, cebolas e cebolinhas, cenouras, beringelas, lentilhas, rábanos. Podando árvores de fruto, figueiras, macieiras, amoreiras, nespereiras, laranjeiras… Semeando bolbos de flores, que o abade e o prior queriam vê-las a enfeitar o refeitório. Atento aos calendários hortícolas e aos muitos e quase sempre acertados, mas mui estultos provérbios. – Hortelão sem hortelã, não tem horta amanhã, horta sem água, casa sem telhado, há chuva que seca e há sol que rega, a má erva depressa nasce e tarde e tudo envelhece, não é pancada de vara que amadurece a azeitona, a erva Maio a dá, Maio a leva, a má erva mata a boa, a lavrador descuidado os ratos comem o semeado e por aí fora…

Bernardo, passados já os cem anos, entregou a alma ao Criador e julguei chegada a altura de a biblioteca ficar ao meu cuidado. Quantas vezes, sachando, regando, colhendo ou mondando, pensava engenhosos métodos de organização para aquele acervo de saber. Mas não. Que estava, disse o prior, demasiado velho para uma tarefa sequiosa de um espírito jovem aberto às coisas novas que o mundo apresenta. Esta foi, portanto, a douta opinião do novo superior, pois o que ditara a sentença oposta falecera já. O irmão Emanuel, um jovem noviço, sobrinho de um senhor bispo, ficou encarregue dessa tarefa que eu tanto ambicionara. Manda, no entanto, a verdade que se diga que, embora demasiado efeminado para o meu gosto, cumpre o seu trabalho de acordo com as regras da ciência biblioteconómica. Porém, fere-me esta mágoa de, na opinião da comunidade que constitui o meu universo, nunca ter passado pela idade madura – de jovem criançola inexperiente logo passei a velha e inútil carcaça. Como quem saltasse do berço para a tumba. Mas um homem habitua-se a tudo e, eu que passei tantos anos a lamentar a minha sorte, amaldiçoando hortaliças e frutos, foi com tristeza que, tal como decerto acontecera ao irmão Afonso quarenta anos antes, quando os meus rins já não suportavam a posição curvada que a profissão de hortelão exigia e o irmão físico me proibiu de fazer esforços corporais (além de outros problemas – o coração tinha, disse, um leve sopro), foi com tristeza que abandonei essa desinteressante labuta e recolhi à frescura da minha cela, entregue aos meus livros e escritas.

Tenho ademais a responsabilidade das contas da comunidade, de gerir os parcos meios económicos que nos chegam de prebendas e dádivas. Trabalho fácil, pois os proventos são poucos. Não temos renda certa – vivemos de esmolas, das missas rezadas e de algumas ofertas de trigo, azeite, vinho, carne que pedimos pelos limites e comarcas da cidade. Nesta economia a horta, as capoeiras e o curral representam um papel importante. Irmão ecónomo me chamam agora. Porém, não me privo de, quando os olhos se cansam de ler e escrever e de fazer e assentar contas das receitas de esmolas, óbulos e outros proventos, como, por exemplo, a venda dos produtos hortícolas, de galinhas, patos e respectivos ovos, vir até à horta, vigiar as plantas e, gozando do privilégio que os velhos sempre têm, de poder arremessar sentenças aos jovens, esticar o dedo e dar alguns ensinamentos ao jovem hortelão que me substituiu. Trata-se de um rapaz forte e corado, vindo das Beiras, nascido junto de couves, de ervas, de criação de toda a espécie e que, mesmo antes de lhe terem irrompido os segundos dentes, já me poderia dar lições de horticultura. O pobre ouve, de cabeça baixa os meus ensinamentos, se assim se lhes pode chamar, e suporta sem queixas as minhas censuras disparatadas. Terá de esperar algumas décadas para, por seu turno, poder desempenhar o mesmo papel junto de quem o vier substituir. Nessa altura já cá não estarei para assistir a essa cena e quem vier atrás que feche a porta e sopre o pavio da candeia.

