CADTM – BANCOS: BOLETIM DE SAÚDE TRAFICADO. 1 de SETEMBRO, por ÉRIC TOUSSAINT – II

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Parte 9 da série : Bancos contra Povos: os bastidores de um jogo manipulado!.

http://cadtm.org/Bancos-boletim-de-saude-traficado

(continuação)

A abordagem normalizada recorre a critérios preestabelecidos pelo Comité de Basileia |9|, que fazem o jeito às agências de notação. No exemplo teórico da parte 8, utilizámos os critérios da abordagem normalizada. Concretamente, os créditos da banca sobre os Estados e os poderes públicos que têm uma notação entre AAA e AA- são considerados como não representando qualquer risco. Por conseguinte, os activos correspondentes não são tidos em conta. Significa isto que o banco não necessita de capital para amortizar as perdas eventuais dos seus créditos.
Os créditos sobre bancos ou grandes empresas cotadas entre AAA e AA- apenas contam a 20% (o banco pode deduzir 80% dos activos que correspondem a esses créditos). Os créditos sobre bancos e empresas cotadas entre A+ e A- apenas contam 50%. Os créditos sobre bancos e empresas cotadas entre BB+ e B- contam 100%. Se a notação for inferior a B-, os créditos contam 150%. Os empréstimos às famílias contam 75%. Os créditos sobre pequenas e médias empresas contam 100%, uma vez que estas empresas não são cotadas pelas agências de notação.

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Dexia: uma bela ilustração do laxismo do Comité de Basileia e das autoridades nacionais de controlo

O exemplo do Dexia ilustra bem os perigos do sistema de ponderação dos activos em função dos riscos, quer se trate da versão normalizada ou da notação interna.

Em Junho de 2011 o Dexia passou com distinção no stress test imposto pela autoridade europeia de controle a 90 grandes bancos europeus |10|. Quatro meses mais tarde, teve de ser resgatado da falência pela segunda vez em três anos. É edificante ler o documento apresentado pelo Dexia para passar brilhantemente no exame |11|. Enquanto os activos (não ponderados) ascendiam a 567 mil milhões de euros |12|, os activos ponderados pelo risco representavam mais de 141 mil milhões de euros |13|. No exemplo teórico da parte 8, a ponderação de riscos permitiu ao banco fictício Banxia passar os seus activos de 100 para 40. O Dexia fez muito melhor em Junho de 2011: os seus activos passaram de 100 para 25. Há que tirar o chapéu aos prestidigitadores do Dexia! A realidade ultrapassou a ficção.

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O Dexia afirma no documento enviado à autoridade europeia que o seu rácio de fundos próprios / activos ponderados pelo risco chegava aos 12,01%. Os reguladores ficaram deslumbrados! Se os activos não ponderados tivessem entrado em linha de conta, o rácio teria caído para 3%, o que revelaria uma imagem mais próxima da realidade. Se as autoridades de controlo não permitissem aos bancos, entre os quais o Dexia, juntar aos seus capitais em sentido estrito os produtos financeiros que não correspondem a capital, o rácio seria ainda mais inquietante. De sublinhar que se as regras de Basileia III (que entrarão em vigor, em pleno, em 2018-2019) estivessem em vigor no que diz respeito ao rácio fundos próprios / activos NÃO ponderados assim como ao rácio fundos próprios / activos ponderados, o Dexia teria igualmente passado no teste, o que demonstra que o Basileia III não nos traz nenhuma solução.

(continua)

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|9| Ver versão Basileia II de 2004: http://www.bis.org/publ/bcbs107fre….; ver versão Basileia II revista em 2006 : http://www.bis.org/publ/bcbs128fre.pdf Quanto à ponderação de riscos, ler a partir da página 20.

|10| Estes 90 bancos representavam 65% dos activos bancários europeus. Ver: http://www.lesechos.fr/entreprises-… Note-se que os dois bancos cipriotas que estiveram no centro da crise de 2013 também tinham passado o teste sem problemas. Dos 90 bancos, 59 (os maiores) utilizavam o seu próprio modelo de ponderação de risco dos activos (modelo IN).

|11| Ver: http://www.eba.europa.eu/pdf/bank/B…

|12| Ver: Dexia, Relatório Anual 2010, http://www.dexia.com/FR/actionnaire… individuels/publications/Documents/rapport_annuel_2010_fr.pdf, p.102.

|13| Ver: http://www.eba.europa.eu/pdf/bank/B… p. 1.

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Para ler a Parte I deste artigo de Éric Toussaint, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/09/04/cadtm-bancos-boletim-de-saude-traficado-1-de-setembro-por-eric-toussaint-i/

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