Tempos de crise, tempos de revolta contra os silêncios instalados: um rápido olhar sobre o capitalismo moderno, por Júlio Marques Mota

Assiste-se à evolução da  crise na Europa que claramente como se tem vindo a mostrar vai de mal a pior. Veja-se só o texto de Eurointelligence de anteontem ou o de ontem ou até o de hoje, publicado por A viagem dos argonautas  onde até o Banco Central de Itália já se queixa que não pode suportar estes spreads sobre a dívida soberana, veja-se, por exemplo, os spreads relativamente aos títulos alemães, sejam eles os  de Portugal, sejam eles os  da Irlanda, sejam eles os da Grécia, sejam mesmo os da vizinha Espanha, para não falar de outros textos dos mesmos briefings.

 

Em comentários de entrada   aos textos por nós apresentados temos colocado textas de introdução  que nada têm de elogioso quer para o conjunto  de políticos que presidem aos destinos de cada um dos países da zona euro,  quer ainda para  os altos funcionários que presidem às Instituições Europeias, como Durão Barroso e a sua equipa de Comissários, como seja ainda  o Presidente do Conselho Europeu Herman von Rompuy,  ou Jean-Claude Juncker, presidente da zona do eurogrupo e político importante num país que é um importante paraíso fiscal dentro da própria zona euro, o Luxemburgo.

 

Assiste-se a um terrível espectáculo na Europa em que tudo parece vergado á ditadura das circunstâncias, e estas circunstâncias valem o que valem os humores de mercado. Terríveis circunstâncias quando os desempregados em cada grande país se contam pela casa dos vários milhões. Sobre esta matéria vejam-se números da Europa, números de agora:

 

Eurostat estimates that 22.711 million men and women in the EU27, of whom 15.757 million were in the euro area, were unemployed in July 2011. Compared with June 2011, the number of persons unemployed increased by 18 000 in the  EU27 and by 61 000 in the  euro area. Compared with July 2010, unemployment decreased by 451 000 in the EU27 and by 247 000 in the euro area.

 

In July 2011, 5.115 million young persons (under-25s) were unemployed in the EU27, of which 3.143 million in the euro area. Compared with July 2010, youth unemployment decreased by 173 000 in the EU27 and by 111 000 in the euro area. In July 2011, the youth unemployment rate was 20.7% in the EU27 and 20.5% in the euro area. In July 2010 it was 20.9% in both zones.

The lowest rates were observed in the Netherlands (7.5%), Austria (7.8%) and Germany  (9.5%), and the highest in Spain (46.2%), Greece (38.5% in the first quarter of 2011), Lithuania (33.1% in the second quarter of 2011) and Slovakia (32.9%).

 

Assiste-se assim a um aprofundamento da  crise da economia real: os milhões de desempregados que ontem, hoje, amanhã , não encontram perspectivas  de futuro, aí estão a mostrá-lo e quanto a isso só ouvem falar em políticas de austeridade, seja em Portugal, seja em Espanha, seja onde for, algures nesta Europa que se quer União  Europeia mas que tudo deixa fazer para se poder garantir amanhã a sua própria desUnião.

 

E os políticos, o que têm andado a fazer, como é que à crise têm andado a responder? Com estas políticas de austeridade têm andando  ocupados a fazer com que os  pobres andem a  dançar o tango da pobreza, com a diferença de que a música  e a letra são estabelecidas pelos ricos, pelos agentes que directa ou indirectamente são determinantes nos mercados financeiros. Que se mudem os dançarinos e os músicos, nada se altera, que se mudem os políticos e fica tudo na mesma, como no Leopardo, de Lampedusa .

Veja-se a situação  em Portugal, entre Passos Coelho e Sócrates: ao povo português foi-lhe dada apenas a possibilidade de escolher quem iria cumprir um programa que lhe era completamente estranho e ditado por fora, ditado pela Troika. Simulacro de democracia, é claro, mas é este o universo dos neoliberais, universo que todos nós temos admitido e muitos dos que hoje são as  suas vítimas directas até têm defendido. A escolha de governantes e de projectos, a escolha dos seus caminhos de futuro  são características e propriedades da democracia, mas são estas   escolhas que agora passam verdadeiramente a ser, de facto,  proibidas. Entre Passos Coelho e Sócrates, a diferença? Nenhuma. Entre Brown e Cameron, ou entre Cameron e ED Miliband? Nenhuma, face à subordinação aos mercados, pequenas diferenças que se possam registar  serão apenas imperfeições de cosmética. Entre Zapatero e Rajoy? Nenhuma. Diferença entre Sarkozy e François Hollande? Talvez também nenhuma, para além da cosmética! No caso português a questão é demasiado evidente para merecer mais detalhes. Não poderia haver nenhuma, pois o programa político foi previamente imposto. Entre Zapatero e e Rajoy ou entre Rajoy e Rubalcaba qual  a escolha, qual a diferença?  Dúvidas nesta pergunta?  Veja-se o espectáculo degradante que se passa em Espanha à volta de uma revisão constitucional que se quer feita à pressa para satisfazer os mercados! Que espectáculo este! Mas sobre esta questão voltaremos a ela. 