A função de ecónomo deixa-me tempo livre – dedicado a plantar, sachar, regar, mondar e a colher vocábulos. Hortelão de palavras, sou agora. Os oitenta anos vêm aí a galope e resolvi não deixar para mais tarde uma tarefa que fui adiando, sobretudo pelo receio de me meter numa embrulhada de difícil saída – narrar a história do mapa que envolve várias gerações da minha família – do meu trisavô almogárave, passando pelo meu bisavô copista do Tombo, pelo meu avô desenhador de mapas e portulanos, e pelo meu pai anadel da alcaidaria de Lisboa. Se me incluísse na lista, seriam cinco gerações. Mas o que pode acrescentar a esta panóplia de gente que, de uma maneira ou outra, teve existências notáveis, o obscuro trajecto de um escrivão judicial, frade ou hortelão, ecónomo…? Pouco ou nada. Diga-se que, apesar do tronco seco em que me transformei, a árvore frondosa dos Mateus continua a dar frutos, a estender os seus ramos para o céu. José, meu irmão mais novo, impressor, casou, tem dois filhos e um neto varão. Por insistência minha, seu padrinho de baptismo, chama-se Bartolomeu. Tem quinze anos e é assomadiço como o almogárave. A interminável cobra dos tempos, desta vez, morde gentilmente a cauda.

Embora, pela disciplina da ordem, aos frades esteja vedado possuir bens pessoais, dada a minha idade e a crescente fraqueza das pernas, o actual prior, o irmão Pedro, autorizou-me a ter na cela uma pequena, mas bem provida biblioteca que trouxe da casa de Alfama. São obras legadas por meu bisavô e por meu avô. Aqui guardo as memórias e notas que me deixaram e os apontamentos tomados nas conversas com meu pai. Bem como um códice iluminado e escrito em hebraico. Quando me finar, os livros passarão para a biblioteca do convento e ficarão, segundo tudo o indica, à guarda do irmão Emanuel. Foi o acordo que comigo estabeleceu o prior. Trouxe também um gomil de louça de Talavera que, cheio de água pura tirada do poço do claustro, serve para, de quando em vez, deitando-a para o copo de estanho com que lhe cubro a boca, mitigar a sede que as recordações me provocam. Comprou-o, há cento e dois anos, minha tia-avó Beatriz num tendeiro da Rua Nova dos Mercadores.

 

Lisboa, manhã de domingo, 20 de Agosto de 1485.

 

A mulher, bonita, roliça e ainda jovem, com uma mantilha negra cobrindo-lhe a cabeça, vem abrir a porta. Parado ao cimo da escada, depara-se-lhe um moço cuidadosamente trajado. Um visitante jovem, mas com um ar austero, quase assustador. Sob a aba do chapéu, uns olhos escuros perscrutam-na, parecendo capazes de lhe ler o pensamento. A voz é seca e as palavras cuidadosamente pronunciadas, com um acento estrangeiro:

– Quero falar com ele.

A mulher, compõe com os dedos o cabelo escuro sob a renda da mantilha, enquanto diz para dentro:

– Está aqui um senhor para falar contigo – afasta-se para o estrangeiro passar.

Um rapaz magro, de cabelo cortado curto, vem do interior da casa onde estava a barbear-se, preparando-se para ir à missa na Sé.

O visitante é um jovem moreno de estatura meã, bem trajado com roupas leves cobertas com uma capa rachada em tecido de cambraia. Na cabeça um capeirão cuja aba dianteira quase lhe cobre o rosto. Atavios de cores escuras, austeras. Entra sem retirar o chapéu. Olha em redor, o ambiente modesto da casa, como que avaliando-o. Esboça um sorriso irónico ao ver uma profusão de crucifixos e de imagens de santos. O jovem convida-o a sentar-se, enquanto com uma toalha limpa da cara os restos de sabão. O visitante senta-se e num português correcto, mas com forte acento, pergunta:

– Então já me sabes dizer quando?

– Na próxima sexta-feira, depois das Trindades.

– Porquê? – Não pode ser antes?

– É o dia em que… – olha a mulher que está parada a escutá-los… os sábios hebreus, o costumam visitar. Não vai poder sair muito cedo, tanto mais que no sábado tem um trabalho para entregar – e conclui – depois de eles saírem ficará sozinho.

– Seja então sexta-feira. Temos de falar com o tal Gato Pardo – e levanta-se – o moço, com algum embaraço, pergunta-lhe:

– Não lhe farão mal, pois não? – O estrangeiro, leva os dedos da mão direita ao seu colar. Ri-se:

– Claro que não! Uns safanões quando muito… – depois aponta os santos e os crucifixos – Os conversos são sempre exagerados a ostentar a conversão – ri-se e acrescentou voltando para o casal uma máscara onde já não há riso, apenas um ar taciturno, ameaçador – Cuidado. Os verdadeiros cristãos sabem isso! – e sai sem se despedir.

