A Voz do Mar – conto de Alves Redol

Escritor português,  figura cimeira do Neo-Realismo português, foi autor de uma vasta obra ficcional, que inclui o teatro e o conto. Estreou-se em 1940, com Gaibéus, romance que de acordo com muitos historiadores da Literatura assinala o começo do Neo-Realismo português. Nasceu em 1911 em Vila Franca de Xira e morreu em 1969 em Lisboa. Comemora-se este ano o centenário do seu nascimento e não deixaremos de nos associar a essas comemorações – aqui vos deixamos um pequeno conto de Histórias Afluentes.

 

 

 

 

 

O Artur sentiu sobre a orelha uma coisa
muito fria, com um som…

– O que é, mãe?

– Não ouves?

Sim, ouvia. Era um som pesado lá ao longe e que depois vinha, vinha e subia, e
que depois se tornava mais brandinho, para logo voltar a vir de longe. Parecia
música, mas não era bem música. E talvez fosse. Bom, não seria bem música.

– O que é, mãe? – voltou a perguntar. – Que barulho é este?

– É o mar… É a voz do mar…

– A voz do mar?!

– O mar fica longe, mas a voz meteu-se aí dentro. Isto é um búzio.

– E onde nascem os búzios?

– No mar.

-Então é por isso que se ouve…

– Pois é. As ondas fazem um barulho assim quando se ouvem ao longe. E a gente
está longe. Não ouves a voz que lá vem?

– Oiço.

– E depois quebra-se assim como as ondas na areia.

– Então isto é o mar? O mar é o oceano. No mapa chamam-lhe oceano. Parece que
há vários… . Eu já ouvi aos que andam no quarto ano: é o Oceano Atlântico, o
Oceano Índico…

– Não achas que mar é mais bonito?

– Pois é, mar é muito mais bonito.

De repente, fechou os olhos e juntou as duas mãos sobre o búzio, apertando-o
contra o ouvido.

– Agora deve ser um navio que lá vem. É mesmo, é, é um navio…

A mãe aproximou o ouvido, desviando o lenço.

– Não ouves?

Não, a mãe não ouvia. Mas o importante para ele era ter o mar apertado entre as
mãos. Lá vinha uma onda… e outra.

 

 

in Histórias Afluentes

 

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