Em 29 de Dezembro de 2011, publicámos um texto de Miguel Esteves Cardoso, transcrito vom a devida vénia de Explicações de Português , Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001.
O Acordo Tortográfico – por Miguel Esteves Cardoso
Como os filólogos da República da Guiné-Bissau não puderam estar presentes na recente reunião para o Novo Acordo Ortográfico, estamos todos à espera da sua ratificação para saber como é que nós, os Portugueses, vamos escrever a nossa própria língua. E esta? De qualquer modo, os grandes peritos de São Tomé e Princípe, de Angola, do Brasil, e dos outros países de «expressão oficial portuguesa» já se pronuciaram. A República da Guiné-Bissau, porém, também terá a sua palavra a dizer. Muito provavelmente, uma palavra escrita à maneira deles; mas não faz mal. Nas palavras de Fernando Cristovão, 1986 é o ano que marca a nascença da lusofonia. A grandiosa lusofonia está, obviamente, acima da mera língua portuguesa.
A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a a lusofonia funciona com mais de 100 milhões.” Para mais, os falantes da lusofonia têm a vantagem de ser feitos em África e na América do Sul, o que lhes confere uma sonoridade nova e exótica. Para instalar uma aparelhagem lusofónica devidamente apetrechada, são necessários complicados componentes tupis, quimhmoguenses, umbandinos e macuas, Enfim, coisas que não se fabricam na nossa terra. A partir de 1986, todos os povos a quem uma vez chegou a língua portuguesa podem contar com um lusofone em casa. Um lusofone é um aparelho que permite a qualquer indígena falar e escrever perfeitamente esta nova e excitante língua, que passará a chamar-se o brutoguês.
Para haver lusofonia, nada pode ser como dantes. Os Lusíadas passarão a conhecer-se por Os Lusofoníadas. Se dantes havia língua portuguesa e a sua particular ortográfica, agora passa a haver a língua brotuguesa e a sua ainda mais particular tortografia. A tortografia, conforme se estabeleceu no Acordo Lusofónico de 1986, consiste em escrever tudo torto.
As bases da tortografia assentam numa visão bruta da fonética. Por outras palavras, se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficial brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito de cacografia”. Dantes cada país exercia o direito inalienável de escrever a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a escreverem como todos os outros países querem. Como todos os países passam a escrever como todos querem, nenhum país pode escrever como ele, sozinho, quer.xxx As ortografias tupis e crioulas, macumbenses e fanchôlas passarão a escrever-se direito por linhas tortas. O Prontuário passa a escrever-se «Prontuario», rimando com «desvario» e «Cuf-Rio». O Abecedário passa a escrever-se «Abecedario», em homenagem a dario, grande Imperador da Pérsia, que, por sua vez, se vai escrever «Persia» para rimar com «aprecia», já que qualquer persa aprecia uma homenagem, mesmo que seja só uma simples omenagem. Já dizia acentuadamente Fernando Pessoa que «a minha pátria é a língua portuguesa». Agora passa a dizer «a minha patria é a lingua portuguesa», em que «patria» deixa de ser anomalia e «lingua» assim, nua e crua.
Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique? Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas pelos portugueses, caso o acordo seja aprovado:”A adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira, com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?”
Os portugueses no fundo assinaram um Pacto ortográfico que sabe a pato. Ninguém imagina os espanhóis, os Franceses, ou os Ingleses a lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os Portugueses. Cada país – Seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima de misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.
A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade. Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos graça. Como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar» artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção de 1945, é da mesma ordem da estupidez que pretender que todos os que falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da Bahia. é ridículo, é anticultural, é humilhante para todos nós. Se não tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.
Imaginem-se os biliões de cruzeiros, escudos, meticais, patacas e outras moedas que vai custar a revisão ortográfica de todos os livros já existentes. Imagine-se o distanciamento escusado que se vai causar junto das gerações futuras, quando tentarem ler escorreitamente os livros do nosso tempo. Sobretudo, imagine-se a desautorização e a relativização que o acordo implica. Amanhã, uma criança há-de escrever esperanssa e quando for chamada a atenção, dirá «tanto faz, que estão sempre a mudar, e qualquer dia desaparecem as cês cedilhados». Ou responderá, muito simplesmente: «Pai, mas é assim que se escreve em Cabo Verde!»
