Nota prévia
Em tempos de crescente intolerância em relação ao outro, nunca é demais relembrar o que foi a nefasta ação da Inquisição em Portugal e suas consequências sobre o tecido social, neste caso no Algarve. Assim hoje e nos próximos dois dias apresentamos extratos da magistral tese de doutoramento da Professora Doutora Carla da Costa Vieira, Uma amarra ao mar e outra à terra. Cristãos-novos no Algarve (1558-1650), de Dezembro de 2012.
Hoje publicamos a apresentação da tese e o índice da mesma e nos próximos dois dias publicaremos a Introdução e a Conclusão desta sua tese.
Carla Vieira é investigadora integrada e vice-directora do CHAM. A sua investigação tem-se centrado na história dos cristãos-novos em Portugal e na diáspora sefardita em Inglaterra e na América colonial britânica. Foi bolseira de pós-doutoramento com o projecto “Nação entre Impérios: Cristãos-novos e judeus portugueses nas relações luso-britânicas”, financiado pela FCT. Coordenou o projecto Western Sephardic Diaspora Roadmap, financiado pela Rothschild Foundation Hanadiv Europe (2020-2022), o qual resultou num portal online que disponibiliza informação sobre colecções arquivísticas com materiais de interesse para o estudo da diáspora sefardita. Foi investigadora visitante no Center for Jewish History em Nova Iorque (Março-Maio 2022), nos American Jewish Archives em Cincinnati, Ohio (Junho 2022) e do Katz Center for Advanced Judaic Studies da Universidade da Pensilvânia (Setembro-Dezembro 2024). Actualmente, é investigadora convidada do projecto ERC Synergy 4-OCEANS e integra a equipa do projecto ANIMALx – Animais de Lisboa, financiado pela FCT.
Carla Vieira é autora dos livros Judeus Portugueses na América (2021) e Nação entre Impérios (2022) e de vários artigos e capítulos de livros, entre os quais: “The Prisoner, the Fugitive, and the Returnee: three portrayals of the Eighteenth-century Sephardi diaspora to England”, Jewish Historical Studies 52 (2021); “Pombal and the Jews: Sebastião José de Carvalho e Melo’s views on the Jewish question”, e-Journal of Portuguese History 19 (2021); “The Puzzling Path of a Recondite Text: The Composition, Circulation, and Reception of the Notícias Recônditas in Eighteenth-Century England”, Church History 88: 2 (2019); “The motivations behind E. H. Lindo’s The History of the Jews of Spain and Portugal (London, 1848)”, Journal of Jewish Studies (2023), “The Nação Rules: A Comparative Analysis of the Bylaws of Western Sephardic Congregations in the Early Modern Atlantic”, Religion(s) (2023), e “A Merchant Prince in the Twilight of the Western Sephardic Diaspora: Aaron Lopez and his Business Organization”, American Jewish History (2024).
FT
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Seleção de Francisco Tavares
4 min de leitura
Uma amarra ao mar e outra à terra. Cristãos-novos no Algarve (1558-1650) (1/3)
Por Carla da Costa Vieira, em Dezembro de 2012
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TESE DE DOUTORAMENTO EM HISTÓRIA ECONÓMICA E SOCIAL MODERNA
Dezembro de 2012
Tese apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em História Económica e Social Moderna, realizada sob a orientação científica do Prof. Doutor João José Alves Dias
Apoio financeiro da FCT e do FSE no âmbito do III Quadro Comunitário de Apoio.
Em memória do meu pai
AGRADECIMENTOS
Uma tese nunca é um trabalho solitário. Por isso, aqui ficam os meus agradecimentos:
Ao meu orientador, o Prof. Doutor João José Alves Dias, pela disponibilidade e pelos oportunos conselhos e sugestões.
Ao Centro de Estudos Históricos, pelo apoio prestado.
À Cátedra de Estudos Sefarditas, onde dei os meus primeiros passos enquanto investigadora e que, durante estes anos, alicerçou o meu trabalho.
À Fundação para a Ciência e Tecnologia, pelo apoio financeiro concedido, sem o qual seria muito difícil dedicar-me a tempo inteiro à produção da presente tese.