O rapaz olha a mulher que foi fechar a porta. Ouvem os passos do estrangeiro descendo os degraus:

– Não sei se devia fazer isto. E se o maltratam?

– Uns safanões, tu ouviste. Que mal lhe podem fazer uns safanões?

– Não sei, temo…

– Não temas. Vai correr tudo bem.

– Mas devo-lhe tanto, foi como um pai para mim.

– Ah foi? Não terá sido mais como um amo para ti? Não tens sido um servo? Não lhe fazes os recados? Não preparas a mesa para ele e os amigos merendarem? Estudaste na escola-catedral, como o filho?

– Bem, ensinou-me a profissão…

– Ora, ora! Uns safanões não o vão matar. E o dinheiro faz-nos falta – e encaminhando-se para a porta – Anda, não percas mais tempo, vamos à missa. Ainda chegamos atrasados.

 

 

 

 

 

Mosteiro de São Francisco, Inverno de 1561.

 

O mosteiro de São Francisco de Enxobregas dista dos muros da cidade, para Oriente, um terço de légua. Neste albergue de cinquenta e cinco frades menores de observância, tem decorrido a minha vida, de modo tranquilo. São dias feitos de silêncios, de refeições acompanhadas pela leitura das Sagradas Escrituras, de meditativos passeios pelo claustro e pelo pinhal que envolve o mosteiro, de toques de sinos a horas certas – das Matinas às Ave-marias, das Laudes às Completasde recolhimento à sombra da cela que se transformou na carapaça onde abrigo uma vida de tartaruga. Frades cenóbios, observantes ou de observância, são os que seguem a regra e o exemplo da vida de recolhimento e mendicância levada pelo nosso santo fundador, il poverello. No Reino, além dos observantes, a ordem acolhe monges claustrais, que ensinam Teologia ou tentam moderar as tentações mundanas que flagelam os grandes, integrando, como conselheiros ou confessores, o pessoal da Corte.

Pessoas há que nascem para navegar a existência sem aventuras. Sou uma delas. Talvez por isso, tanto me entusiasme a evocação dos feitos de meu pai e de meu trisavô. A tartaruga inveja a lebre – interrogo-me se não sucederá também o contrário. Meu bisavô e meu avô viveram, como eu, vidas ordenadas, pacatas, honestas. Descoloridas, como são as vidas ordenadas, pacatas e honestas. Tendo em conta os meus estudos de Latim, Ética, Filosofia e outros temas humanísticos, para não falar das Sagradas Escrituras, saberes adquiridos à força de chibatadas com os bons clérigos que ensinavam na escola catedralícia da Praça dos Escanos, esperava que me fosse confiada a biblioteca que, como pude observar quando aqui cheguei, estava num caos em que só o irmão Bernardo, o velho bibliotecário, se sabia orientar. Se lhe pedíamos um livro, o santo homem lá ia encontrá-lo sem hesitação, entre os milhares de códices, em pergaminho ou papel, que as estantes acolhiam. Acocorava-se rente ao chão ou trepava a escadas de madeira, com uma rapidez que, dada a sua avançada idade, nos fazia temer pela sua segurança. Porém, se queríamos ser nós a encontrar a obra pretendida, bem podíamos desesperar, pois a bússola que permitia navegar aquele oceano de conhecimento, perdia-se nos esconsos labirintos da bernardina mente. A ordenação pela qual arrumava os muitos espécimes do espólio, não era alfabética em relação aos títulos, nem temática, nem onomástica, estabelecida por afinidades idiomáticas ou quaisquer outras… O sistema parecia ser algo de iniciático. Uma vez em que buscando um livro, o questionei sobre o seu método de arrumação, se assim podia chamar àquela barafunda, tendo-o veladamente, censurado, ouvi do velho Bernardo um resmungo logo seguido de um anexim: «A colher é que sabe da quentura da panela». Parecia ser um caótico universo onde os astros colidiam entre si, porém Bernardo, seguindo regras que só ele conhecia, mantinha tudo a funcionar sem atropelos, numa ordem que Nosso Senhor não consegue impor ao desatinado mundo em que vivemos. Foi-me mais fácil, na infância, entender o mistério da Santíssima Trindade do que a explicação que o irmão Bernardo me deu, mais do que uma vez, quando tive de recorrer ao saber acumulado no seu feudo de papel, pergaminho, velo e, sobretudo, muita poeira, feudo compartilhado com as numerosas, e mui sábias, aranhas que por ali teciam e continuam a tecer suas teias.

