PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE – A face anarquista do fado – por Carlos Loures

                                                                                                                                                            João Black (Feijó,  1872; Lisboa, 1955).

 

Quando se associa o fado ao regime salazarista e se diz que foi um dos três F que o sustentaram (Fátima, futebol e fado) está a ignorar-se que houve fadistas que não apoiaram a ditadura e que houve de gente do fado que lutou contra a repressão. nem todos os  fadistas  seguiram o caminho mais fácil. Um deles, foi João Black.

 

Devo começar por dizer que a informação disponível sobre este cantor e letrista são escassas. Para quem tenha como objectivo escrever um estudo biográfico, as coisas não estarão fáceis. Mas não é o meu caso. Apenas quero chamar  a atenção para um aspecto pouco estudado ou, pelo menos, pouco divulgado – a vertente política deste género musical. E contar um episódio insignificante –  quando conheci pessoalmente João Black.

 

                                                                                                               

Foi durante a Guerra, no princípio de 1943. Os meus pais e eu morávamos na Baixa em casa da minha avó paterna. Ela e o seu filho, meu pai, tinham ambos um péssimo feitio (embora fossem boas pessoas). Ferviam em pouca água e zangaram-se. Fomos viver para casa do meu avô materno, no bairro da Graça,  Rua Bartolomeu da Costa, ao fundo da Rua de Sapadores. Junto ao quartel de Telegrafistas.  Na foto à esquerda, pode ver-se a zona – o muro do quartel, um prédio e uma pequena faixa de um outro prédio. Precisamente este, de que se vê apenas meia porta e meia janela do primeiro andar, era aquele onde morava o meu avô. Velho operário da Fábrica dos Tabacos, autodidacta e militante do Partido Comunista. Ao lado tinha um vizinho, um senhor calvo e mais velho – João Black.

 

Era a época das bichas para comprar géneros de primeira necessidade – batatas, azeite, arroz, carvão, para tudo havia racionamento e bichas – as donas de casa saíam de madrugada e iam para a porta de uma mercearia onde constara que iam vender um qualquer produto racionado. As primeiras chegavam, noite cerrada, às cinco da manhã ou mesmo antes. Numa dessas ocasiões, fiquei à guarda do senhor João Black que estaria com os seus 71 anos. Conhecia-o de o ver subir a escada lentamente apoiando-se a uma bengala com castão metálico. Gostava dele porque me cumprimentava com ar circunspecto e não fazia aqueles ares que muita gente tem com as crianças, falando-lhes como se todas fossem atrasadas mentais. Eu tinha cinco anos.

 

A minha mãe foi deixar-me a casa dele, já com o pequeno almoço tomado. Segundo ela me disse depois, o contrato incluía uma cláusula – ela traria para o senhor Black o produto que ia tentar obter – azeite, salvo erro Era ainda de noite e João Black era volumoso, estava em mangas de camisa e usava uns suspensórios como eu nunca vira – muito largos. Apontou-me uma cadeira e não me ligou grande importância (o que lhe agradeci). Estava a estudar um improviso para essa noite na Voz do Operário, pois havia assembleia  de sócios. Depois de declamar durante uns minutos perguntou-me se percebera tudo o que ele dissera. Respondi que não. E disse-lhe as palavras que não compreendera.

 

Explicou-me o que significavam. E substituiu-as no rascunho: ” Se tu não as compreendes, eles também não”. E assim estivemos a trabalhar até que a minha mãe chegou e ele pediu que «deixasse o cidadão mais um bocado». Com cinco anos, aquele título encheu-me de orgulho. E fiquei a ajudá-lo até ao fim do enorme discurso. Passadas poucas semanas, o meu pai e a minha avó reconciliara-se e voltámos para a Baixa. Nunca mais vi João Black

 

Só muito depois soube quem ele era – comprometido politicamente com o anarquismo, o socialismo e o republicanismo – foi aquilo a que hoje se chamaria um “fadista de intervenção”. Colaborador da Batalha, é de sua autoria a letra do hino anarquista. Deixo aqui uma gravação de um Fado Anarquista com letra dele e, segundo parece, por ele cantado. A letra diz bem sobre o que pensava:

 

 

 

Ciência humanitária
Um símbolo de altruísmo
Tem como fim condenar
Deus, pátria e militarismo

O mundo há-de assitir
Aos pobres livres do jugo
Espezinhar é o futuro
Da burguesia a surgir

E depois quando existir,
O ideal …
Esplendor e bem-estar
Incitar o patriotismo
A miséria,
o anarquismo tem por base condenar

Mas o povo subjugado
Esfacela-se sob a tortura
Quando o seu mal tinha cura
O ideal desejado

Viver na prisão
Nas garras dos inimigos
Ai ela bem cai no abismo
A fanática humanidade
Pois fia-se nesta trindade
Deus, pátria e militarismo

 

 

 

6 Comments

  1. Também eu morei em Sapadores, conhecendo perfeitamente toda essa zona, onde aliás era também a casa da minha avó. Quero apenas agradecer toda esta informação , e deixar-lhe aqui algo que provavelmente já conhece, pois está relacionado com João Black , um fadista que apenas conheci hoje, Fevereiro de 2012.http:/ digitarq.dgarq.gov.pt /viewer?id=4470325Obrigado por tudo. Nem deus, nem amo!

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