por Rui Oliveira
Nesta Segunda-feira 4 de Março o evento culturalmente mais significativo será sem dúvida o regresso à Gulbenkian da Amsterdam Baroque Orchestra e Choir sob a direcção de Ton Koopman, após em Abril de 2011 ter trazido ao público português a sua interpretação da Paixão segundo São João de J.S. Bach.
Esta Orquestra, que Ton Koopman criou em 1979 (seguindo-se-lhe o Coro em 1992), tem a particularidade de ser constituída por especialistas internacionais do Barroco musical que se encontram diversas vezes por ano para juntos prepararem e apresentarem novos programas empolgantes de que garantem, em função da inesgotável energia e do entusiasmo do seu maestro dirigente, interpretações de elevada qualidade.
Foi assim com as Cantatas sacras e profanas e algumas Paixões de Bach, com a Opera-Omnia de Buxtehude, com a música para órgão de alguns autores ibéricos (e não “espanhóis” como erradamente a FG menciona, dado nele se incluirem obras de Carlos Seixas e Manuel Rodrigues Coelho).
É agora a vez de Telemann, objecto deste concerto. Nele participam os cantores Lenneke Ruiten (soprano), Maarten Engeltjes (contratenor), Tilman Lichdi (tenor), Klaus Mertens (baixo) e Jasper Schweppe (baixo) para interpretar de :
Georg Philipp Telemann Selig sind die Toten, TWV 4:1
Das Leben ist ein Rauch, ein Schaum, TWV 4:3
Die Donnerode, TWV 6:3
Nota : Apenas quatro anos mais velho do que os seus contemporâneos Bach e Händel, G. F. Telemann foi um dos mais prolíficos compositores alemães. Estudos recentes revelam que este músico, nascido em Magdeburgo em 1681, escreveu mais de 3.000 obras, contudo muitas delas perderam-se para sempre… Não foi o caso da peça do concerto Die Donnerode, escrita em memória das vítimas da tragédia que atingiu Lisboa no terramoto de 1 de Novembro de 1755, acontecimento que inspirou a obra de tantos escritores e músicos da época, e que foi estreada logo em 11 de Março de 1756 na Igreja St. Jakobi em Hamburgo.
O único registo já existente que encontrámos de “encontro” entre Ton Koopman e a música de G.P. Telemann é este vídeo de “Postillons”, pertencente à III Tafelmusk de Telemann interpretado pela Orquestra Barroca da União Europeia (EUBO) dirigida por Ton Koopman (para haver, entretanto, um contraponto vocal têm aqui acesso a um dos baixos do concerto, Klaus Mertens, interpretando um canto de Teleman Steige, falle, kreise, walle : http://youtu.be/YCi6QnXZljU ) :
Mostramos-lhe também, por óbvia curiosidade, o registo integral da obra relativa ao terramoto de 1755 (Die Donnerode) mas interpretada pela orquestra Das Kleine Konzert e o coro Rheinische Kantorei dirigidos por Hermann Max, com a soprano Barbara Schlick, o contratenor Axel Köhler, o tenor Wilfried Jochens, e os baixos Hans-Georg Wimmer e Stephan Schreckenberger :
Na música, há ainda nesta Segunda-feira 4 de Março, na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, às 18h um Recital de Cravo e Piano de entrada livre, onde o conhecido músico israelita Michael Tsalka, ao cravo e ao piano interpretará obras dos seguintes compositores : J. S. Bach, Joseph de Torres, W. A. Mozart e Frédéric Chopin.
Um curto vídeo mostra a qualidade interpretativa de Tsalka quanto à Variação de Goldberg nº 17 de J.S.Bach em 2011 :
No teatro, o bar A Barraca (no Teatro Cinearte, Largo de Santos nº 2) promove nesta Segunda-feira 4 de Março, às 21h30, o seu 45º Encontro Imaginário (agora com participação da sociedade civil), moderado pelo seu autor Helder Costa.
