Pergunta formulada por Júlio Marques Mota, que também fez a tradução.
À pergunta formuladaEis pois a questão que levanto aqui e agora, uma vez que Portugal se recusa viver em autarcia como um país pequeno que é, uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é, por seu lado, impraticável, e tendo ainda em conta o conjunto, caracterizado pela ignorância, ganância e maldade, destes que nos governam, seja a nível regional seja a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!) com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal. Aqui vos deixamos como resposta um texto disponibilizado por Gil Mihaely da revista Causeur, facto que muito agradecemos. A Gil Mihaely e a todo os que fazem esta revista as nossas felicitações. |
Euro: a mutação ou a explosão. Quanto menos gostamos dele, mais ele se sobrevaloriza
Parte I
“A única solução reside agora numa saída do euro, quer esta seja negociada ou não”. Foi nestes termos categóricos que Jacques Sapir concluiu um recente fórum dedicado à crítica do mais recente plano europeu de “resgate”. O economista, que já o conhecemos como menos pessimista, parece defender a morte da moeda única. Também não é o único. Se acreditarmos em Jean-Pierre Chevènement, “tudo se passa como se a Alemanha, prisioneira dos seus dogmas, tivesse já na sua cabeça a saída do euro”. Assim, portanto, os alemães, de que se disse tanto que eles eram os principais beneficiários da moeda europeia, já se teriam resignado. Nestas circunstâncias, será que podemos — e que devemos — ainda querer salvar o euro?
Uma síntese histórica como lembrança impõe-se. Originalmente, não foi a Alemanha, que foi o principal promotor da unificação monetária, mas sim a França do tandem Mitterrand-Delors. Com o pensamento num outro conjunto, o duo Monnet-Schuman, os dirigentes socialistas da década de 1990 tinham a ambição finalmente de conjurar memórias das guerras intra-europeias. A premissa que precedeu a criação do euro foi pouco mais ou menos isto: as nações, em especial a alemã, traziam com elas o germe da guerra e seria necessário neutralizá-lo. Uma dose suficiente de comportamento económico-monetário supranacional deveria chegar para amarrar os Estados num entrelaçamento de interesses materiais de facto e “arrancar as pátrias (…) às castas do militarismo” (Jaurès).
E assim, no lado francês, é na verdade por ser uma resposta face à reunificação da Alemanha que se defende uma moeda única. A moeda europeia para François Mitterrand e Jacques Delors aparecia como uma garantia contra a remanescência de tentações pan-germânicas. Os franceses estavam ansiosos por criarem o euro, enquanto na Alemanha o chanceler Kohl ardilosamente adiava a data de entrada definitiva do euro como moeda europeia. Para convencer os alemães a abandonar o seu marco, o euro forte, era necessário dar-lhes garantias. À política do franco forte sucedeu-se a de um euro forte, sustentado por um Banco Central Europeu (BCE) principalmente preocupado em lutar contra a inflação e cujos estatutos parecem semelhantes ao do Bundesbank.
Conhece-se a sequência. Iniciada na França e inscrita na lei de 3 de Janeiro de 1973, a proibição para os Estados de se financiarem junto dos seus bancos centrais foi difundida por toda a Europa pelo Tratado de Maastricht. Os diferentes países são, portanto, forçados a recorrer aos mercados. Estes últimos começaram, primeiro, por ver na criação do euro uma garantia de estabilidade e começaram por conceder empréstimos com as taxas a níveis muito baixos aos países do Sul da Europa. Assim, a Grécia, a Itália e outros puderam-se endividar para lá do razoável porque beneficiavam, contra toda a lógica, das taxas de juro alemãs. Hoje, as diferenças nos spreads tornaram-se consideráveis. As taxas de juro propostas para os “PIIGS” são tais que elas só podem ter como efeito o aumento drástico da sua carga da dívida, instalando esses países num círculo vicioso e sem fim.
Ao mesmo tempo, a divisa euro é sujeita pelos mercados a um forte aumento do seu valor enquanto divisa. Quando efectivamente colocado no mercado, em 2002, um euro valia US$ 0,88, actualmente a paridade euro/dólar é superior a 1,35. Ora, se uma moeda forte pode ser favorável e mesmo apropriada para a economia alemã, este valor alto para o euro é totalmente inadequado para países que não dispõem das mesmas vantagens comparativas “extra-custos” que os nossos vizinhos além-Reno. Ao actual valor do euro, a Alemanha pode ainda exportar máquinas e automóveis de luxo “made in Germany”, mas não se podem exportar mais produtos, gregos, italianos, portugueses, espanhóis ou mesmo franceses.
Por outro lado, uma tal sobreavaliação da sua moeda é tanto menos suportável quando a Europa abandonou toda e qualquer protecção aduaneira. Desde 1994, com o fim do Uruguay Round e a transformação do GATT em Organização Mundial do Comércio (OMC), o nosso continente tornou-se um dos melhores alunos da OMC. A União Europeia está sempre disponível para todos os tipos de dumping, sejam eles sociais, ambientais, fiscais ou monetários. Pode-se certamente cada vez muito menos estar a combater a concorrência de países como a China, onde o custo do trabalho é insignificante, quando se vive com uma moeda sobreavaliada, quando os chineses beneficiam de uma moeda subavaliada. As dificuldades acumulam-se, tornando a situação da zona euro tão difícil que esta agora parece estar à beira da explosão.
Manifestantes em frente à sede do BCE em Frankfurt, em Outubro de 2011. (DANIEL ROLAND / AFP)
Certamente, dizem-nos, que o principal erro foi o de acolher a Grécia na zona euro. Acusa-se — e com razão — que o país falsificou as contas para se tornar elegível no quadro da moeda única. Portanto, uma saída do euro da península grega deixa assim de ser um tabu. Esta hipótese foi amplamente discutida quando Georges Papandréou levantou e muito fugazmente a hipótese de oferecer ao seu povo um referendo. Mas esta solução pode ser verdadeiramente uma solução? É pouco provável, porque a Grécia, embora tenha conseguido fazer tremer o continente, representa apenas 2,5% do PIB da zona euro. A Grécia é apenas a pequena ponta de um grande iceberg. A sua dívida é de 350 mil milhões de euros. E o que se passaria se, uma vez este país colocado fora da zona euro, a especulação — que já começou a fazê-lo — se atirasse aos 1900 mil milhões de euros da dívida italiana? Há poucas possibilidades, então, que o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), mesmo que levado até aos 1000 milhares de milhões euros, esteja à altura de a enfrentar. Tudo leva, também, a credenciar a tese do “efeito dominó”. Após a Grécia e a Itália, é a vez de Portugal e da Espanha entrarem em forte turbulência. Depois… depois a França. O economista Philippe Dessertine afirma: “a questão não é tanto se nós seremos afectados, a questão é a de saber quando”.


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