A democracia ameaçada pelas agências de rating, ameaçada também pelos nossos silêncios. Parte II-C. Sylvain Cypel, Dette americaine: un accord et des concessions, Le Monde, 02.08.11, traduzido por Júlio Marques Mota

Dívida Americana: um acordo e concessões

 

A América suspirou de alívio, a Europeu serenou dos seus pesadelos  e desta vez os  mercados se acalmaram também: um acordo finalmente se alcançou no Congresso quanto a evitar-se  no  dia 2 de Agosto uma situação de incumprimento de pagamento pela nação mais poderosa do mundo .  Aqui deixamos aos visitantes, aos leitores de A Viagem dos Argonautas um  texto sobre este mesmo acordo. Um dado é aqui bem preciso e tem um profundo paralelo nesta nossa Europa que de joelhos está face aos mercados de  capitais. Aqui, pede-se aos mercados financeiros que  aceitem que haja uma reestruturação voluntária e informal da dívida soberana porque o poder lhes foi a estes completamente garantido e pede-se-lhes portanto, e lá, na América,  nessa sim  que ainda se pode orgulhar do Presidente que tem,  contrariamente à Europa que se pode questionar do qual é que se  envergonha mais, é o Presidente que apela à população para se manifestar contra o cerco que lhe estava a ser feito, mas é também ele,  mesmo assim,  que sublinha : 

 

Apesar do que avançaram certos republicanos, creio que devemos pedir aos Americanos mais afortunados e às mais importantes empresas que paguem a sua justa contribuição renunciando às deduções de impostos e às isenções especiais.

 

Também aqui se pede, não se impõe, não só porque, no fundo, é a direita que em oposição ao Presidente tem  o poder, também aqui se pede aos mais ricos e às maiores empresas porque a mais não se conseguiu neste Congresso,  também aqui se pede mas para marcar pontos,  para ganhar um espaço de folga, de preparação, para os novos combates que com as próximas presidenciais se desencadearão.

 

Ao leitor  interessado nestas matérias, reenviamos a um texto de que  somos co-autores escrito há mais de um ano em que procurámos analisar as linhas de força da direita americana. Cremos que mantém a sua actualidade. Nesse texto afirma-se:

 

Mas será só na Europa que existe essa forma de ver o Estado e a política económica? Nos Estados Unidos, um conjunto de instituições e programas conduz uma forte campanha contra a política económica de expansão do Presidente Obama, e são todos eles defensores da austeridade orçamental. O discurso dessas instituições pode ser resumido por um excerto dos seus textos, onde se afirma:

 

 

Do ponto de vista financeiro, os Estados Unidos têm de convencer os mercados  financeiros que estão a ser sérios quando dizem que vão diminuir o ratio da dívida relativamente ao PIB. Os mercados globais aceitam mais provavelmente um plano se o objectivo tiver credibilidade internacional. O objectivo limite de 60% é agora um padrão internacional. Na União Europeia, sob as exigências do Tratado de Maastricht (ou da União Europeia) e do Pacto de Estabilidade e Crescimento, os Estados-membros devem satisfazer a taxa de referência de 60% da dívida pública e de 3% do défice público relativamente ao PIB. Da mesma maneira, o FMI considera 60% como um objectivo de referência. Dados os riscos significativos de um valor elevado para a dívida, um objectivo menos agressivo pode ser insuficiente para acalmar   os   mercados   ( P e t e r s o n – P e wC o m m i s s i o n   o n   B u d g e t   R e f o r m ,   2 0 0 9 ,p. 15) [1]

 

Lá como  cá   a direita está ao ataque a tudo o que tem a cor, o cheiro, o aspecto, a finalidade de servir o cidadão, a tudo o  que  politicamente se   inscreve  na óptica do Estado Providência.  É contra esta direita que  todos os tanques da nossa  razão , todas as armas pesadas ou ligeiras resultantes e elaboradas a partir da análise  que  cada um de nós  faça,    devem ser atiradas, é contra esta direita que  sem apelo nem agravo que nos devemos todos manifestar , é contra esta direita que nas urnas devemos todos nós saber votar. É o mínimo que se pode dizer, apenas o mínimo.

