RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Da renovação produtiva à  recuperação produtiva no espaço globalizado: sobre o crime que se está a praticar sobre a Europa

Um texto que tem como título original :

Le redressement productif comme stratégie d’adaptation régressive à la mondialisation

e foi publicado em 24 de Julho de 2013 pelo blog de Jean Claude Werrebrouck, disponível em:

http://www.lacrisedesannees2010.com/article-le-redressement-productif-comme-strategie-d-adaptation-regressive-a-la-mondialisation-119227687.html

 A renovação do tecido produtivo como estratégia de adaptação regressiva à mundialização

PARTE II
(conclusão)

Reequilibrar um défice da balança por relocalizações de actividades – por exemplo, impulsionados por políticas públicas – não é pois uma coisa simples, uma vez  que, todas as coisas sendo iguais, a uma diminuição correspondente das importações pode logicamente suceder uma diminuição no fluxo de exportações. Claro que   pode aí haver excepções e casos especiais, que no entanto não põem  em causa a essência do raciocínio [3].

Com a taxa de câmbio inalterada, uma relocalização só é eficaz  se e só se  for feita espontaneamente pelo jogo  da competitividade: um dado elo  na cadeia global tornou-se menos competitivo do que o que ele  poderia –  ser obtido nacionalmente. Daqui se segue naturalmente um melhor equilíbrio da balança.

Sempre, com a  taxa de câmbio inalterada,  pode-se imaginar que a parte nacional da cadeia de valor se torna ela mesmo  – ainda mais competitiva. Assiste-se aqui, neste caso, também a uma melhoria na balança.

Entende-se,  no entanto, que em matéria de relocalização as possibilidades são limitadas uma vez que seria necessário que o país disponha de  uma vantagem comparativa em todas as áreas onde muitos países já se especializaram: tornar-se melhor simultaneamente em várias áreas onde outros países já se tinham especializado. Um pouco como se, para retomar  o exemplo famoso de Ricardo a Inglaterra se tenha tornado  melhor do que  Portugal na  produção de tecido e na produção de vinho. Sem evidentemente ter em conta  que as relocalizações logicamente deveriam implicar   diversas  reacções de competitividade por parte daqueles que viveriam uma deslocalização. Além disso, deve-se notar que em um certo número de actividades, em especial naquelas que estão relacionadas com as novas tecnologias da internet, é muito difícil relocalizar o que não é localizável e mais importante ainda, em que  funciona com rendimentos crescentes  e consequentemente com custos  unitários continuamente decrescentes .

Agora, não há nenhuma dúvida sobre a  verdade de que outras novas tecnologias – por exemplo, a impressão a três dimensões, a impressão  3D – podem  remodelar todas as cartas e redesenhar  as cadeias de produção de valor. Na mesma direcção e, sem dúvida, de forma mais global, a passagem de uma “produção em massa” para uma “personalização em massa”, uma hipótese tão cara a  Peter Marsch [4]  também redesenharia  as cadeias de valor com o aparecimento de micro  empresas multinacionais. Mas tudo isto é mera conjectura e tem especialmente a ver com o muito longo prazo .

Consequentemente uma estratégia de relocalização industrial  e de reequilíbrio das  contas externas  pressupõe uma alteração nas taxas de câmbio. Se uma mudança externa na taxa de câmbio não pode ser obtida devido a uma base monetária única  é então  certo que nada mais resta a não ser   a desvalorização interna  e esta passa necessariamente  por uma  diminuição do custo do trabalho, acompanhada de uma  suficiente flexibilidade de preços.   Esta é a  estratégia que é actualmente seguida em  toda a Europa e, em especial na sua parte sul.

Mesmo admitindo que com esta estratégia se desenvolve a competitividade, não quer isto dizer que obrigatoriamente se verifique uma verdadeira saída da crise . E isto por uma razão muito simples, que é o facto de a renovação produtiva está a ser realizada num contexto de uma  concorrência  generalizada que reduz os salários  somente à sua   dimensão  de custo e de custo mínimo ( e nunca é encarado este como variável da repartição e como dinamizador da procura efectiva)  enquanto que no quadro da regulação  nacional dos  30 gloriosos anos do crescimento, a dimensão de mercado foi essencial na regulação global- uma perspectiva micro contra uma perspectiva macro. Mais grave ainda, uma renovação e recuperação produtiva a querer ser feita  com base na desvalorização interna só pode agravar a crise geral de superprodução global. Nesta situação, os chamados países emergentes sofrem uma perda de mercados que lhes advém dos países em vias de recuperação produtiva . Os chineses podem-se pois preocupar com uma potencial nova competitividade europeia que os venha a impedir  de revitalizarem a distribuição em grande escala, em que os clientes desta  constituem  a massa de trabalhadores europeus munidos de salários já diminuídos.

Temos assim no actual contexto, um  crescimento e aprofundamento  da contradição mundial entre a oferta global planetária de mercadorias e correspondente procura  global agregada, e resultado também  de uma renovação produtiva regressiva que está a ser aplicada,   porque esta nos reenvia a uma situação anterior aos trinta gloriosos anos e em que se impede a subida das remunerações, o que é a variável central e fundamental para que haja crescimento, sobretudo em fase recessiva.  Aceite a globalização, a criação de um novo adensamento  da matriz de comércio inter-industrial não pode ser realizada com base numa renovação e recuperação produtiva regressiva. E uma regressividade tanto mais pesada quanto o próprio Estado deve ele mesmo ser sujeito a  uma desvalorização com base numa tributação mais baixa, que, por seu lado, alimenta a queda dos preços internos e a competitividade externa. Como esta competitividade externa também deve passar por investimentos de infra-estruturas  e investimentos portadores de futuro, as ditas novas tecnologias, mas  que o Estado  já em situação de emagrecimento já não pode levar a cabo, trata-se pois de uma adaptação fortemente regressiva à economia global  o que está a ser levado a cabo pela política europeia . Concretamente, a Espanha e a Grécia são convidados a re-industrialisar-se  num    contexto em que não se  justifica o investimento privado por falta de procura solvável e em que se reduz  drasticamente  o  investimento público [5]. A recuperação produtiva é, portanto, sem uma mudança fundamental nas regras do jogo, um processo de ajustamento  regressivo à globalização.

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[3] Isto é, por exemplo, o caso americano que, devido  à revolução energética em curso conheceu um processo de relocalização e também das novas capacidades de exportação resultante de uma nova competitividade que se ganhou com  o colapso dos custos do gás.

[4] « The new industrial révolution – Consumers, Globalization, and the end of mass production”; Yale University press; Yalebooks.com; 2013.

[5] De acordo com o FMI, numa base de 100 em 2008, a FBCF na Grécia será apenas 40 em 2013, o consumo das famílias, passando ao  mesmo tempo menos a menos de  70 por cento do valor de 2008. Valores  confirmados pelo Eurostats que divide por 2 a formação bruta de capital fixo corrente na Grécia (FBCF) entre as duas datas. Constatamos também que a Espanha – de que se elogia na imprensa a renovação  industrial e a sua marcha para alcançar a situação de equilíbrio das suas contas correntes  com o exterior,- se encontra numa situação comparável com um recuo , sempre segundo Eurostat, de  41% da formação bruta de capital fixo entre 2008 e 2013.

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Veja a Parte I, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/17/retratos-imagens-sintese-dos-efeitos-da-crise-da-zona-euro-sobre-cada-pais-184/

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