PORTUGAL NA GRANDE GUERRA,por Luís Salgado de Matos

Poruqe entrámos na Primeira Guerra Mundial

Quando nos interrogamos sobre a razão por que entrámos há cem anos na Primeira Guerra Mundial pensamos sobretudo na motivação dos atores políticos: que levou  António José de Almeida e Afonso Costa a quererem entrar nno conflito bélico? O Estado Novo acentuou que era a defesa do império colonial, o que lhe permitia lançar uma ponte aos republicanos, mas há anos o Prof. Nuno Severiann Teixeira alargou esta motivação à nossa posição europeia.

A Primeira Guerra Mundial é o primeiro passo da guerra civil europeia que se desenvolve no comunismo russo, no nazismo alemão. De um lado estavam as potências parlamentares, democráticas, livrepensadoras (França, Reino Unido) e do outro as potências monárquicas, aristocráticas, católico-cristãs (Alemanha, Império Austro-Húngaro). A República Portuguesa tinha que enfileirar com as primeiras pois era revolucionária e estava isolada: entre o 5 de outubro de 1910 e o 8 de março de 1916, nenhum chefe de Estado estrangeiro visitou Lisboa, nenhum grupo naval fundeou o porto da capital portuguesa.

O anticlericalismo era um suplemento português para a entrada na Guerra: muitos republicanos julgavam que a República só subsistiria com alguma perseguição religiosa, pois erradamente embora identificavam monarquia e catolicismo. Ora o único modo de a prosseguirem era aliarem-se à França, onde o anticlericalismo era moda, ainda que menos agressiva do que entre nós.

Há outra maneira de encarar a questão: a Primeira Guerra mundial efoi uma guerra europeia e, sendo Portugal u país europeu, tinha que nela participar. Talvez como neutral, mas mesmo assim não estaria autorizado a ignorá-la. era o resultado inevitável da política de alianças automática, vigente na época: a Inglaterra, se fosse atacada pela Alemanha, tinha o direito de invocar a aliança com Portugal e seríamos juridicamente obrigados a marchar contra os teutões. Foi aliás o que aconteceu. Londres precisava dos navios alemães surtos no porto de Lisboa e mandou-nos requisitá-los. Almeida eCosta decidiram-se pelo upgrade da cedência ao novo ultimato, e transformaram-no no que apresentaram como uma vitória: exigirão eles próprios mandarem soldados e marinheiros portugueses para a Flandres (já estavam a combater a guerra europeia nas colónias de em Angola e Moçambique, o que em geral é esquecido). Aquelles dois próceres repúblicanos pensaram por certo que a Alemanha, depois dessa requisição, alargaria ao nosso país a sua eficiente guerra submarina e por isso preferiram beligerar a seguir até ao fim a intimação britânica..

Foi assim que há cem anos entrámos na Primeira Guerra Mundial. Poderia ter sido de outro modo? Tentemos um mínimo de história contrafactual.