Explica este no texto introdutório : «Este Encontro apresenta o debate e o confronto entre 3 grandes linhas ideológicas universais : o Progresso, incorporado por Mao-Tse-Toung através da variante revolucionária Maoísta ; a Religião, com Jesus Cristo, o criador do pequeno grupo de Palestinos que iria dar origem ao Cristianismo ; e a Reacção, com Goebbels, defensor do nazismo, o conservadorismo mais bárbaro e radical.
Trata-se também da 2ª participação da sociedade civil nestes Encontros.
Assim, Mao-Tse-Toung, o revolucionário de origem camponesa que libertou um quarto da Humanidade do longo torpor feudal e colonial, será interpretado por João Soares, advogado, editor, deputado do PS que, entre outros cargos relevantes, foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa entre 1995 e 2002.
José Carlos de Vasconcelos, advogado e jornalista de longa carreira – iniciada na “Via Latina” da Ass. Académica e na “Vértice” também de Coimbra e hoje director do “JL- Jornal de Letras” −, será Jesus Cristo, recordando aliás, a sua inesquecível interpretação no TEUC quando estudante em Coimbra.
Goebbels, o propagandista de Hitler e incansável manipulador das massas, será apresentado por Júlio Isidro, o incansável e talentoso homem de rádio e TV com uma experiência profissional variada, imaginativa e imbatível».
No cinema, chamamos a atenção para o novo ciclo “Grandes Prémios do Cinema Africano” que o Institut Français de Portugal programou para este mês de Março e que se inicia às 19h desta Segunda-feira 4 de Março, no seu Auditório, com a projecção do filme “Le Wazzou Polygame” (Nigéria, 1972) de Oumarou Ganda (foto) que recebeu o Prix de la Critique Internationale no Festival de Dinard (1972) e o Etalon de Yennenga na Fescapo nesse mesmo ano.
São seus intérpretes Joseph Salamatou, Zalika Souley, Issa Goumbokoye, Lam Ibrahima Dia, Garba Mamane, Joséphine Oualo, Hadiza Zakari e Gamatie Amadou Seyni.
Breve sinopse : Um crente muçulmano, de volta da Meca, recebe o titulo de El Hadj. Mas ele não tem escrúpulos em cobiçar a jovem Satou, prometida a Garba. Só resta a Garba, furioso, deixar a aldeia para ir a cidade. Mas um drama mais grave surge : a segunda esposa do Hadj, Gaika, não aceita a intrusa e para impedir o casamento, decide matá-la durante a noite anterior ao casamento …
Nota curiosa: Oumarou Ganda fora, aos 24 anos, o brilhante actor principal de “Moi, Un Noir” (1959), um filme desse “feiticeiro branco de África” que foi Jean Rouch, e veio, mais tarde em 1969 a realizar esse filme de culto que foi “Cabascabo”(Le dur à cuire).
Quanto a conferências/debate, como noticiámos antes, conclui-se nesta Segunda 4 (e ainda na Terça 5 de Março), no Auditório do Goethe-Institut, o Ciclo Carl Einstein que esta entidade promove (com outras) através dum Colóquio Internacional “Olhares Cruzados sobre Carl Einstein: artes, compromissos e escritas da modernidade”.
Embora pouco conhecido em Portugal, o pensamento de Carl Einstein retorna, tanto na Europa como nos EUA, com intensidade, quer através da reedição e tradução de algum dos seus livros principais, quer por exposições dedicadas à multiplicidade dos aspectos em que a sua obra se espraia. Nascido em 1885, Carl Einstein criou e dirigiu com Georges Bataille a revista Documents (1929-30), cuja influência ainda se faz sentir.
Activista político, pensador e historiador de arte, é autor de uma obra fundamental para a renovação do pensamento estético contemporâneo, deixando, entre outros escritos, uma História de Arte incompleta (de que reproduzimos ao lado um fragmento) . Contrariamente a um outro eminente contemporâneo (Walter Benjamin) o retorno de Einstein fez-se demorar, tendo-se abatido sobre ele uma cortina de silêncio que é quase incompreensível.
