Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
PARTE V
(CONTINUAÇÃO)
…
No entanto, este é um exemplo de uma ideologia fundamentalmente hostil à intervenção do governo na nossa sociedade, servindo-se da história para desacreditar a política económica intervencionista, activista. Se usarmos a série do desemprego para 1930 excluindo das componentes do New Deal, os números são bem evidentes no gráfico I que se segue:
Gráfico I.
Este gráfico é feito a partir de uma série de dados construída pelo economista Stanley Lebergott em 1964.2.
Aqui, a recessão de 1937-1938 apaga quase completamente os ganhos dos anos anteriores. É quase como se o contributo do New Deal fosse nulo, o que contrariamente, na realidade proporcionou efeitos extremamente positivos a vários níveis.
Muitas pessoas olharam para estes números sem ler as notas quanto à forma como eles foram construídos e concluem exactamente isso.
Em 1976, um economista chamado Michael R. Darby escreveu um artigo com o título deliciosamente auto-explicativo, “Três milhões e quinhentos mil funcionários norte-americanos foram extraviados.” O que Darby fez, foi simplesmente ler as notas. Segue-se o que Lebergott tinha a dizer sobre a contagem do desemprego na década de 1930: essas estimativas para os anos anteriores a 1940 pretendiam medir o número de pessoas que estavam totalmente desempregadas, não exerciam nenhum tipo de atividade. Para a década de 30, este conceito, no entanto, não incluía um grande grupo de pessoas que tinham trabalho e auferiam rendimentos da atividade, aqueles que estavam nos trabalhos ditos de emergência, os trabalhos do New Deal. Nos Estados Unidos, estamos preocupados em medir a falta de trabalho regular e não a minimizar o total, tendo que para isso excluir pessoas que estavam a trabalhar ou se encontravam em atividade nos empregos de emergência. Isso contrasta fortemente, por exemplo, com a prática alemã durante a década de 1930 em que entrava nas contas da população empregada as pessoas que se encontravam nos campos de trabalho forçado ou ainda com a prática soviética que incluía no boletim de emprego a fatia da população afetada aos campos de trabalho, que desenvolviam uma atividade de autoconsumo, na prática, tentavam contabilizar todo o tipo de trabalho como gerador de emprego, que na realidade não proporcionavam rendimento. (Darby, 1976).
Nós normalmente não consideramos as pessoas que pintaram fachadas para o WPA por serem considerado piores do que aqueles que “trabalharam” em Mauthausen ou nos gulags soviético. E, no entanto, até que se ajuste a discrepância do “trabalho social”, incrivelmente continuamos a caraterizar tais indivíduos como desempregados, apesar da sua posição ser consideravelmente melhor do que a de alguém que não gera nenhum rendimento ou que esteja a trabalhar em péssimas condições num campo de trabalho escravo.
Um certo número de pontos relevantes pode ser aqui levantado:
(1) Se estivermos a utilizar os dados para responder à pergunta, “será que o que o New Deal permitiu terá ou não ajudado as pessoas? “, então nestes dados está ausente o número de trabalhadores utilizados no “trabalho social” criado pelo New Deal o que levará o investigador a obter uma resposta errada, porque isto implica considerar que os trabalhadores empregues no trabalho social sofriam de desemprego enquanto que na vida real tinham um emprego;
(2) Mas porque as pessoas que estavam a trabalhar nos programas do ND (no trabalho de emergência), agiam como os desempregados, ou seja, estavam à procura de um emprego “real”;
(3) E sobre a economia “real” — a economia industrial privada — como fez ela ?
Agora, como isto acontece parece que a resposta ao ponto (2) é, principalmente se eles não fizeram — as pessoas que tinham um posto de trabalho de emergência agiam como se tivessem um emprego e não andaram à procura de outro. A razão pela qual assim procediam, talvez seja, na verdade, o facto de terem trabalho e, então, seguramente, não deviam contar como desempregados.
Legenda: Social Security “Unemployed insured workers registering for jobs and filing benefit claims at a State employment office.”
Se incluirmos os empregados no “trabalho social” ou seja, nos programas criados pelo New Deal , obtém-se uma imagem muito diferente do desemprego na década de 1930. O gráfico II abaixo mostra a mesma série mencionada acima, agora com algumas alterações, gerando assim uma nova série — a da tabela de Weir D3, em que também aparecem as estatísticas históricas dos EUA — contabilizando rigorosamente e somente as pessoas sem emprego (em rigor, as desempregadas).
Gráfico II.
É notório que novamente o gráfico II ilustra a gravidade da grande depressão, mas também enobrece o papel essencial desempenhado pelo New Deal para atenuar os seus piores excessos. De facto, ao invés de estar a “distorcer ” o mercado privado, a melhoria na procura agregada provocada pelos rendimentos distribuídos via trabalhadores empregados pelos programas do New Deal criou efeitos de arrastamento positivos no setor privado. Pode-se ilustrar esta situação isolando os empregados governamentais no conjunto dos dados e mostrar uma terceira linha que essa sim caracteriza somente a evolução do sector privado:
Gráfico III.
Aqui, mais uma vez, vemos uma melhoria significativa sob o comando do New Deal. No setor especificamente privado, as taxas de desemprego atingiram 33% em 1932; em 1937 cifrava-se em menos metade desse valor, sem contar com aqueles que constavam na lista de pagamentos do governo.
(continua)
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Para ler a Parte IV deste trabalho de Marshall Auerback, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
http://aviagemdosargonautas.net/2013/11/07/tempo-para-um-novo-new-deal-por-marshall-auerback-4/




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