
II
Entretanto, conheço funcionários que já não dormem de dia na repartição a cismar como hão de resolver o terrível problema da alimentação. Como sabem – e, se não sabem, fiquem sabendo; mas não digam que fui eu que lhes contei – passaram ultimamente as férias do Natal e do Ano Bom, que, em tempos idos, eram caracterizados por comezainas de todo o feitio.
Pois este ano muita gente deixou de fazer a consoada tradicional por se não poder meter em despesas e no número desses tencionava figurar o meu velho amigo Felisberto Barata, que não é novo rico, nem dono de casa de jogo e simplesmente um pelintrão como nós.
Mas, umas três semanas antes da Natividade, Barata encontrou no Chiado o guarda-lama do automóvel cor de canário do seu velho camarada Robalinho Limitada, que antes da guerra vendia papel da Arménia à porta do Montepio Geral e hoje tem duas limousines e um torpedo de luxo, um prédio no meio do Rossio e em cada dedo um brilhante do tamanho dos ex-pães de pataco.
O Barata ia ficando debaixo dos 230 HP do Robalinho e este, reconhecendo o seu velho camarada e, querendo de qualquer modo compensá-lo do susto, disse-lhe, batendo-lhe no ombro:
– Ó Baratinha! Há que tempos te não via! Não apareces! Olha: queres tu vir cear comigo na noite de Natal? Tenho um revelhão – o Robalinho Limitada fala o seu bocado de francês – engatado com uma rapaziada catita. Nessa noite vão-se comer tartarugas na grelha, rouxinóis à tártara, carapaus à espanhola, pavão recheado e beber-se uns vinhos que não te posso citar agora de memória. Até há de haver vinho quinado, se Deus quiser.
O Barata ficou como louco. Agradeceu ao Robalinho com as lágrimas nos olhos, prometendo não faltar à ceia. Manda a verdade que se diga que perguntou no fim:
– E posso levar a família?
– Não. Lá isso também era abusar. – contestou o Robalinho, dando guita ao automóvel.
Barata chegou a casa radiante e contou à mulher o sucedido. Esta, nadando em júbilo, beijou o marido nas pestanas, felicitando-o pela sorte que o bafejava. Barata jantou nesse dia com excelente disposição, a tal ponto que a esposa teve que lhe dizer:
– Ó filho, a comeres dessa maneira, quando chegar a noite da ceia não tens apetite nenhum.
– Tens razão. – concordou Barata. Vou começar a partir de amanhã num regime que me ponha em termos de fazer honra à consoada do Robalinho.
No dia seguinte tomou um purgante, mandou aviar na botica uns remédios aperitivos, fez uma lavagem ao estômago, reduziu as refeições a uma e essa mesma a umas comidinhas muito leves.
Ao fim de uma semana andava com uma fome de leão exilado há seis meses num deserto onde não passa ninguém.
Uma manhã a mulher disse-lhe:
– Tu o que devias fazer era tratar dos dentes. Tens uns poucos estragados e vamos que te aparecia um abcesso no dia da ceia.
Barata correu logo para o dentista. Este visitou com uma lâmpada eléctrica a cavidade bucal do nosso amigo e, depois de raspar, limar e limpar, pôs-lhe dois dentes de pivot, três de placa, cinco coroas de ouro e uma ponte de platina.
– Com uma boca destas, – disse o dentista no fim do tratamento, – o senhor só devia comer rosas ou mastigar pérolas.
– Pois tenciono na noite de Natal comer carapaus à espanhola…
– Oh! exclamou o artista caindo para o lado com uma síncope.
O regime a que Barata se sujeitara na previsão da consoada causava-lhe certas dores nas entranhas.
– Estarás tu para ter uma crise de apendicite? – sugeriu-lhe a mulher muito preocupada. Logo nesta altura, quando vais cear tão bem…
– Não há novidade. – atalhou Barata.
E meteu-se nas mãos de um habilíssimo cirurgião da nossa praça, que o abriu de alto a baixo e lhe cortou para cima de meio metro de intestino que o nosso amigo tinha a mais.
Enquanto convalescia, Barata entretinha-se a fazer exercícios de ginástica sueca mastigatória, adestrando as maxilas num movimento que chegava a dar vertigens a quem o presenceava.
14 de Janeiro de 1923
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Ver a primeira parte desta crónica, publicada em A Viagem dos Argonautas em 6 de Abril de 2014 em:
OS MEUS DOMINGOS – O PROBLEMA DA ALIMENTAÇÃO – por ANDRÉ BRUN


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