Durante vários anos, apenas o público-leitor pôde fruir o mais surpreendente dos textos dramáticos de Redol e, provavelmente, um dos que na dramaturgia portuguesa da segunda metade do século XX coloca maiores e mais complexos desafios aos fazedores de espectáculo. Em 1976, uma parte desta peça foi integrada no espectáculo O meu caso +O destino morreu de repente, encenado por Carlos César, no Teatro de Animação de Setúbal. E, oito anos depois, em Vila Franca de Xira, os amadores do Teatro da Casa do Povo estrearam a primeira versão integral da peça, dirigidos por Ildefonso Valério. Todavia, somente em 1988, decorridos vinte e um anos sobre a primeira edição do texto (coincidentemente, o mesmo hiato de tempo que já se verificara com Forja), foi apresentada uma versão cénica por profissionais portugueses, neste caso pela Comuna – Teatro de Pesquisa, em Lisboa, com encenação de João Mota.
O último dos volumes, Teatro III –Fronteira fechada (também com o título indicado na capa), foi publicado postumamente em 1972, como uma novidade inserida na reedição de obras seleccionadas de Alves Redol: surgiu com o número dois da colecção iniciada, no mesmo ano, com Fanga (8ª edição). Todavia, já em 1970, a Vértice incluíra, no seu número especial de homenagem a Redol (Novembro-Dezembro), um “Trecho do acto II da peça Fronteira fechada”. E em 1971, no Estratto dagli Annali dell’Istituto Universitário Orientale, de Nápoles, na sequência do seu artigo “Una testimonianza inédita del teatro di Alves Redol”, o professor italiano Nicola di Landa publicara a reprodução da cópia do dactiloscrito do 1º acto da peça, anotada, que lhe fora oferecida pelo dramaturgo, com quem se encontrara em Lisboa em Agosto de 1969. Naquele mesmo Verão, Armando Cortês demonstrou interesse em encenar a peça, então inédita, que lhe terá sido expressamente disponibilizada por Redol, tendo chegado a dirigir o respectivo pedido de autorização à Inspecção-Geral de Espectáculos, em 23 de Agosto. Aquele espectáculo não foi avante e só em 1973 o Grupo Cénico da Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António de Aguiar, de Évora, apresentou a primeira versão cénica de Fronteira fechada, com encenação de Manuel Peres.
As três peças não publicadas, mas representadas, terão sido escritas, precisamente, na perspectiva imediata da montagem cénica.
Porto de todo o mundo, a adaptação teatral do capítulo homónimo de Gaibéus, terá sido escrito no período de cerca de quatro anos que sucedeu à data de publicação do romance (1939). Este texto surge mencionado numa carta incluída no espólio de Redol, datada de 1943 (sem a indicação do dia e do mês), por si endereçada a Arquimedes da Silva Santos, que, já na qualidade de componente do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, lhe pedira peças para serem representadas naquele colectivo teatral. Na resposta, Redol afirma ter duas peças (esta e uma outra, a que me referirei mais adiante), escritas “para amadores”. Na contracapa de uma das cópias deste texto, também inventariada naquele espólio, está manuscrito, a lápis, com partes já sumidas, um comentário em italiano, redigido provavelmente por Gino Saviotti a pedido de Redol. Este dado poderá ser um indicador do seu desejo de socialização deste texto. Há informações dispersas de que terá sido representado, nesse mesmo ano, num fogo-de-campo, que, de acordo com uma notícia de primeira página do Diário Popular, reuniu “diversos grupos campistas (…) sob a direcção do Clube Nacional de Campismo” (14 de Junho de 1943: 1). Em Dezembro de 1979, um breve excerto de Porto de todo o mundo foi integrado no “Dossiê Alves Redol”, publicado na revista O Professor.
De braços abertos para a natureza terá sido escrito provavelmente em 1950, também no âmbito da actividade campista. Esta informação é complementada com o testemunho de Joaquim Campino: “De Braços Abertos para a Natureza (…), ao que suponho, teria sido representada no 2º Acampamento Nacional em Santarém em Junho de 1950, na Quinta do Anjo. E digo ao que suponho porque não participei nesse acampamento por estar já nessa altura na clandestinidade” (apud Marinho & Redol, op. cit.). Quanto ao texto, acrescenta, todavia sem fundamento, não constar que “tivesse aparecido no espólio do escritor” (Ibidem). Com efeito, o espólio integra não só o dactiloscrito, embora intitulado sem a preposição inicial posteriormente adoptada (Braços Abertos para a Natureza), mas também o manuscrito que, apesar da correspondência textual, surge encimado por uma expressão que terá sido uma primeira hipótese de título: Lugar ao sol.
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