SALTAR OS MUROS ATRAVÉS DO TEATRO E MOSTRAR DO QUE SÃO CAPAZES – por Clara Castilho

António Lobo Antunes (acrescentarei: psiquiatra) disse algures:teatro4
“No fundo o que é um maluco? É qualquer coisa de diferente, um marginal, uma pessoa que não produz imediatamente. Há muitas formas de a sociedade lidar com estes marginais. Ou é engoli-los, tranformá-los em artistas, em profetas, em arautos de uma nova civilização, ou então vomitá-los em hospitais psiquiátricos”.

Creio que neste momento já não é esta a forma como se olha para os “malucos”. A própria palavra tem uma carga negativa. Quantas vezes oiçog.teatro jmatos dizerem-me: “olhe que eu não sou maluco(a)”. Utilizando o termo perturbação da saúde mental, pomo-los ao mesmo nível de outras perturbações. Até porque os serviços públicos nem os querem nos hospitais onde são muito “caros”… Mas a mudança de termo não quer dizer a sua aceitação, nem a fomentação de formas de com eles lidar, nem a criação de alternativas de vida que sejam benéficas para eles e quem os rodeia e em que possam contribuir para a vida em sociedade. E, sobretudo, que possam encontrar alguma felicidade na vida, fugindo da angústia, muitas vezes avassaladora!

Uma das formas de intervir junto deste sector da população é utilizando técnicas teatrais. Por via delas, as pessoas podem pensar, pôr-se no lugar do outro, perceber as emoções que os outros sentem, sentirem-se ligados porque percebendo o outro se percebem a si mesmos, descobrir novos talentos nas várias áreas relacionadas com uma peça: representar, fazer cenários, tratar das luzes, do secretariado, do guarda roupa… E, de não somenos importância,  aumentar a sua auto-estima.

 Os sujeitos, ao se verem em acção, nesta experiência sensorial que ali se vive, também se podem auto-observar e descobrir pensamentos e emoções, libertando-os, ao mesmo tempo que os conscialisa dos seus direitos e capacidades.

Irei referir duas experiências que vão neste sentido. Comecemos por Lisboa, com um trabalho que já abordei neste blog. Refiro-me ao Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos, cuja história já é longa. Começou em 1968 e já representaram dezenas de peças de autores reconhecidos (Eugene O’Neill, Pirandello, Bernardo Santareno, Albert Camus, Molière, Saint-Exupéry ,Peter Weis,  Almeida Garret…) , muitas vezes fora do hospital, em teatro da cidade. Neste momento não dispõe de quaisquer apoios oficiais, recebendo apenas um subsídio do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa . O seu encenador, João Silva, referiu precisamente a falta de recursos e de gente para ajudar a levar a cabo esta utopia. Para além da direcção do encenador, os pacientes contam com o acompanhamento de duas técnicas de saúde mental, Isabel Calheiros e Liliane Viegas. Defendem eles: “A nossa filosofia de existência é não tratar as pessoas como doentes mentais […]Existe uma tendência para manter uma distância face a estas pessoas, mas nós procuramos estar próximos”. E realçam que é preciso ter “Atenção à linha que nos separa da outra margem. É ténue o limiar entre o que é ou não loucura”, repetem várias vezes os actores ao longo da peça, reforçando a ideia de que não existem “duas normalidades iguais” e que, por isso, é importante construir novas fronteiras e pensar para além do que é considerado socialmente correcto.

 No Centro Hospitalar de São João, no Porto, o projecto “Porta Aberta à Saúde Mental“, desenvolvido pela Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental (CPSM) o objectivo é reduzir o preconceito em relação aos doentes de saúde mental. Para isso deslocam-se aos estabelecimentos escolares de Valongo e entram em cena. O projeto, cuja avaliação da eficácia está ao cargo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, pretende promover na comunidade escolar a redução de atitudes estigmatizantes e a prevenção precoce da doença mental através do contacto mais próximo com utentes e técnicos de saúde mental.

Estas pessoas, que têm a possibilidade de vivenciar estas experiências, podem sair da sua situação de marginalizados, para alcançar o seu devido lugar na sociedade, com uma intervenção de cidadania que a muitos pode ensinar.

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