A moderna actividade bancária começou na Europa, em 1743, quando o judeu Amshel Moses Bauer, ourives e agiota de Francforte, adotou o nome de Rothschild por causa da insígnia na porta da sua loja ser uma águia romana sobre um escudo vermelho. O agora e para o futuro Rothschild, manteve junto a si o mais velho e enviou os outros 4 filhos à medida que atingiam a maioridade para as capitais europeias mais importantes (Paris, Londres, Viena, e Nápoles), onde estabeleceram bancos destinados a emprestar dinheiro a juros às monarquias amantes do luxo e entretidas nas suas caras guerras. O velho Rothschild retirou da Bíblia a inspiração, ao aperceber-se como Sinédrio dominara o povo judeu através dos empréstimos com juros à casta reinante dos sacerdotes.
A forma de usura gizada e globalizada pelos Rothschild a partir do século XVIII conjugava dois princípios muito simples, um antigo: emprestar mais dinheiro do que aquele de que o agiota dispõe em caixa, utilizando como garantia uma reserva (inicialmente o ouro retido como penhor de empréstimos), o outro inovador: emprestar de preferência a governos e a Estados pois é muito mais lucrativo e seguro do que fazê-lo a cidadãos comuns. Foi assim, através da emissão de dinheiro sem garantia real e da dívida dos Estados, que estes novos agiotas se tornaram literalmente os soberanos das nações. A banca e os banqueiros tomaram o poder.
A imagem de seriedade desta operação de usura foi consolidada com um nome respeitável, em inglês: Fractional reserve lending. Na realidade os FRL são um empréstimo sem garantias reais, ou sem cobertura. O segredo dos Rothschild, que possibilitou o poder e a fortuna de famílias como os Espírito Santo em Portugal, reside no modelo de banco central que eles implantaram para o alcançarem. Utilizaram-no primeiro em Inglaterra e depois nos EUA, com o Federal Reserve Bank, o Banco Central dos Estados Unidos. O “Fed” é uma empresa privada fechada, detida por cerca de 300 entidades, quase todas ligadas às famílias Rothschild e Rockefeller, que inclui,por exemplo, o Goldman Sachs of New York, de onde vieram os teóricos liberais do governo António Borges e Carlos Moedas, entre outros nomes que estamos habituados a ouvir falar como campeões da iniciativa privada, defensores do Estado fora dos negócios. De lá veio Mário Draghi, o presidente do Banco Central Europeu!
Hoje todos os países do planeta possuem um banco central similar, baseado num grupo de accionistas privados que empresta, a juros, aos governos dos seus próprios países, a quem estes concedem o direito de criar (emitir) moeda e que distribuem os lucros por eles próprios. A acumulação de capital e os direitos de emissão de moeda permitem aos sócios dos bancos no centro da actividade manter os governos e a população reféns das suas políticas monetárias, expandindo ou contraindo o crédito como melhor lhes convém. São esses bancos centrais e os seus accionistas que ditam as regras aos governos. A relação entre política e negócios é nuclear, visceral, apesar do que António José Seguro andou a dizer com um ar mortificadíssimo sobre a necessidade de os separar.
O modelo em vigor nos bancos centrais europeus e no BCE segue nas suas linhas fundamentais a doutrina Rothschild. O documento que enumera as fases da criação da União Económica e Monetária explicita que a missão do BCE é conseguir a completa liberalização da circulação de capitais, proibindo-lhe o financiamento do setor público. Trata-se de colocar os Estados a utilizarem os seus instrumentos de soberania: as leis e a força ao serviço dos lucros privados.
Os Espírito Santo desempenharam em Portugal durante 140 anos o papel que os Rothschild atribuíram aos moneychangers, curiosamente o termo que os ingleses usam para designar os vendilhões do templo expulsos por Cristo no episódio bíblico, os agiotas que estiveram por detrás da morte de Júlio César, quando tentou limitar a posse da propriedade privada de terras e liberalizar a cunhagem de moedas. Integraram o grupo de famílias que ao longo dos dois últimos séculos cumpriram a função essencial ao exercício do verdadeiro poder: “fazer dinheiro” através da usura e financiar o Estado.
A família Espírito Santo conseguiu quer no Estado Novo, quer no período da reprivatização após a nacionalização de 75, que os governos fizessem do seu banco um banco central na prossecução da política do Estado, legislando de acordo com os seus interesses e consagrou-se como o ramo português na rede financeira mundial de agiotagem. Tudo parecia ir bem até há pouco.
O que aconteceu para o Banco Central Europeu punir e destruir os Espirito Santo? (É hoje claro que o governo português e o Banco de Portugal se limitaram a seguir as determinações do BCE.) Qual foi o crime que mereceu tal castigo, se as eventuais irregularidades, ciúmes e tiros nos pés fazem parte da biografia de qualquer destas famílias que se prese?
Em minha opinião foram punidos para que o sistema Rothschild se mantenha intocável. O pecado capital dos Espírito Santo foi o de terem querido ser simultaneamente agiotas e investidores. Misturarem a usura com a produção. A agiotagem que está no código genético do BCE e da UEM não podia aceitar a promiscuidade com a economia real que a componente não financeira do GES representava através da Rioforte (turismo e agro-turismo), imobiliário, indústria e, principalmente, do BESA. A conjugação que estivera na base do crescimento do Grupo Espírito Santo, que se desenvolvera durante o Estado Novo (petrolíferas – Sacor, Petrangol, p.ex) e que fora o refúgio durante o período de exílio da família (fazendas na América do Sul, p.ex), terá sido a causa da sua ruína, porque é sacrílega na actual conjuntura.
O BCE arredou os Espírito Santo dos seus estancos porque eles não se mantiveram puramente agiotas. Fê-lo em nome do sacrossanto princípio da agiotagem de viver à custa dos juros e não do trabalho, impondo a sua substituição por agiotas puros. É nesta substituição que reside o busílis do processo que o governo Passos Coelho desencadeou ao aceitar a pulverização do Grupo ES imposto pelo BCE. O perigo que corremos, que Portugal corre, é o do Passos Coelho e da sua partenaire Maria Luís terem destapado a Caixa de Pandora, a tal jarra da primeira mulher criada por Zeus e que continha todos os males do mundo, em vez de esperar, como fazem os chefes prudentes, até perceberem a manobra dos seus adversários.
Porque para o BCE os banqueiros não podem estar envolvidos na gestão de bens reais, Maria Luís Albuquerque recebeu e transmitiu a ordem ao pobre sacristão que faz de governador do templo assombrado em que se transformou o Banco de Portugal para defenestrar os Espírito Santo, de os correr para longe da caixa dos milagres das acções e obrigações e de substituir o BES por uma clássica casa de agiotagem. Assim foi feito, para gáudio do povo e dos jornais. Com o desaparecimento do Grupo Espírito Santo também está aberta a porta a um Banco de Investimentos. Um bom futuro ninho para ex-governantes! O povo está satisfeito, os seus pastores também. Final feliz.