Quando disse ao superior do convento, o abade Malaquias, da minha pretensão de ajudar o irmão Bernardo e de o poder vir a substituir num futuro que a Natureza iria estabelecer, pois Bernardo ultrapassara já nessa altura os setenta anos e, embora estivesse longe de mim o querer impor limites à generosidade divina, parecia evidente que não poderia manter-se por muito mais tempo no seu lugar. Porém, o superior opinou que eu era demasiado jovem para uma tarefa tão exigente em experiência e encontrou-me uma ocupação que entendeu ser semelhante à que eu pretendia. Fui encarregado de tratar da vasta horta do convento que descia por uma verdejante encosta até às mansas águas do rio e de me habilitar nas misteriosas artes de bem semear e colher os legumes com que se cozinham as substanciosas sopas e saladas desta pequena comunidade de frades e servidores. Um velho monge, tolhido pelo reumatismo e pela artrite, o irmão Afonso, semi analfabeto, mas sabedor de tudo ao que plantas, ervas, hortaliças e flores dissesse respeito, foi o meu mestre. Tudo o que sei de horticultura e floricultura lhe devo, para não falar nos muitos anexins que com ele fui aprendendo. Era uma cena diária que, sobretudo os noviços, não dispensavam – o irmão Afonso, sentado num escano, dando-me as suas instruções e rindo depois até ficar roxo e quase sufocar perante o espectáculo da minha inabilidade e eu, esforçando-me, de enxada ou ancinho em punho, resmungando e maltratando os canteiros e leiras. Porém, como quase sempre acontece com todas as coisas, embora, até então, mal distinguisse um pinheiro de uma macieira, acabei por aprender e me tornar um hortelão, senão competente, pelo menos razoável. Mesmo quando nos julgamos perdidos e nos achamos imersos em trevas, mergulhados em profunda escuridão, à força de muito tropeçar e de bater com a cabeça nas paredes e nas traves do tecto, acabamos sempre por encontrar uma salvadora saída para a luz.

Foram mais de trinta anos a sachar, a mondar ervas daninhas, suspenso do brotar dos rebentos das hortaliças, dos feijões, favas, nabos, espinafres, alfaces, ervilhas, chícharos, alhos, salsa, cebolas e cebolinhas, cenouras, beringelas, lentilhas, rábanos. Podando árvores de fruto, figueiras, macieiras, amoreiras, nespereiras, laranjeiras… Semeando bolbos de flores, que o abade e o prior queriam vê-las a enfeitar o refeitório. Atento aos calendários hortícolas e aos muitos e quase sempre acertados, mas mui estultos provérbios. – Hortelão sem hortelã, não tem horta amanhã, horta sem água, casa sem telhado, há chuva que seca e há sol que rega, a má erva depressa nasce e tarde e tudo envelhece, não é pancada de vara que amadurece a azeitona, a erva Maio a dá, Maio a leva, a má erva mata a boa, a lavrador descuidado os ratos comem o semeado e por aí fora…

Bernardo, passados já os cem anos, entregou a alma ao Criador e julguei chegada a altura de a biblioteca ficar ao meu cuidado. Quantas vezes, sachando, regando, colhendo ou mondando, pensava engenhosos métodos de organização para aquele acervo de saber. Mas não. Que estava, disse o prior, demasiado velho para uma tarefa sequiosa de um espírito jovem aberto às coisas novas que o mundo apresenta. Esta foi, portanto, a douta opinião do novo superior, pois o que ditara a sentença oposta falecera já. O irmão Emanuel, um jovem noviço, sobrinho de um senhor bispo, ficou encarregue dessa tarefa que eu tanto ambicionara. Manda, no entanto, a verdade que se diga que, embora demasiado efeminado para o meu gosto, cumpre o seu trabalho de acordo com as regras da ciência biblioteconómica. Porém, fere-me esta mágoa de, na opinião da comunidade que constitui o meu universo, nunca ter passado pela idade madura – de jovem criançola inexperiente logo passei a velha e inútil carcaça. Como quem saltasse do berço para a tumba. Mas um homem habitua-se a tudo e, eu que passei tantos anos a lamentar a minha sorte, amaldiçoando hortaliças e frutos, foi com tristeza que, tal como decerto acontecera ao irmão Afonso quarenta anos antes, quando os meus rins já não suportavam a posição curvada que a profissão de hortelão exigia e o irmão físico me proibiu de fazer esforços corporais (além de outros problemas – o coração tinha, disse, um leve sopro), foi com tristeza que abandonei essa desinteressante labuta e recolhi à frescura da minha cela, entregue aos meus livros e escritas.

