EURICO FIGUEIREDO, “HISTÓRICO” DO PS, SAI DO PARTIDO

Eurico Figueiredo, militante “histórico” do PS, dimite-se do partido em carta a António José Seguro que transcrevemos com autorização expressa do signatário. Professor Catedrático de Psiquiatria aposentado pela Universidade do Porto e ex-deputado, invoca divergências insanáveis e, sobetudo, por já não acreditar «na possibilidade do PS, por sua iniciativa, poder mudar o dramático curso dos acontecimentos».

Porto, 24 de Março de 2014

Meu Caro António José Seguro

Na última carta que te escrevi, a 17 de Setembro de 2013, garanti-te que seria a última.

Infelizmente, não vou poder cumprir a minha promessa.

Compreenderás as razões: esta é uma carta de despedida.

Vejamos os mais importantes e recentes passos que me conduziram a esta decisão.

Lembrar-te-ás de que eu, na primeira carta aberta, de 29 de Maio de2012, alertava para a perigosa crise por que passava a democracia portuguesa.

É certo que o diagnóstico desta situação já remontava aos finais da década de 90. A partir dos meus trabalhos de investigação no âmbito da relação de gerações realizados em universitários e respectivos pais, na década de 80 e 90: o apoio à democracia pluripartidária teria perdidocerca 12 pontos nos jovens (de 85.3 para 73.6) e cerca de 6 nos pais (de 76.2 para 70.7)em 10 anos! Assim como revelavama importância do estado social e da crítica aos tribunais pelas diferentes classes sociais e gerações em estudo.

A crise larvar da democracia acelerou-se, contudo, devido à actual crise económica e financeira,pondo em causa o contrato social garante da estabilidade democrática.

Propus-te, na altura, a realização de um Congresso Extraordinário do PS para discutir a crise da democracia, fortalecendo, nesta, a componente participativa: democratizar a democracia.

A tendência que nos parece mais espontânea dos portugueses, faceàcrise das convicções democráticas, é a deprocurar pseudo-soluções autoritárias. A terapêutica preventiva em relação à opção autoritária é a de responsabilizar os cidadãos pela participação democrática. Confesso que não vejo outra possibilidade que não seja a de reforçar a componente participativa da democracia portuguesa: quer se goste, quer não se goste.

O desenvolvimento da democracia representativa em Portugal foi fundamental no pós-25 de Abril.

Mas esgotou-se.

É hoje identificada com uma oligarquia partidária (partidocracia) que tudo comanda e controla, não dando espaço à iniciativa dos cidadãos. Transformou-se, progressivamente,num pântano propício a negócios, à lógica da influência, paredes meias com a corrupção.

Pelas mesmas razões, solicitei-te os endereços dos emails das federações para procurar nestas os apoios estatutariamente necessários (carta aberta de 25 de Maio). Pedido a que não atendeste.

Imagina que, em tempo útil, tinhas dado um empurrão no conservantismo do PS, apostado o teu futuro político num congresso refundador da democracia?

A tendência do PS,“ Esquerda Socialista”, alguns dos teus mais próximos colaboradores, como Álvaro Beleza, o teu antigo rival, Francisco Assis sabem bem que é urgente revolucionar a nossa democracia.

Começa a tardar.

É uma revolução política indispensável, que vai ter que ser feita,que muita gente agoradefende,masjá não tem a frescura da novidade, nem a fragância de poder terdado a iniciativa política a um PS acossado pelofuror anti- socrático.

Nas crises há sempre um tempo útil para dar a volta às situações. A procura de um autoritarismo desresponsabilizante já é, actualmente, no meu entender, a tendência dominante, mesmo sem ter dados para fundamentar esta opinião.

O sentimento de impotência que se apoderou dos portugueses, que já nem protestam, (as forças de segurança são uma excepção), não deixa de ser preocupante…

O outro défice de democracia, agora sentido por tanta gente, situa-se a nível europeu.

Enquanto entraram enxurradas de fundos da União Europeia, a maioria dos portuguese não se apercebeudo logro em que estava a ser metida.

Nem se incomodou.

O clima de intolerância existente nos partidos europeístas também não era propício a que se pusesse em causa o modelo de construção europeia.

Quando, todavia, da mesma Europa nos vem a política de austeridade(sem crescimento), o caso muda de figura.

É agora evidente, para a grande maioria dos portugueses, que a União Europeia não está construída em moldes democráticos.

Não se criou, em mais de 60 anos, o sentimento de “ nós os europeus”, como o há de“ nós os americanos” ,” nós os indianos”, “nós os suíços”, .

Em democracia, o federalismo é a única solução para transformar a diversidade linguística, cultural, de estados e nações, numa unidade criadora de um forte sentimento de pertença.

O debate sobre o federalismo europeu, ou urgentes avanços federais, é obrigatório, depois da leviandade da introdução do euro sem a criação prévia de um estado federal. Independentemente da oportunidade, dado que agora pouco interessa ao Norte da Europa, que passou a explorar o Sul.

Até porque estão sempre a chegar novas oportunidades de tornar premente o debate.

A política agressiva de Putin, anexando a Crimeia por meios militares, ainda por cima cobardemente disfarçados, quando o movimento pró-europeu, na Ucrânia,veio de novo fazer-nos acreditar na Europa, é um bom exemplo do que acabo de referir.