 

Dívida americana: um acordo e concessões

Sylvain Cypel

 

Barack Obama e o Congresso chegaram na noite deste domingo a um acordo de última hora  para aumentar o tecto da dívida.

 

Se tudo se tudo se  desenrolar como o esperam a  Casa Branca, os republicanos, maioritários na  Câmara dos Representantes, e os seus homólogos democratas no Senado, os Estados Unidos evitarão uma situação de incumprimento de pagamento  na  terça-feira, dia 2 de Agosto. O acordo alcançado sobre o aumento da dívida pública americana, no domingo 31 de Julho à  noite, no final de renhidas e difíceis negociações, deverá ser adoptado pelo Congresso. Contudo, bem mais do que ter salvo o planeta de um novo sismo financeiro potencialmente dramático, a primeira questão  que preocupava os comentadores  americanos, uma vez o acordo anunciado, consistia em saber quem é que , politicamente, saía  vencedor.

 

O acordo  aparece com efeito como um puro produto da política típicaem Washington. Aindamesmo antes de ser  rubricado pelo legislador, o que ainda não se dá por completamente adquirido, na Câmara, e ainda sem  que os seus termos definitivos sejam bem demarcados, cada um esforça-se por  apresentar o acordo como mais favorável ao seu campo do que ao campo do adversário, quer se  trate  do presidente, Barack Obama, quer do  líder da maioria democrata ao Senado, Harry Reid, ou ainda do presidente da Câmara, o republicano John Boehner.

 

Um compromisso com  ambições mais modestas


O presidente  Obama queria um aumento  da dívida suficientemente volumoso para durar e para lhe evitar  que deva apresentar-se de novo numa outra  negociação em plena campanha eleitoral. Queria, também, que as reduções maciças de despesas públicas (4 000 mil milhões de dólares, ou seja 2.800 mil milhões de euros) sejam compensadas  por um restabelecimento da imposição fiscal sobre os 2% dos Americanos mais ricos e ao  nível onde estavam antes da presidência Bush, para gerar novas receitas fiscais próprias de modo  a proteger   pelo menos parcialmente  a cobertura social e os “grandes estaleiros do futuro “ (educação, investigação) dos cortes orçamentais que inegavelmente que estes itens deverão em breve  sofrer.

 

Os republicanos, estes, queriam “cortar” muito mais no trem  de vida do Estado (de 4.000 para 7.800 mil milhões em dez anos apenas e de acordo com os seus planos), sem estar a aumentar de um cêntimo  o imposto sobre o rendimento de todos os americanos. E preferiam um acordo temporário que permitisse  um aumento mínimo do tecto para um curto período (até em Março de 2012) e prorrogando as datas cruciais para datas posteriores , uma táctica para relançar o debate sobre a dívida por altura  de um novo e  inegável aumentado do seu tecto em Março, já com a campanha eleitoral verdadeiramente lançada.

 

O  “quadro” do compromisso encontrado, de ambições mais modestas, seria o seguinte:

– o tecto da dívida é aumentado de 2.100 mil milhões de dólares pelo menos, de modo que os compromissos americanos sejam assegurados até 2013 (é que os mercados esperavam);

– as despesas públicas sofrerão um corte entre  900 a1.000 milhares  de milhões de dólares de despesas públicas conforme aprovado  entre os negociadores, cortes estes que serão feitos nos orçamentos federais sobre ao longo dos próximos  dez anos  e destes, 350 mil milhões serão o resultado da baixa das despesas de defesa, um tema  até agora tabu no entender dos republicanos;

 – uma redução suplementar das despesas pelo menos de 1.500 milhares de  milhões de dólares ao longo da próxima década (a soma de 1.800 mil milhões também é evocada) deverá ser executada seguidamente por uma comissão bipartidária do  Congresso.

