CAMPOS MÓRFICOS, UMA TEORIA!
por Carlos Pereira Martins
Já não bastava a ideia, hoje bastante difundida, de que gémeos conseguem sentir exatamente a mesma dor ou doença, mesmo separados por milhares de quilómetros — uma noção popular, mas sem confirmação científica e que, na maioria dos casos, não ocorre da forma “misteriosa” frequentemente imaginada.
Existem, contudo, explicações plausíveis:
Semelhança genética, sobretudo em gémeos idênticos.
Gémeos mono zigóticos partilham praticamente o mesmo ADN, o que aumenta a probabilidade de desenvolverem as mesmas doenças, como enxaquecas, perturbações auto imunes ou certas condições mentais. Ainda assim, isso não implica que surjam simultaneamente.
Ambientes e hábitos semelhantes
Mesmo quando vivem separados, muitos gémeos mantêm estilos de vida parecidos — alimentação, níveis de stress, rotinas —, o que pode originar sintomas semelhantes em períodos próximos.
Sincronia psicológica e ligação emocional
Há frequentemente um forte vínculo emocional. Um gémeo pode sentir ansiedade, desconforto ou inquietação ao saber, ou até intuir, que o outro está em sofrimento. Contudo, isso não equivale a sentir a mesma dor física.
Coincidência e memória seletiva
O cérebro humano tende a valorizar coincidências impressionantes e a ignorar todas as ocasiões em que nada de especial aconteceu. Este fenómeno relaciona-se com o viés de confirmação: damos mais peso ao que confirma as nossas crenças.
Evidência científica
A investigação em áreas como a genética comportamental não encontrou provas de transmissão de dor ou de sensações físicas à distância entre gémeos.
Conclusão
Não há evidência de que um gémeo possa sentir fisicamente o que o outro sente a milhares de quilómetros. O que existe são semelhanças genéticas, fortes ligações emocionais e coincidências que, por vezes, parecem extraordinárias.
Por vezes, recorre-se à chamada “teoria quântica” para explicar este tipo de fenómenos. No entanto, é importante distinguir entre ciência estabelecida e interpretações abusivas.
Na física, existe de facto um fenómeno denominado emaranhamento quântico, que descreve partículas como eletrões ou fotões cujos estados ficam correlacionados, mesmo quando separadas por grandes distâncias. À primeira vista, isto pode lembrar a ligação entre gémeos — mas essa analogia é enganadora.
Não se aplica a seres humanos
O emaranhamento ocorre em sistemas microscópicos altamente controlados. O corpo humano, sendo macroscópico, quente e complexo, não reúne as condições necessárias; a chamada decoerência quântica destrói rapidamente esse tipo de ligação.
Não permite transmitir sensações ou informação
Mesmo no domínio quântico, o emaranhamento não possibilita enviar dor, pensamentos ou qualquer informação útil, em conformidade com o teorema da não comunicação.
Uso indevido do termo “quântico”
Frequentemente, “quântico” é usado como metáfora para o misterioso ou invisível, sem fundamento científico rigoroso.
Síntese
A física quântica não sustenta a ideia de gémeos sentirem a mesma dor à distância. O emaranhamento é real, mas não há evidencia que se aplique ao cérebro humano nem permite esse tipo de ligação.
Como se não bastassem estas teorias, simultaneamente fascinantes e complexas, surge ainda uma outra proposta, desprovida de suporte físico direto — algo que, para muitos, é difícil de compreender, mesmo enquanto hipótese.
Refiro-me à teoria dos campos mórficos que me foi dada a conhecer pelo meu muito amigo Engº Antunes Ribeiro, proposta por Rupert Sheldrake, um autor controverso que desafia a visão científica dominante na biologia. A sua abordagem insere-se numa perspetiva holística ou organicista, em contraste com o mecanicismo clássico, que explica os fenómenos da vida exclusivamente com base em leis físico-químicas.
Sheldrake retoma o conceito de campos morfogenéticos, entendidos como estruturas não físicas que organizam a forma e o comportamento dos sistemas naturais, desde moléculas até organismos e sociedades. Segundo esta proposta, os “campos mórficos” transportariam informação — não energia — funcionando como padrões organizadores que influenciam a matéria. Um dos seus conceitos centrais é o de “ressonância mórfica”: sistemas semelhantes seriam influenciados por sistemas anteriores do mesmo tipo, como se existisse uma espécie de memória coletiva da natureza. Assim, as leis naturais seriam mais comparáveis a hábitos acumulados do que a regras fixas e imutáveis.
Esta teoria é frequentemente enquadrada no contexto de três grandes correntes da biologia: o vitalismo, hoje desacreditado, o mecanicismo dominante na ciência moderna e o organicismo, que valoriza a interdependência e a totalidade dos sistemas. Sheldrake posiciona-se nesta última corrente, propondo os campos mórficos como uma alternativa para explicar fenómenos como a auto-organização e o desenvolvimento das formas.
São também referidas experiências que procuram sustentar esta hipótese, incluindo estudos sobre aprendizagem de código Morse, comportamento de ratos em labirintos e organização de colónias de insetos. Estes exemplos sugerem que certos processos de aprendizagem ou organização poderiam tornar-se mais fáceis ao longo do tempo devido à influência desses campos.
Síntese conclusiva
A teoria dos campos mórficos apresenta uma visão inovadora e abrangente da natureza, propondo que a forma e o comportamento dos sistemas resultam de padrões organizadores não físicos e de uma suposta memória coletiva. No entanto, trata-se de uma proposta altamente controversa, amplamente criticada pela comunidade científica, sobretudo pela dificuldade em obter evidência empírica robusta que a sustente.

