As sílabas marginais/o elétrico, avenida abaixo/Nelson Ferraz

o elétrico, avenida abaixo

no tapete de carris, entre as mãos das árvores.

tim-tim, tim-tim, tim-tim até ao molhe cinzento.

 

eu precisava, sempre, de duas moedas:

   uma para os matraquilhos

   outra para a máquina que tinha os Beatles lá dentro.

 

o vinil pedia: – Don’t let me down!,

mas os anos têm sapatilhas insensíveis, velozes

e planos difusos para todos os depois.

 

 

era sempre julho na minha praia.

 

crescia-se, ao ritmo das ondas, com o sol pendurado nos sorvetes

e olhos pousados nos corpos das Dulcineias.

 

os rochedos eram castelos bordados pelas algas.

os amigos eram um grupo de circunstância que falava de amor,

de música e das possibilidades de sonhar.

 

o Gilreu olhava-nos como se fôssemos náufragos adiados.

resistíamos.

 

sobre a areia, todas as manhãs, a mãe construía uma casa.

 

 

 

 

1 Comment

  1. amigo, é tão bom “viajar “nos eléctricos da nossa infância!Está tudo lá, resignadamente , em silêncio, mas a magia mantém-se…Quem diria que o Gilreu ainda poderia assistir a estas “escavadelas” no passado?! Sempre surpreendentes e deliciosas as suas metáforas!…

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