 

Esta entregará o seu relatório antes do final de Novembro e o Congresso deverá aprovar as suas recomendações, depois das  alterações, antes do final de  Dezembro; – o seguro-saúde dos reformados e necessitados  (dito Medicare) é amputado de 4%, mas sem estar a afectar os direitos dos pacientes (os médicos e os  laboratórios farmacêuticos serão os  únicos agentes de que irá depender esta  contribuição), e os planos de reforma e apoio aos deficientes (Social Security) permanecerão  inalterados. No caso de malogro, haverá  mecanismos que impõem com que as restrições sejam vinculativas, sejam  levados a efeito.

 

A imposição fiscal sobre os ricos em questão

 

O acordo final dá ao Presidente o que ele desejava sobre uma questão chave: é bastante volumoso para que o tecto da dívida não precise mais  de vir a ser  aumentado antes de 2013, oferecendo assim aos mercados financeiros as garantias que esperavam. Mas ele  permite aos republicanos dominarem  sobre as condições da gestão da futura reabsorção  da dívida – nenhum americano verá os seus impostos sobre o rendimento aumentarem – e grande parte  do processo não está ainda fechado: será objecto de uma negociação que irá  ainda prosseguir durante  vários meses.

 

Este acordo comporta também os elementos que o levarão a uma situação de malogro global . Nada de muito preciso  é especificados no caso em que  a comissão bipartidária  não chegar a alcançar qualquer acordo. Ora a experiência deste tipo de comissão desde a chegada do Presidente Obama à presidência mostra que a quase totalidade de entre elas não conduziu, por falta de acordo dos  republicanos alcançar  nenhum compromisso.

 

O Congresso deverá  provavelmente votar este compromisso, embora a sua validação pela  Câmara não seja ainda um dado adquirido, a acreditar  nos primeiros comentários. A esquerda democrata insurgir-se-á contra um plano onde o presidente abandona  um dos seus princípios enunciados como intangível: a imposição fiscal dos mais ricos. “ A despeito que avançaram certos republicanos, acreditamos  que devemos pedir aos Americanos mais ricos e às maiores empresas  que paguem a sua justa contribuição renunciando às deduções de impostos e às  isenções especiais “, declarou ainda o Presidente  Obama na sua alocução.

 

Perspectivas eleitorais


Este tributo verbal a um princípio ao qual renuncia  pela  segunda vez  far-lhe‑á perder ainda mais alguns apoios o que já se iniciou à muito tempo sobre esta franja do eleitorado. A esquerda dirá que os verdadeiros perdedores são os  assalariados americanos e acessoriamente o Presidente Obama, do qual a esquerda está convencida de que a sua estratégia de compromissos efectuados com a oposição o levará  a uma derrota certa aquando do voto presidencial, daqui a quinze meses.

Mas é do lado do Tea Party, que mostrou toda a  sua capacidade em conseguir politicamente  a sua ordem de trabalhos desde o início do debate sobre a dívida, que se espera  que o acordo se defronte  com   maiores dificuldades, incluindo de veleidades de obstrução. No entender dos partidários do movimento, o acordo  não é não somente nefasto quanto aos cortes nas despesas públicas que  permanecem  muito distantes das suas ambições -,mas também pelo facto de que o compromisso passado com a Casa Branca, na perspectiva da eleição presidencial, priva os republicanos do argumento eficaz de um “Obama gastador” a dilapidar  os fundos públicos.

 

Quantos de  entre eles seguirão  Michelle Bachman, candidata à designação republicana para as eleições à Presidência  de Novembro de 2012, que anunciou o seu empenho  irredutível  a votar contra qualquer aumento do tecto da dívida? Certos comentadores julgam que John Boehner, o presidente da Câmara e homem forte do seu partido, joga a sua sobrevivência política com a sua capacidade de convencer a sua fracção Tea Party em aderir às suas posições . Tacticamente, o Presidente  Obama pode hoje esperar um pouco mais,  em  sair beneficiário de futuras divisões dos republicanos na perspectiva da sua reeleição.

 

 


[1] A economia global e a crise da dívida soberana na União Europeia: a situação de Portugal e Espanha

Júlio Mota, Luís Lopes, Margarida Antunes, Indicadores Econômicos FEE, Vol. 38, No 2 (2010)

 

 

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