A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 7- Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Continuação) 

 

5) A crise da Europa e os países mediterrânicos.

 

A crise actual  das finanças públicas da Europa não  está limitada à sua  periferia, nomeadamente mediterrânica, com a Grécia, Portugal e a Espanha.

 

Esta refere-se também a países que fazem parte “do centro histórico” da União e que assinaram  outrora o tratado de Roma: a Itália, a Bélgica, a França, cujas finanças públicas também não são nada  brilhantes. Assim toda a Europa Mediterrânica aparece como estando em muito má situação  apesar do que dizem “os euro-optimistas” impenitentes! A própria Alemanha, o mais sólido bastião que se conhece  da zona euro, está  fortemente endividada; é certo,  o seu comércio externo é excedentário , mas este excedente é essencialmente criado com a eurozona: regista, como muitos outros países, défices comerciais com a China!

 

a) Com o alargamento da União, tinha-se  feito  um belo  sonho

 

Quando a Espanha e Portugal entraram na União Europeia, eram numerosos os que pensavam que estes dois países, com os seus baixos salários, se  iriam tornar  os centros  de desenvolvimento industrial para a Europa. Não foi infelizmente o esquema que foi seguido; do mesmo modo, não foi o esquema seguido pelos países da Europa Central e Oriental que em seguida entraram  na União: apesar de investimentos directos provenientes dos países da União, estes países conheceram, eles também, uma baixa sensível do nível das suas actividades industriais. Insidiosamente, a deslocação das actividades de produção para a China  – resultado dos custos salariais extremamente baixos e das  taxas de câmbio administradas pela China – iniciava-se  e produzia  os seus efeitos.

 

Tinha sonhado-se para estes países um desenvolvimento análogo ao  que tinha  prevalecido no México, país que se tinha  tornado durante um certo  tempo “a fábrica” dos Estados Unidos, com os seus custos salariais nove vezes inferiores aos do grande vizinho do norte. Com a entrada da China na OMC em 2001, suprimiram-se  os meios de defesa dos países que estavam já nesta organização,  e isto significou o toque de finados para este mesmo belo  sonho. 

 

Em 2006, o responsável de uma grande multinacional presente sobre todos os continentes confiava à Antoine Brunet  que o custo horário de um trabalhador especializado chinês era de 80 vezes inferior ao de um trabalhador americano, para unidades de produção que utilizam  as mesmas tecnologias; a relação dos custos salariais entre o México  e os Estados Unidos estava, por seu lado,  na proporção de 1 para  9: doravante, as mesmas razões que tinham  levado  à deslocalização das produções, que tinha levado à sua deslocação dos Estados Unidos  para o México, ia agora  determinar que estas produções iam deixar o México, iam  para a China.

 

(Continua)

 

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