“RETRATOS DE FAMÍLIA”- NO PALCO A PARTIR DA REFLEXÃO SOBRE O PAPEL DA PARENTALIDADE por Clara Castilho

Imagem5Centremo-nos num tema em que o ponto de partidas são o turbilhão dos quotidianos, o barulho dos dias e das vidas. E em que os caminhos são o reencontrar o genuíno, a espontaneidade, o estar com… Com quem e onde? Com homens e mulheres, mães e pais à procura de retratos de famílias registados pelas emoções, num espreitar a forma de estar com os filhos de outro ângulo, num sentir que se pode introduzir ruído nos dias instalados. E qual o ponto de chegada?

Ora, aqui é que está o busílis. Este “Retratos de Família” é o resultado, em forma de processo, de uma criação colectiva, uma celebração à entrega, para espantar vontades cinzentas de viver os dias de hoje como mulheres e homens do mundo.

É assim que o Clube de Pais, inserido no Projecto XXL- Criação Colectiva, define o seu espectáculo. Tem a Direcção e Encenação de HUGO CRUZ, textos de JOÃO DOS SANTOS, TRINDADE COELHO, GRUPO DE JOVENS DE LOUROSA, JORNAL República e ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL PARA O DIREITO A BRINCAR.

Os impulsionadores deste processo, Hugo Cruz e Inês Pinho, psicólogos, publicaram esta experiência no livro Pais XXI, que tem prefácio de Daniel Sampaio. E contam eles: “Ao fomentar a criança que há em nós estamos, pois, a promover a espontaneidade, a liberdade, a informalidade, o humor, tudo ingredientes fundamentais na educação dos filhos”, explicam os autores do livro. O objectivo do projecto, que começou em Junho de 2003 e ainda funciona, é promover o diálogo, a reflexão e a partilha de experiências que reforcem e estimulem o papel dos pais. “Não era sua finalidade dotar os pais de qualquer curso habilitador e profissionalizante. A paternidade e a maternidade não se ensinam, aprendem-se”, defendem Hugo Cruz e Inês Pinho.

Procuraram, por isso, valorizar os saberes dos pais e promover jogos, actividades de exploração sensorial e corporal e dramatizações. “O caminho que percorremos é motor e motivo de análise, discussão, partilha e fonte significativa de aprendizagem e valorização”, acreditam os autores.

As opiniões dos pais comprovam o sucesso da estratégia. “Descobri que, a qualquer altura da nossa vida, e principalmente quando temos os filhos, é muito importante brincar com eles”, testemunha uma mãe de duas crianças. Para muitos, o Clube de Pais é uma forma de conversar, de desabafar, de libertar o stress. A prová-lo está o facto de muitos terem dispensado as novelas, o futebol e até a bebida.

Tiveram o apoio da Federação das Associações de Pais e Encarregados de Educação do Concelho de Santa Maria da Feira, da Câmara Municipal. Autonomizaram-se e levam a peça a vários locais do país e estrangeiro. Dizia um dos pais: “Já posso dizer que fui ao Algarve” e outro “Nunca tinha andado de avião”.

A relação pais-filhos modificou-se fortaleceu-se e, concretamente na representação da peça, os papéis inverteram-se. Foram os filhos, e não os pais, que se sentaram nos bancos da plateia. Hugo Cruz recorda a “emoção das crianças, que olharam com espanto para o lado divertido dos pais”.

Tive oportunidade de conhecer estes pais, pois convidei-os para encerrarem um Encontro que organizei e se realizou na Fundação Gulbenkian (5º. Encontro – “Respostas: Problemas de Crianças e Famílias em Meio Escolar” em 2011, do Centro Doutor João dos Santos – Casa da Praia). Posso dizer-vos que foi uma experiência impressionante. Divertidos e desejosos de trocar experiências, quando com eles almocei. Questionantes e despertando em nós emoções fortes, quando em palco. No fim, nele sentados, de pernas caídas para baixo, um pouco acima das nossas cabeças, continuaram (para desespero dos funcionários que se queriam ir embora) a compartilhar connosco todo o processo que os levou até àquele ponto. As palavras de elogio da Drª Maria Barroso, reconhecida actriz e o facto de terem estado a actuar na Gulbenkian encheu-os de orgulho.

Um ponto de partida diferente, com um “produto” final de uma peça, que pode ser vista por muitos e muitos pode levar a pensar nas suas próprias vidas, no que estão insatisfeitos e no que podem mudar. Estes pais são disso o exemplo vivo.

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