Do programa (ver http://www.goethe.de/ins/pt/lis/ver/pt10586300v.htm) da Conferência constam as intervenções de José Gomes Pinto (Portugal) Arte e política em Carl Einstein, de Kay Heymer (Alemanha) Artefactos etnográficos na transformação da arte: o olhar de Einstein e Markov, de János Riesz (Alemanha) Carl Einstein e a poesia africana: suas ligações com as artes figurativas na percepções com as artes figurativas na percepção dos contemporâneos, de Arturo Lacarti (Itália) Carl Einstein e Gino Severini: visões alternativas do cubismo e do futurismo, de Liliane Meffre (França) Carl Einstein e Gino Severini: olhares cruzados sobre o cubismo e o futurismo, de Elena O’Neill (Brasil) A arquitectura de “Europa Almanach”, de Carlos Pimenta (Portugal) Que Deus nos livre de tanta humanidade! e de José A. Bragança de Miranda (Portugal) Contributos de Carl Einstein para a definição da obra de arte.
Por último, inicia-se nesta Segunda-feira 4 de Março no Pequeno Auditório da Culturgest, às 18h30 com entrada livre (mediante levantamento de bilhete) um ciclo de quatro conferências semanais sobre “As Freguesias de Lisboa” pelo olissipógrafo e historiador de arte José Sarmento de Matos que se tem dedicado ao estudo da Arquitectura Civil de Lisboa, alargando sucessivamente a pesquisa olisipográfica a outros campos da realidade urbana.
A primeira versará “A Igreja Moçárabe de Lisboa (séc. IV a séc. XII)”.
É sua a introdução : « O tema das freguesias de Lisboa está na ordem do dia das preocupações recentes dos responsáveis administrativos da cidade. No entanto, essa focagem tem-se centrado sobretudo sobre as esferas políticas e administrativas, deixando na penumbra (quando não no esquecimento) a evolução histórica milenar que conduziu à situação que hoje se tenta repensar.
Ora o aparecimento sucessivo das freguesias, com picos de novidade em períodos marcantes da história da cidade – como a renovação após a conquista de 1147 ou a “explosão” demográfica do século XVI –, bem como a sua evolução complexa de fusões ou alteração de órgãos merece uma atenção pormenorizada até se chegar à grande reforma pombalina de 1769/70, a última realizada antes daquela a que hoje assistimos.
São inúmeras e pertinentes as questões que o tema coloca na reflexão sobre a história da cidade, incluindo mesmo a de entender como a preocupação pós liberal, e sobretudo republicana, de separação entre os universos sacros e laicos nunca “se atreveu” a mexer na estrutura das freguesias, ainda hoje referidas às coordenadas da Igreja Católica».
Como NOTÍCIA EM ATRASO que ainda tem oportunidade (vejo no site que há sete bilhetes não vendidos – pode ser o seu, leitor !) lembramos que o “Parsifal” volta à Metropolitan Opera House de Nova Iorque numa nova produção que será transmitida em directo e in HD.
Nesta nova versão do encenador canadiano François Girard é, nas suas palavras, a dimensão mística da partitura que sai realçada. Estreada há 1 ano em Lyon colhe rasgados elogios pelo trabalho de cenógrafo de Michael Levine cujo cenário “muito minimal, é um chão seco com um pequeno curso de água que se transforma depois numa corrente de sangue”.
Sob a direcção do maestro Daniele Gatti, vão estar em palco as “grandes capacidades dramáticas” de Jonas Kaufmann (foto esq.) no papel de Parsifal, a par de Katarina Dalayman (como Kundry)(foto dir.),Peter Mattei (como Amfortas), Evgeny Nikitin (Klingsor) e René Pape (como Gurnemanz).
Como exemplo, eis o monólogo do 2º Acto “Amfortas! Die Wunde!” :
(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Sábado aqui )



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