António José da Silva (O Judeu) numa peça em língua iddish – por Manuel Simões

Imagem5Não é muito conhecida a obra dramática, em língua iddish, construída a partir da vida e do teatro do dramaturgo português António José da Silva (O Judeu), sendo seu autor Alter Kacyzne, judeu nascido em Vilnius (Lituânia) em 1885, e executado pelos nazis em Tarnopol (Polónia) em 1941, durante a ocupação alemã.

A história da língua iddish remonta ao século XV, à expulsão da população hebraica da Alemanha – a que se juntaram os prófugos da grande  perseguição ibérica depois de 1492 -, transplantada na Europa Oriental, sobretudo na Polónia e na Rússia. O termo resulta da alteração do alemão “jüdisch” (judeu) e o fundo linguístico deriva do alemão medieval acrescido de empréstimos hebraicos. O seu centro vital foram os bairros de artesãos e comerciantes judeus, os quais deram origem aos grandes guetos urbanos de língua iddish e a uma literatura das minorias étnicas, não sem a oposição dos rabinos, por razões de ortodoxia.

Alter Kacyzne acabou por ter uma formação trilingue, por força das circunstâncias: hebraica, iddish e russa. Ainda muito jovem foi para Kiev, colaborou na revista literária “Vevreystij Mir” (“Mundo Hebraico”) em língua russa, mas bem cedo se apercebeu de que o iddish era a língua da população hebraica do Leste europeu, elegendo então a língua falada como expressão literária. E quando, mais tarde, se estabeleceu em Varsóvia, Kacyzne já tinha traçado o  programa que desenvolveu como estudioso da cultura russa: tradução de toda a poesia de Puskin, para além dos ensaios sobre Tolstoi, Gogol e Gorki.

Foi igualmente autor de contos, de poesia e até romancista. Mas é como criador de textos dramáticos que sobretudo se torna conhecido: “Der Gaist der Mellach” (“O Fantasma do Rei”), poema dramático em três actos (Varsóvia, 1919); “Prometeus”, poema dramático (Varsóvia, 1920); “Dukus” (“O Duque”), drama em quatro actos (Vilnius, 1926); “Hurdus” (“Herodes”), tragédia histórica em cinco actos e nove quadros (id., 1926), e finalmente “Dem Iddn’s Opere” (“A Ópera do Judeu”), drama histórico em três actos e cinco quadros, escrito em 1938 e publicado em Telavive em 1967.

É este último texto que nos interessa particularmente pela sua ligação à cultura portuguesa. Estava para subir à cena do teatro iddish de Varsóvia quando o invasor nazista obrigou Kacyzne a refugiar-se em Lvov, zona polaca ocupada pelos soviéticos e onde acabou por ser massacrado em 1941, vítima dos nazi-fascistas alemães e dos colaboracionistas ucranianos. Perdeu-se então o texto dramático, o qual só viria a ser recuperado no após-guerra, traduzido mais tarde para inglês, para francês, e em 1975 para italiano (“L’Opera dell’ebreo”), transmitido nessa altura como teatro radiofónico na Radio Rai 3, com encenação do grande Luigi Squarzina, circunstância que está na base do meu conhecimento da peça.

Avaliando a estrutura do drama e as personagens postas em cena, pode dizer-se que Kacyzne não só conhecia a história político-cultural portuguesa da época como, em particular, a obra dramática de António José da Silva. Veja-se o elenco das personagens: António José da Silva, comediógrafo; Dona Leonor, sua mulher; Dom Mendes da Silva, pai de José, advogado e poeta; Dona Lourença, mãe de José; Gamuda, taberneiro e usurário; Beatriz, sua filha; Dom Matias da Silva, médico, irmão de D. Mendes; o conde de Ericeira, Francisco Xavier; Baltasar, André, amigos de José; Marika, criada moura; 1º Rodrigo; 2º Rodrigo, justiceiros da Inquisição; Castro, rabino dos marranos; Daniel Pereira, seu jovem discípulo; 1º Inquisidor, 2º Inquisidor, 3º Inquisidor, actores e comparsas da comédia de José, criados da corte, portadores de tochas, inquisidores, plebeus, espectadores.

“A Ópera do Judeu” apresenta-nos, assim, as vicissitudes que conduziram à morte de António José da Silva: o dramaturgo está a ensaiar a sua nova peça, a “Esopaida”, da qual é intérprete e encenador, não faltando até referências ao espaço do Teatro do Bairro Alto. O núcleo dramático da ópera reside na ambiguidade proveniente do desdobramento das personagens (director de cena/narrador; José/Esopo; diabos/inquisidores) e na interrelação realidade/ficção. Convém dizer, todavia, que a “Esopaida” inserida por Kacyzne se afasta da de António José da Silva. As duas têm em comum, como é óbvio, a personagem de Esopo, para além das árias cantadas, que em Kacyzne são, porém, textos poéticos recitados, algumas vezes cantados ou sublinhados pela música. Mas há outra e substancial ligação: postos perante a alternativa de salvar a própria vida ou salvar o espectáculo, José/Esopo não renuncia à liberdade da palavra e ao seu teatro de denúncia, o que, como se sabe, é crime punível pelos inquisidores de todos os tempos.

Apenas uma nota final: em 1976 tive oportunidade de contactar, em Roma – onde então vivia -, a filha do dramaturgo. Posta perante a hipótese de tradução, para português, de “A Ópera do Judeu”, levantou a questão, certa, quanto a mim, de se encontrar alguém que soubesse as duas línguas (iddish e português); e só autorizaria a publicação depois de a peça ser representada pela maior companhia portuguesa de teatro.

 

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