“A língua portuguesa nasceu do latim – toda a gente sabe. Um dia, a língua brasileira, e a língua são-tomense, e a língua angolana serão também línguas novas e fresquinhas que nasceram da língua portuguesa. Ninguém há-de respeitar menos a língua por causa disso. (Nós também não desrepeitamos o latim.) As línguas são indissociáveis das culturas e das histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje falam português à maneira deles. A maneira é a maneira deles, e a nossa é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito que achou a sua própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os Moçambicanos ou como os brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos velhinhos, e não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas. Sem império, Portugal tem ainda a dignidade de ter sido Império. Mas há um feitio mesquinho que se encontra em muitos portuguesinhos de meia-tijela, que consiste em ter medinho que as ex-colónias se esqueçam de nós. Estes acordos absurdos são sempre «ideia» dos Portugueses armados em donos da língua. A verdadeira dignidade não é essa – é soltar a língua portuguesa pelo mundo fora, já que a sua flexibilidade é uma das suas maiores riquezas. Aquilo que já aconteceu – haver um português brasileiro, um português angolano, um português indiano – é prova gloriosa disso. Mas quando os Portugueses desejam meter-se na vida linguística dos outros, é natural que os outros também se metam na nossa. Os próprios participantes deste último Acordo parecem ter perdido completamente a cabeça, aceitando normas ortográficas disparatadas para a língua portuguesa de Portugal. Sem ingerências da nossa parte, seriam inaceitáveis as ingerências dos outros. O Acordo agora proposto – que o Governo deveria ler muito cuidadosamente, antes de consigná-lo, entre saudáveis gargalhadas, ao caixote do lixo da história – é uma mistura diabólica e patética de extremo relaxamento ortográfico («tudo vale, seja na Guiné, seja em Loulé) e de inadmissível sobranceria cultural («tudo vale, mas nós é que temos o aval»). Faz lembrar aqueles miúdos que dizem «Eu faço o que vocês disserem, desde que eu possa ser o chefe»).
Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada, como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das poucas coisas sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer misturar política da língua com a língua da política.
O que vale é que, neste momento, muitos portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater a inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização”.

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(Que é o autor deste texto? Parece que não é nem de Guiné-Bissau nem do Brasil. Mas donde é esse senhor?)
E respondo-me. Sim, é português, mas na procura de sentido próprio: “O que vale é que, neste momento, muitos portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater a inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização”.”
Caro António Gil Hernández, Miguel Esteves Cardoso é um respeitado e respeitável jornalista e escritor português e faz neste artigo uma abordagem irónica a um assunto que tem o seu quê de ridículo. Os argumentos de quem concorda são sobretudo políticos e carecem de consistência. Porém, como lhe dizia há dias, o Acordo Ortográfico não é um tema que divida politicamente os portugueses, nem assume grande importância – temos problemaas maiores. Seria, no entanto, interessante que o António Gil que é defensor do AO, ultrapassasse a fase dos comentários e escrevesse um texto com a sua opinião. Na sequência da publicação dos posts anteriormente editados, gostaríamos de lnaçar um debate sobre este tema – sem maniqueísmos, sem anátemas lançados sobre quem pensa de maneira diferente – um debate civilizado. Espero que aceite o desafio que lhe estou a fazer. Sem prejuízo de continuar a comentar os textos que vão sendo publicados.
Ainda que nem sei… Por vezes prefiro o Acordo Tortográfico, que diz o senhor: Que usa na escrita corrente os acentos?
Quis perguntar: QueM usa na escrita corrente os acentos?
Carlos, já percebi. Mas foi da minha parte por falta de toda a atenção e por andar (cá, pelo menos) mais preocupado com as “reformas estruturais” impostas aos nossos “desgovernantes” pela troika “benfeitora”, do que por um cê de mais ou de menos.
