No dia internacional da juventude – Giovinezza, giovinezza, primavera di bellezza – por Carlos Loures

 

 

Há entre os jovens a ideia de que os velhos estão caducos e ultrapassados. Entre os velhos abundam os aforismos sobre a inépcia dos jovens. Como sempre que se generaliza, erra-se – nem sempre a juventude é impetuosa e ardente, nem a velhice é sempre iluminada. Um estúpido é um estúpido, tenha a idade que tiver. «Nos olhos do jovem arde a chama, nos olhos do velho brilha a luz», disse Victor Hugo. É um lugar-comum o atribuir-se essa chama ardente à juventude e a luz da sabedoria à velhice. Blaise Pascal reconheceu que «quando somos jovens ajuizamos mal as coisas e quando somos velhos também.» e Ambrose Gwinett Bierce, um jornalista americano, afirmou que «se chama experiência a quando renunciamos aos erros da juventude  substituindo-os pelos da velhice».

 

«A juventude é uma coisa maravilhosa», disse Bernard Shaw, o escritor irlandês, Nobel de 1925, acrescentando cinicamente, «só é pena ser desperdiçada nos jovens». Herbert Asquith, um político britânico,  disse-o mais prosaicamente: «A juventude seria uma idade ideal se chegasse numa fase mais tardia da vida».

 

 

 

 

Paul Nizan, o escritor e filósofo francês, em «Aden Arabie» punha a questão em termos mais introspectivos – «Eu tinha vinte anos. Não deixarei ninguém dizer que é a mais bela idade da vida». Nizan, mesmo aos velhos, que em sonhos regressam todos os dias à sua juventude, idealizando-a já que não a conseguem reviver, recorda-lhes a terrível angústia dos vinte anos  paisagem nebulosa, onde se esfumam as convicções da criança e a experiência do adulto é quase nenhuma. Abre-se uma porta para o desconhecido. A isto junta-se a revolta por nada ser como o desejaríamos, num mundo dominado pelos velhos (os que têm mais de trinta anos). Justificando o pessimismo de Nizan, veja-se o número de jovens que, por volta dos vinte anos, se suicidam.

 

Mussolini foi, na história recente, um dos primeiros a aperceber-se do enorme potencial de energia gratuita que a juventude, no seu conjunto, contém. Não é por acaso que o hino fascista se chamava «Giovinezza» (juventude), dizendo no seu saltitante estribilho: «Giovinezza, giovinezza,/Primavera di bellezza…» A Opera Nazionale Balilla, arregimentando os jovens e enquadrando-os politicamente, foi uma das forças primordiais do regime. Os bandos de adolescentes de camisa negra, empunhando matracas, aterrorizavam, batiam, matavam. Entravam num café e quem, por exemplo, não fizesse de imediato a saudação fascista era espancado e por vezes os rapazes só paravam quando o «infractor» estava desfeito, morto. É que os jovens têm certezas e dificilmente aceitam que se possa pôr em dúvida as suas convicções. Por isso eu falei em canalização positiva ou negativa do ardor e da energia juvenis.

 

Hitler, com as suas «hitlerjugend» seguiu as pisadas do ditador italiano no aproveitamento da juventude. Não poucos foram os pais denunciados pelos filhos que punham o ideal e o führer acima da família, como lhes era ensinado. Franco, não se fez rogado e criou as suas «juventudes», os jovens camisas azuis, dispostos a abdicar da vida e do amor em prol da «causa» – «Cara al sol com la camisa nueva,/que tú en rojo bordaste ayer /me hallará la muerte si me lleva/y no te volvo a ver…» Em Portugal, Salazar, tentando fugir dos arroubos fascistas (mais do que fascista, era salazarista), não resistiu à pressão dos entusiastas e criou a Mocidade Portuguesa: «Lá vamos que o sonho é lindo,/Torres e torres erguendo,/Clarões, clareiras abrindo/Alva de  luz imortal…»

 

Os movimentos comunistas não perderam também essa energia. Na União Soviética, na China Popular, na Jugoslávia de Tito, na Cuba de Fidel, não se desperdiçou esse caudal de força, esse pilar, como lhe chamou o Che.

 

Usa-se muito nos partidos políticos o lugar comum – «a juventude é o futuro», como se isso fosse uma coisa importante. Porque o que é importante é saber que futuro vai haver, em que mundo os jovens vão viver amanhã., em suma, que futuro lhes vamos legar. O futuro não é necessária nem garantidamente melhor do que o presente. Joseph Joubert alimentou também o mito com uma frase célebre: «Nos homens apenas há de bom os seus jovens sentimentos e os seus velhos sentimentos». Benjamin Disraeli, um primeiro – ministro da rainha Vitória considerou «A juventude de uma nação é a depositária da posteridade». Bonitas palavras para nada dizerem.

 

Há também os que afirmam, como Samuel Ullman, que «a juventude não é uma época da vida, é um estado espírito». Claro que, sob diversas variantes, esta frase é extremamente agradável aos que já não são jovens. O grande arquitecto norte-americano Frank Lloyd Wright disse o mesmo por outras palavras – «A juventude é uma qualidade e não uma questão de circunstância». Na realidade, há velhos com espírito jovem (veja-se Manoel de Oliveira). Pablo Picasso dizia mesmo: «Precisamos de muito tempo para nos tornarmos jovens». Não que seja mentira, mas estamos, neste caso, não a falar de idades, mas de graus de inteligência, de vivacidade, de entusiasmo. Que, claro, não são sentimentos exclusivos dos jovens.

 

 

O surrealista Jean-Louis Bédouin, no seu livro «André Breton» (1955), rebela-se contra os «conselhos» que os mais velhos se acham no direito de ministrar aos jovens: «Porque se existe algo que, para nós, incarne o surrealismo é a juventude; a juventude que não sabe o que fazer com os conselhos dos velhos, os infames velhos que, não contentes em nos terem legado a memória de duas guerras, um mundo corrompido e a ameaça de uma terceira matança, levam a impudência ao ponto de nos querer ensinar quem vive e quem morre…»

 

«Se pudesse voltar à juventude, cometeria todos os erros que cometi. Só que os cometeria mais cedo», disse Tallulah  Bankhead, a actriz americana dos anos 40 do século passado, num registo bem-humorado e lúcido. De facto, aos velhos nada de melhor resta do que reconciliarem-se com o seu «eu» de décadas atrás e aos jovens, se me estivessem a ler, recomendaria prudência. Porque, como também disse Francis Bacon, «os desatinos da juventude são conspirações contra a velhice e pagam-se caro ao anoitecer as loucuras praticadas pela manhã». «A Antiguidade do tempo é a juventude do mundo», disse Francis Bacon, político e filósofo inglês do século XVII. E com este pensamento, respeitável, poético e profundo, encerro esta feérica girândola de citações sobre o tema da juventude.

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