Aos funcionários e responsáveis pelos arquivos e bibliotecas onde desenvolvi a minha investigação, em particular ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, à Biblioteca Nacional de Portugal e ao Arquivo Distrital de Faro. Um especial agradecimento ao Padre Afonso da Cunha, que me disponibilizou a consulta de documentos do Arquivo Episcopal de Faro.
Aos meus colegas investigadores, sempre diligentes na troca de ideias, informações e sugestões. Um sincero obrigado, em particular, a: Maria Fernanda Guimarães, Susana Bastos Mateus, Pedro Pinto, Alice Tavares, Florbela Veiga Frade, Sandra Neves Silva, Hugo Crespo, Maria João Estêvão e a todos os que se disponibilizaram a prestar-me uma preciosa ajuda na produção do presente trabalho.
À minha família e aos meus amigos, pelo apoio, paciência, carinho e dedicação.
A todos, muito obrigada
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UMA AMARRA AO MAR E OUTRA À TERRA. CRISTÃOS-NOVOS NO ALGARVE (1558-1650)
Carla da Costa Vieira
Em Dezembro de 1558, uma cristã-nova de Vila Nova de Portimão, Grácia Mendes, apresentou-se perante o vigário-geral do Algarve para se confessar judaizante e denunciar outros que, tal como ela, criam na Lei de Moisés e guardavam as suas cerimónias. Começava assim a primeira entrada da Inquisição no Algarve. Até meados do século XVII, mais duas vagas de prisões registaram-se na região, uma com início na visita inquisitorial de 1585, outra prolongando-se pelas décadas de 30 e 40 de Seiscentos. Em quase um século, ultrapassaram os oitocentos os cristãos-novos residentes no Algarve alvo de processo inquisitorial. A par da perseguição religiosa, também enfrentavam o ostracismo social, sustentado no estigma do “sangue hebraico”, ao qual o discurso oficial associava todos os vícios e, em particular, a tendência natural para a heresia.
A questão coloca-se em como estes dois fenómenos – a perseguição e a exclusão – influenciaram a evolução da minoria cristã-nova num espaço que, pelas suas próprias características, também se revelou um factor essencial na definição da identidade do grupo e na sua transformação. Os locais de residência mudaram: por um lado, dentro das próprias cidades e vilas, acompanhando o seu próprio desenvolvimento; por outro, no abandono da terra natal rumo a outras paragens, dentro e fora do Algarve, dentro e fora de Portugal. A mobilidade do grupo era intensa e ainda mais quando encorajada pela ameaça do cárcere. Para muitos, a própria actividade profissional exigia um constante trânsito. O comércio, a par com os mesteres, era a área de actividade predominante. Porém, o vínculo à terra nunca chegou a ser quebrado e, com o avançar do século XVII, tornou-se cada vez mais sólido. Também mais sólidos tornaram-se os laços com famílias cristãs-velhas, consagrados através de uniões matrimoniais. A consequência foi o aumento do número de indivíduos de “sangue misturado”, os quais, na terceira entrada da Inquisição no Algarve, representam já a maioria dos processados.
Assimilação? Essa é uma ideia que contrasta com o facto de cristãos-novos, independentemente da sua proporção de “sangue hebraico”, continuarem a povoar os cárceres e a ser alvo de discriminação no acesso a ofícios e instituições. Continuava a ser-lhes associadas crenças, comportamentos e rituais alegadamente judaizantes. As confissões dos réus indiciam uma transformação a este nível, fruto da necessidade de reforçar o segredo e a simulação face à crescente pressão do Tribunal, mas também do progressivo conhecimento da forma como funcionava a máquina inquisitorial e das estratégias para conseguir uma pena mais leve e um cárcere mais curto.
Quando chegamos a meados do século XVII, o cenário que encontramos é o de um grupo dividido: por um lado, os que tendem a se aproximar da maioria cristã-velha; por outro, os que afirmam e se orgulham da sua identidade de “gente de nação”. Entre os judaizantes, essa divisão traduz-se na sua fé e na ritualização da mesma, uma dualidade que extravassa os domínios do público e do privado, os quais, aos olhos da Inquisição, constituem as fronteiras da vida religiosa do judaizante: cristão público, judeu secreto.
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ÍNDICE




