EDITORIAL – O défice democrático do Estado espanhol

Imagem2Nem só o ébola nos pode chegar vindo do estado vizinho. Um preocupante revivalismo fascista perdura em muitas cabeças onde a nostalgia falangista fez ninho. Em Portugal – valha-nos isso! – o salazarismo foi institucionalmente erradicado; em Espanha, a «transição para a democracia», conduzida por Adolfo Suárez, fez-se no «respeito pela história recente», evitando as rupturas que podiam fazer perigar a «unidade nacional» que é a designação eufemística para a opressão espanholista sobre a Catalunha, a Galiza e o País Basco.

Mas então o Reino de Espanha não é um estado democrático? Claro que sim. Mas, lá como cá, a democracia tem regras que anulam a própria democracia. Temos a convicção de que a esmagadora maioria dos catalães quer a independência. Porém, divididos em partidos, provenientes de classes sociais diferentes e com interesses que são, por vezes, opostos, não sentem a pátria do mesmo modo, nem querem a independência da mesma maneira e o próprio conceito de independência diverge. Provavelmente, o anseio soberanista só é vivido em uníssono no apoio ao Barça!

Impedida pela constituição espanhola, a consulta de 9N não poderá ser feita. Madrid saberá, respeitando as regras do «jogo democrático», impor a unidade que um grupo de militares traidores aos deveres que tinham jurado à República, impôs à custa de um milhão de mortos. A unidade dos rebanhos, mantida pela vigilância dos mastins.

 

4 Comments

  1. Sou vosso assíduo leitor. Mas este editorial revela uma “santa” ignorância. Remeto para um estimulante livro do historiador Henry Kamen, “España y Cataluña, Historia de una pasión” (ed La Esfera de los Libros).

    1. Meu amigo,
      A ignorância pode ser muita coisa, mas santa é que não. Sendo nosso leitor, sabe que a nossa posição é de uma intransigente defesa da independência das nações amalgamadas no Estado espanhol – por que haveria a leitura de um livro de um historiador britânico dissolver a nossa ignorância/convicção? Quanto a nós, na sua obra (estimável) Kamen incorre sistematicamente no erro de falar anacronicamente de Espanha, por exemplo a propósito da (Santa) Inquisição. Erro grave para um historiador o de não saber que Espanha só foi constituída nas Cortes de Cádis, em 1812. Nós somos ignorantes, é verdade – o que não sabemos encheria numerosas bibliotecas. Mas, neste caso, não será antes uma divergência de opiniões? Não quererá dizer-nos onde reside a sapiência de Kamen e a nossa ignorância?

  2. Meu amigo,
    Aceito que a expressão “santa” ignorância não terá sido feliz e, naturalmente, não pretendi que fosse ofensiva. De qualquer modo não creio que, neste caso, seja útil entrar nas opiniões, naturalmente respeitáveis.
    A Constituição Espanhola em vigor foi referendada em Dezembro de 1978, tendo sido aprovada por 89% dos 26 milhões de votantes inscritos. Diz o artigo 2º que “La Constitución se fundamenta en la indisoluble unidad de la Nación española, patria común e indivisible de todos los españoles, y reconoce y garantiza el derecho a la autonomía de las nacionalidades y regiones que la integran y la solidaridad entre todas ellas.”
    A Constituição de Cadiz, de Março de 1812, foi o primeiro documento constitucional aprovado na Península Ibérica, nasceu na sequência das profundas mudanças sociais desencadeadas na Europa pela expansão do Iluminismo, pela Revolução Francesa de 1789 e pelo período de grande instabilidade sociopolítica que se lhe seguiu, tendo por causa próxima as Guerras Napoleónicas.
    Contudo, não é por acaso que os fundadores da actual Constituição Espanhola concordaram que “…..Espanha é uma nação de nações, e este é um termo que não é estranho na nossa reflexão política e teórica como demonstraram alguns historiadores. Refiro-me ao Senador Catalão Josep Benet, que escreveu um sugestivo artigo sobre o tema, nem é um termo que política e sociologicamente seja (…) tão estranho…” (cf. Jordi Solé Tura, deputado do Partido Socialista Unificado de Catalunha, intervenção nas Cortes em 4 de Julho de 1978).
    Se recuarmos aos séculos XV e XVI, encontramos inúmeros testemunhos, designadamente de viajantes estrangeiros (v.g. o francês Roberto Gaguin, um anónimo alemão, o polaco Nicolás de Popielovo, o francês Antoine de Lalaing, o italiano Francisco Guicciardini, o siciliano Lucio Marineo, o italiano Mariangelo Accursio, o italiano Ambrosio Recalcati) que falam expressamente da Espanha e dos espanhóis, reconhecendo os diversos reinos nela existentes (cf. José Garcia Mercadal, 1920, “España vista por los estranjeros”, vol .1 e vol.2, ed. Biblioteca Nueva, Madrid). A partir de Carlos V, e na sequência do reinado dos Reis Católicos Isabel e Fernando que reuniu as coroas de Castela e Aragão, a coroa passa a ser reconhecida como coroa de Espanha (incluindo também Navarra), o que se manteve até à Constituição de Cadiz.
    Não me parece assim que o historiador Kamen incorra em erro ao falar de Espanha a propósito da Inquisição e de outras matérias de Espanha que não apenas a Inquisição. E continuo a pensar que o seu recente livro “España y Cataluña, Historia de una pasión” é efectivamente estimulante, nomeadamente pelos factos que aporta sobre o assunto.

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