 

Temos sido muito duros para com as Instituições Europeias e com os seus dirigentes que reputamos de altos e médios funcionários mais ao serviço de quem no mercado comanda e das grandes fortunas que destes mercados vivem, dada a forma como a crise na Europa tem sido gerida em que, passo a passo, os mercados vão subjugando um a um dos Estados-membros, deixando que a especulação sobre a dívida soberana, uma  a uma, país a país,   ponha claramente a construção europeia em perigo.  Por cada país a crise  aí alcançada  pelos verdadeiros adversários do mercado, os financeiros nos próprios mercados, é mais um degrau na escalada da destruição brutal a que se quer submeter a Europa.  A   incapacidade de reagir aos mercados é de tal forma aterradora que levou já alguns analistas com um certo humor  negro  a questionarem-se se não seria uma questão de  maldade ou incompetência ou de ignorância quanto à forma  como funciona a economia que está por detráz de tudo isto.

 

O leitor de A Viagem dos Argonautas dirá que estou a exagerar quanto a humores quanto a rumores dos mercados, quanto a incompetência. Um simples exemplo: num número do Le Monde de Agosto e numa série de ficção política sobre acontecimentos  situados em 2012  , um jornalista,  a um dos números da série deu   o título  sugestivo de  O regulador de olhos vendados  e nesse número referia-se a um eventual ataque  à  Societé Générale, a tal de Kriviel,  onde se perdeu 5 milhares de milhões só em especulação sobre mercados derivados , e esse ataque em 2012 seria organizado por um banco americano. De férias cito de cor, mas não devo estar muito afastado da realidade em questão. Pois bem, apesar de bem identificado o artigo como ficção política a referir-se a acontecimentos de 2012, sublinhe-se ainda, este artigo na passagem para outros línguas ou para outros blogs na sua maioria de profissionais, entre os quais de gente de Bloomberg   deu aso que se desencadeasse uma feroz especulação sobre este mesmo banco e dada a sua importância essa especulação a descoberto estendeu-se a outros bancos e a consequência foi temporariamente suspender a autorização de vendas a descoberto sobre instituições financeiras.

Mas o que são  as vendas a descoberto?

Imagine-se  que eu admito que os títulos  da Société Générale vão descer. Que faço eu como especulador? Nesta qualidade de especulador de  alguém que considera ver mais para além do que os outros vêem,  considero-me então mais esperto que os outros! Vendo a descoberto os títulos que não tenho e o mais possível, por exemplo a 1000 euros. Como? No mercado o próprio corretor  onde se processa  a   venda a descoberto arranja-me um operador que me empresta  parte esses mesmos títulos, um fundo de pensões por exemplo, a uma pequeníssima taxa de encargo,  que neste mesmo operador eu deposito como colateral, como garantia, da  entrega a ser feita  posteriormente na data de concretização da venda ao referido comprador que eu nem sei nem saberei sequer quem é. O volume é  enorme,  o rumor circula, outros farão o mesmo, o título começa a descer dada a oferta,  ao descer  eu compro agora mais barato,  por exemplo, compro agora a 960 e entrego os títulos ao corretor. Ganho quarenta euros por cada título, com um capital vizinho de zero. Pois bem, foi assim que em Agosto a França esteve   sujeita a este vendaval  e a   decisão tomada por vários países foi a de proibição temporária de permissão de especulação a descoberto sobre títulos que se não têm e que não se querem também, para “ to  restrict the benefits that can be achieved by spreading false rumours”, como o afirmaram os reguladores. Os países  foram a França, Bélgica, Itália e Espanha. 

Por curiosidade, o regulador citado na ficção política do Le Monde, como o regulador que nada via via, o regulador de olhos vendados, Jean-Pierre Jouyet, actual Presidente da Autoridade para os Mercados Financeiros, AMF, o regulador dos mercados de França, face ao se passou afirmou , a justificar a decisão deste mês de Agosto de 2011 (não de 2012 da ficção) : “They [investors] wanted to test French resistance. This is our response – as
always very determined – and it will be so for all those who want to put us to the test.” Simplesmente anedótico, rumores transformados em temores, temores transformados em tremores, tremores transformados pela dinâmica destes mercados em tumores, e a França poderia assim caír mais uns degraus na políotica de austeridade. A especulação a descoberto  em tempos de crise em tempos de convulsão, a prova declarada da incompetência dos nossos reguladores que continuam a ter na alma, se alma têm, a ideia que os mercados são perfeitos ou de que não há nada melhor do que os mercados desregulados, que se trata  de uma questão meramente pontual, daí que a proibição tenha ela também , uma duração de muito curto prazo. 

 

E de tudo isto, uma ficção política sobre acontecimentos de 2012, um artigo, a especulação  a desencadear-se, o triplo A, de França,  o triplo Zero dos seus políticos, na baila e com a leitura de um texto francês por um inglês da Bloomberg  desencadeiam-se políticas de austeridade para defender esses dois triplos, o dos As e dos zeros, enquanto que não há nestas operações um cêntimo de riqueza criada. Apenas transferência de valores e  com recursos nacionais que poderiam ser utilizados produtivamente. A Europa  de hoje nem aprende com a Alemanha   do final do século XIX que proibiu a venda de produtos financeiros para entrega deferida como se dizia então, a especulação a descoberto de hoje, ou com Roosevelt e a regra do up-tick concebida, penso, pelo pai Kennedy.  Não aprenderam nada, os nossos dirigentes  comportam-se como zombies, lamento pensar assim, cansados talvez da dança que os grandes operadores de mercados lhes têm imposto fazerem dançar, dança a dois, ou a solo mas de modo alternado: ora um partido ora outro, ou então pelos dois líderes em conjunto.

 

(Continua)

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