O risco deste se preparar para intervir onde houver minorias russófonas, veio obrigar-nos a ter de discutir, de novo, a necessidade de forças armadas federais, quanto mais não seja como pilar militar da NATO.

Não podemos estar sempre à espera da ajuda do Tio Sam.

Perante o desinteresse do PS em debater a crise de democracia, em Portugal e na Europa, e a suaimpotência para tomar iniciativas, até na Internacional Socialista, sobre a urgência de medidas federais na U. E., atrevi-me a pretender candidatar-me a Secretário -Geral do PS.

A COC do Congresso fez-me compreender que o regulamento interno do partido não tratava igualmente os pré-candidatos.

Um secretário –geral do PS, pré-candidato, pode ter acesso aos endereços dos emails de todos os militantes, mas outro pré-candidato não.

Propus-te, também, primárias para a escolha do candidato, pelo PS, a primeiro-ministro. O que já sucede com os nossos congéneres da Espanha,e da França para a candidatura à Presidência da República. Na Itália, até a eleição do secretário- geral do Partido Democrático é, agora, disputada em primárias.

Poucos, no PS, compreenderam as potencialidades da minha proposta.

Mas lembra-te que o criativo João Cravinho criou mais problemas ao governo com o seu Manifesto, que o secretariado, grupo parlamentar e o Laboratório de Ideia do PS…

Por tudo isto, constatando a minha impotência para influenciar o PS, e concebendo os partidos, financiados pelos contribuintes, como meros instrumentos, indispensáveis em democracia, para intervir politicamente, mais não me resta do que afastar-me.

Não sou clubista, e perderia o respeito por mim próprio se me abstivesse deintervirna situação dramática que vivemos.

Aquando da eleição de José Sócrates para secretário-geral, que tinha sido já duas vezes um grande ministro,ainda acreditei na regeneração do PS.

Gostei do seu primeiro governo.

Decepcionou-me profundamente o segundo.

Agora já não acredito na possibilidade do PS, por sua iniciativa, poder mudar o dramático curso dos acontecimentos.

Mas há sinais de que podem obriga-lo por fora.

Na competição interpartidária.

Apesar de o “ Livre” ter escolhido um mau posicionamento na escolha do seu espaço político, por fetichismo de esquerdas, pegou bem na noção de primárias.

TENHAMOS ESPERANÇA.

Como compreenderás, não saio do PS para me reduzir à minha impotência.

Saio para poder intervir sem compromissos.

Recebe um abraço do amigo que muito te estima.

 

 

Eurico Figueiredo

 

 

 

4 Comments

  1. Poderia ser importante. Poderia ser comovente.
    Mas… que pensar de quem afirma que “o movimento pró-europeu, na Ucrânia, veio de novo fazer-nos acreditar na Europa”?
    Começo por ter as maiores dúvidas sobre a genuinidade de tal “movimento”, bem como sobre a intervenção directa nele de responsáveis da UE, deslocando-se inclusive ao local das “manifestações” (nas quais se destacavam forças neo-nazis), numa inadmissível intromissão em assuntos internos de outros países, coisa que, bipolarmente, se assume como virtuosa quando praticada por proclamadas “democracias” e se vitupera quando a estas não interessa, mesmo que quem a pratica tenha – “hélas”!… – mais legitimidade democrática que os santinhos funcionários da UE, que ninguém elegeu, independentemente do maior ou menor valor das razões de cada um dos lados, o que não é tema que seja tão evidente e claro como se pretende fazer crer ao comum e desinformado cidadão.
    Depois… retenho o que, factualmente, resultou de tão “glorioso movimento”: o derrube de um governo democraticamente eleito – corrupto e autoritário, é certo, mas talvez menos que o seu homólogo húngaro, já integrado na querida UE e reeleito recentemente, em pleno regime de censura institucional e perseguição de adversários políticos… e não tão diferente como isso de muitos dos que presidem aos destinos de diversos países dessa “união” -, num processo condenadíssimo, em numerosas “outras” circunstâncias, pela mesma UE e seus aliados americanos; e o apoio de “democracias” cada vez mais trôpegas e desvirtuadas a um golpe de estado – as coisas não mudam de nome conforme convém… – que colocou no poder um governo de extrema-direita, condição já expressa em actos, claramente nazis, de perseguição aos judeus e outros afins, que ainda não vi a virginal UE condenar, como se impunha.
    Estará este “dissidente” taralhouco? Terá perdido qualquer capacidade intelectual de não se confinar à “informação” dos “media” que fecham os olhos a tudo que não se harmonize com as posições ocidentais, tão interesseiramente orientadas (pelo menos!) como as de Putin?
    Perante uma tal demonstração de “confusionismo” intelectual (um passado eventualmente respeitável não justifica um presente transviado…) – e fico-me por esta designação, tentando mui tolerantemente afastar a suspeita de que outras razões presidam a afirmações tão tontas -, qual o interesse em tornar públicas meras tricas partidárias, que sobrevoam os problemas europeus e mundiais sem analisar as suas verdadeiras e mais profundas razões, que nada resolvem e, sobretudo, nada de fundamental põem em causa, no que se refere precisamente à falta de rumo da desconchavada nau europeia, de cujas derivas políticas e submissão aos ventos dominantes de interesses privadíssimos e minoritários as próprias populações são as primeiras vítimas?
    Mais lhe valera deixar a cartinha fechada…

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