Li noutro sítio um último (mas nunca derradeiro) artigo do Graça Moura, Vasco ele, e, envolvido nos seus espantosos espantos, também me percebi confuso de mais… ou de menos, como os cês que parece o senhor Vasco reclamar: “Que me arrebatam o cê!, que me arrebatam o cê!” Unamuno, o quase filósofo e brutal escritor vasco (entre vascos andam os brinquedos…) em castelhano, dizem que assomado ao poço que há no “Patio de Escuelas” da Universidade de Salamanca, gritava angustiado, existencialmente angustiado: “Que me arrebatan mi yo! Mi yo, que me lo arrebatam!” Parece que o poço, profundo, ecoava tamanha angústia não sei se estremecido pela dor ou de alegria subtil perante tanta exigência existencial do mortal Unamuno.
O Vasco Graça Moura, homem conservador, ligado ao PSD, é um acérrimo inimigo do AO; encontramos na esquerda quem pense de igual modo. Na minha opinião, o Acordo é um documento inútil, pois a unidade da língua não se faz através da ortografia. Os inimigos do AO são, por vezes ridículos, na defesa dos seus pontos de vista, exagerando os malefícios que a adopção das bases desse documento acarretariam para o idioma. Tão ridículos quanto os que exageram os benefícios que, a meu ver, não serão nenhuns. Vamos prosseguir a publicação dos textos que por aqui passaram, após o que iniciaremos uma nova ronda de opiniões. E espero o seu depoimento.
Bom, eu disse e digo o que venho a dizer desde a minha experiência (cativa, mas prolongada) de licenciado em filologia românica: o português é língua “independentista” a respeito das mais línguas românicas ou neolatinas, nomeadamente a francesa (que tão modélica foi para a portuguesa até a reforma de 1911), a italiana, a castelhana e mesmo a catalã.
Entendo que a unidade da língua evidencia-se na ORTHOGRAPHIA (num determinado MODELO de escrita correta), a corresponder-se com diferentes realizações orais, cultas e menos cultas (por assim dizer).
Contudo, essa unidade evidenciada na grafia surge ou alicerça no discurso da UNIDADE DA LÍNGUA HISTÓRICA, que os notáveis hão de sustentar e reelaborar. É por isso que, do meu ponto de vista, acho que o perigo mais grave para a língua portuguesa não é tanto a discussão sobre a GRAFIA, mas a dúvida cada vez maior da própria UNIDADE da língua. Parece operar entre determinados notáveis sobretudo portugueses, mas não só um desejo, uma ânsia por ligar língua e território nacional.
E nestas “convicções” os galegos têm experiência triste e mesmo esmagadora… Poderiam aprender um pouco deles (e desculpe o conselho talvez arrogante): mergulhados na HISPANOFONIA, em que a UNIDADE DA LÍNGUA é radicalmente sustida pelas instituições do reino europeu e das repúblicas hispanoamericanas, os galegos são OBRIGADOS A APRENDER UMA LÍNGUA DE SEU QUE OS AFASTA DA LUSOFONIA. Mas a que preço? Simplesmente para os galego-utentes desaparecerem.
Dissolvam a língua, a UNIDADE (também gráfica) DA LÍNGUA e acabarão dissolvidos também como nação.
(Conste que recebi esta lição do portugalego Rodrigues Lapa… E confrontei-a com a minha experiência de filólogo, que acima digo, e mais de hispanófono de nação. Desculpem o atrevimento. E calo.)
Caro António Gil Hernández, não tem nada que se calar. Tem todo o direito de exprimir a sua opinião, tanto mais que argumenta as suas afirmações. Eu não estou de acordo com essa visão tremendista do futuro da língua se não aprovarmos o Acordo. A nossa língua é forte e não são pequenas diferenças ortográficas que a dissolvem. Como sabe, o ingl~es também tem ortografias diferentes em Inglaterra e nos Estados Unidos (não são tão poucas como isso) e sem uma Academia da Língua, mas com Oxford a publicar os seus dicionários e gramáticas, o inglês está longe de se dissolver. Mas não temos que estar de acordo. Apenas temos de explicar o nosso ponto de vista, defendê-lo e apoiá-lo, tanto quanto possível, em bases sólidas. O seu comentário dá um bom post e terei todo o prazer em o publicar. Tenho a convicção de que uma discussão séria será útil para todos.
Amanhã publicaremos um artigo de Manuel Simões, professor jubilado de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Veneza, sobre a origem da língua portuguesa – um contributo para o debate sobre o AO.