EPOPEIA DOS ARGONAUTAS, de Apolónio de Rodes – por Manuel Simões

A obra de Apolónio de Rodes é conhecida a partir de diversos títulos: “A lenda dos Argonautas”, “A viagem dos Argonautas” ou, como prefere a ilustre estudiosa Maria Helena da Rocha Pereira, a “Epopeia dos Argonautas”. Desta obra se dá aqui breve notícia, com a intenção de recordar o arquétipo da viagem que ora estamos a empreender.

Quem foi Apolónio?

As notícias sobre a vida da Apolónio são escassas e, por vezes, contraditórias, com poucos dados considerados

seguros: o seu nascimento no Egipto, talvez em Alexandria, nos primeiros anos do séc. III AC.; o exílio em Rodes, mas não se sabe se voluntário ou forçado: a tradição explica-o pelo insucesso de uma primeira leitura da “Argonautika” mas outras fontes referem o regresso triunfal de Rodes a Alexandria, obtendo até a direcção da famosa biblioteca. Julga-se que, para além de poeta, Apolónio se tenha exercitado como filólogo e, sendo assim, ter-se-á debruçado seguramente sobre os textos de Homero, participando no debate que suscitaram na época. De resto, na sua obra Apolónio reutiliza a linguagem homérica mas tal circunstância deve entender-se como autónoma função expressiva do texto “moderno”.

A transformação da epopeia «De ti seja o início, Febo, para que eu recorde a gesta / dos heróis antigos que…/ guiaram Argos, a sólida nave, ao velocino de ouro» (I, 1-4). Assim começa solenemente o poema de Apolónio e o proémio produz de imediato a enunciação do tema: de forma concisa alude à viagem de Jasão, à sua causa, ao meio utilizado.

Tendo reconhecido em Jasão a ameaça ao seu poder, Pélias encarregou o herói de empresa perigosa: recuperar o tosão de ouro do mágico carneiro que tinha sido sacrificado a Zeus, trazendo-o da Cólquida, no extremo Leste, próximo de Ponto, actual Mar Negro, para a Grécia. O projecto, como se vê, não pertence aos Argonautas, é-lhes imposto pelo rei da Tessália («Manda-me um deus e o feroz comando de um rei soberbo», III,390). Na perspectiva omnisciente do narrador, a vontade de Pélias é conotada por subtil ironia, porque a sua ruína será causada precisamente como consequência da viagem de Jasão: matá-lo-á Medeia, cumprindo a vingança de Hera, que o rei tinha transcurado nos sacrifícios (segundo um antigo motivo folclórico).

Ao contrário da “Odisseia”, com o herói longe da sua pátria, percorrendo as difíceis etapas até reencontrá-la, no poema de Apolónio a viagem é circular, porque o grande ideal que a justifica, na consciência dos argonautas, é o do regresso. Por outro lado, à virtude bélica tradicional, Jasão contrapõe um outro valor: a retórica, instrumento capaz de encontrar mediações e de evitar, mais do que resolver, os diversos conflitos. Na empresa de apoderar-se do tosão de ouro, Jasão é ajudado por Medeia; e quando os dois celebram as bodas apressadas e constrangidas pela presença hostil dos Cólquidos, vivem uma situação emblemática e ontologicamente reflexiva: «Nós, estirpe infeliz dos homens, não podemos entrar / na alegria com pé seguro; sempre a dor amarga/ se instaura no meio dos momentos do nosso prazer» (IV, 1165-1167).

Por isso, na sua complexidade e expansão textual (quatro “livros”, 5 836 versos), no modo de compor as figuras, Jasão representa a criação de um poeta com uma visão do homem e do mundo seguramente pessimista mas, ao mesmo tempo, seguindo uma posição laica da causalidade épica: um desejo de interpenetração entre o mundo nostálgico dos heróis e o mundo contemporâneo dos estudiosos, formando um conjunto coerente de todos os dados do real e da tradição literária. Assistimos, sem dúvida, à transformação da epopeia, esvaziando-a do conteúdo habitual para lhe inserir material novo, uma vida nova.

 

Manuel Simões nasceu em Jamprestes (Ferreira do Zêzere) em 1933.

Poeta, crítico literário, ensaísta e professor universitário,é licenciado em  Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Línguas e Literaturas Estrangeiras pela Universidade de Veneza. Viveu em Itália desde 1971 até se jubilar, ensinando Língua e Literatura Portuguesa na Universidade “Cà Foscari,” de Veneza. Foi, em 1966, um dos fundadores da colecção «Nova Realidade» (Tomar). É, desde 1977, colaborador da revista «Colóquio/Letras» e pertence à redacção da revista «Rassegna Iberistica» (Veneza). Entre 1967 e 1969, integrou a redacção da revista «Vértice» (Coimbra). Actualmente é colaborador da revista «Nova Síntese»

A sua obra poética é composta por seis colectâneas: Crónica Breve(1973), Crónica Segunda (1976), Canto Mediterrâneo (1987), Serenínsula (versão italiana, 1987), Errâncias (1998), Micromundos (2005). No campo do ensaio, os seus livros mais destacados são: García Lorca e Manuel da Fonseca. Dois poetas em confronto (1979), Guilherme d’Azevedo, A Alma nova (1981), O Olhar Suspeitoso(2001). Recentemente publicou Tempo como Espectador – Ensaios de Literatura Portuguesa (2011)

Dirigiu e co-dirigiu numerosas antologias temáticas e coordenou, organizou e prefaciou diversas obras. Traduziu poetas italianos como Pasolini, Eugenio Montale, Tiziano Rossi e Salvatore Quasímodo.

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