Tenho ademais a responsabilidade das contas da comunidade, de gerir os parcos meios económicos que nos chegam de prebendas e dádivas. Trabalho fácil, pois os proventos são poucos. Não temos renda certa – vivemos de esmolas, das missas rezadas e de algumas ofertas de trigo, azeite, vinho, carne que pedimos pelos limites e comarcas da cidade. Nesta economia a horta, as capoeiras e o curral representam um papel importante. Irmão ecónomo me chamam agora. Porém, não me privo de, quando os olhos se cansam de ler e escrever e de fazer e assentar contas das receitas de esmolas, óbulos e outros proventos, como, por exemplo, a venda dos produtos hortícolas, de galinhas, patos e respectivos ovos, vir até à horta, vigiar as plantas e, gozando do privilégio que os velhos sempre têm, de poder arremessar sentenças aos jovens, esticar o dedo e dar alguns ensinamentos ao jovem hortelão que me substituiu. Trata-se de um rapaz forte e corado, vindo das Beiras, nascido junto de couves, de ervas, de criação de toda a espécie e que, mesmo antes de lhe terem irrompido os segundos dentes, já me poderia dar lições de horticultura. O pobre ouve, de cabeça baixa os meus ensinamentos, se assim se lhes pode chamar, e suporta sem queixas as minhas censuras disparatadas. Terá de esperar algumas décadas para, por seu turno, poder desempenhar o mesmo papel junto de quem o vier substituir. Nessa altura já cá não estarei para assistir a essa cena e quem vier atrás que feche a porta e sopre o pavio da candeia.

A função de ecónomo deixa-me tempo livre – dedicado a plantar, sachar, regar, mondar e a colher vocábulos. Hortelão de palavras, sou agora. Os oitenta anos vêm aí a galope e resolvi não deixar para mais tarde uma tarefa que fui adiando, sobretudo pelo receio de me meter numa embrulhada de difícil saída – narrar a história do mapa que envolve várias gerações da minha família – do meu trisavô almogárave, passando pelo meu bisavô copista do Tombo, pelo meu avô desenhador de mapas e portulanos, e pelo meu pai anadel da alcaidaria de Lisboa. Se me incluísse na lista, seriam cinco gerações. Mas o que pode acrescentar a esta panóplia de gente que, de uma maneira ou outra, teve existências notáveis, o obscuro trajecto de um escrivão judicial, frade ou hortelão, ecónomo…? Pouco ou nada. Diga-se que, apesar do tronco seco em que me transformei, a árvore frondosa dos Mateus continua a dar frutos, a estender os seus ramos para o céu. José, meu irmão mais novo, impressor, casou, tem dois filhos e um neto varão. Por insistência minha, seu padrinho de baptismo, chama-se Bartolomeu. Tem quinze anos e é assomadiço como o almogárave. A interminável cobra dos tempos, desta vez, morde gentilmente a cauda.

Embora, pela disciplina da ordem, aos frades esteja vedado possuir bens pessoais, dada a minha idade e a crescente fraqueza das pernas, o actual prior, o irmão Pedro, autorizou-me a ter na cela uma pequena, mas bem provida biblioteca que trouxe da casa de Alfama. São obras legadas por meu bisavô e por meu avô. Aqui guardo as memórias e notas que me deixaram e os apontamentos tomados nas conversas com meu pai. Bem como um códice iluminado e escrito em hebraico. Quando me finar, os livros passarão para a biblioteca do convento e ficarão, segundo tudo o indica, à guarda do irmão Emanuel. Foi o acordo que comigo estabeleceu o prior. Trouxe também um gomil de louça de Talavera que, cheio de água pura tirada do poço do claustro, serve para, de quando em vez, deitando-a para o copo de estanho com que lhe cubro a boca, mitigar a sede que as recordações me provocam. Comprou-o, há cento e dois anos, minha tia-avó Beatriz num tendeiro da Rua Nova dos Mercadores.