Jaime – “ Talvez abusivo expô-lo ?” – por Clara Castilho

 


 

Jaime foi um camponês beirão internado desde os 38 anos no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda. Só aos 65 anos começou a escrever e a pintar, com esferográficas. Parte da sua vasta obra desapareceu, mas o pouco que ficou veio a ser revelado como  um universo de grande beleza e intensidade, graças aos cuidados de António Reis, influenciado por sua mulher Margarida Cordeiro, psiquiatra. Ao observarmos as suas obras é como se atravessássemos toda a arte milenar, das grutas pré-históricas aos perfis suméricos, mas também expressões artísticas mais próximas no tempo, como a arte bruta, o expressionismo, o fauvismo.

 

Jaime escrevia inúmeras cartas, quase ilegíveis e densamente

preenchidas, queinsistia em enviar assiduamente para sua casa.

 

António Reis, que realizou um filme sobre este homem (1974), conta que Jaime nunca conservou os trabalhos. Normalmente, pedia o material emprestado e depois oferecia os trabalhos. Mas foi possível recolher algumas dezenas de desenhos e pinturas e muitas cartas. O realizador considerou que ele tinha perfeita noção do espaço a ocupar pelo desenho ou pintura. Como estava limitado pelas pequenas dimensões do papel, – folhas de cadernos –  muitas das suas figuras-homens têm braços caídos ou levantados, enquanto as figuras-animais têm a cauda caída.

 

Esta delimitação do papel levou-o a ter que encontrar soluções plásticas, que o realizador considerou de geniais. Vê nas suas criações uma saúde e vitalidade extraordinárias.

 

As cores utilizadas por Jaime, o vermelho, pensa que não têm uma intenção passional e o preto não é sinónimo de luto.   Na sinopse do filme vem referido: “Jaime, doente psiquiátrico, busca, no seu labirinto interior e no exterior que o rodeia, a harmonia que lhe escapou: o sentido das origens, as imagens do seu passado distante, as presenças de um universo ausente, o das terras de Barco, da Beira Baixa

que cedo a cidade lhe roubou.  Busca isso nos desenhos que desenha, nas pinturas que pinta. E assim descobre, na força dos traços e no enigma das cores, aquilo a que teve de renunciar: ele próprio, num lugar que deixou de existir. Existir e não existir, real e imaginário são formas de ser que só pela imagem ele consegue fazer viver. Homem sombra no meio das sombras, flamejando: perfis, cores, gritos. A clausura total dentro do espelho.”


 
Em 1980, as obras de Jaime Fernandes foram expostas na Fundação Calouste Gulbenkian. No catálogo da

 

 

 

exposição, o psicanalista João dos Santos escrevia: “Não é uma exposição de desenhos…é  Jaime e o seu mundo visionado através das teias que o delimitam. .. Segundo os seus escritos “oito vezes morreu já Jaime” e como oito vezes renasceram nele fantasmas cativos desde a eternidade…. É através da descoberta do instrumento traçante que Jaime se revela a si próprio, tal como na história o homem se revelou a si próprio um mundo interior que projectou desenhando nas paredes das cavernas…. Jaime descobre que possuiu um mundo interior de liberdade, de liberdade que porventura outros lhe tiraram, e exterioriza o seu saber dehomem solitário…. As emoções sentem-se, os sentimentos vivem-se; os gestos explicitam o que dentro de nós se passa; o traço perpetua o que venciamos no limite do que condescendemos em mostrar….

 

A obra de Jaime é auto-retrato, ela exprime o que fizeram dele o seu mundo infantil e a sociedade dos homens e o que ele própriofez de tudo isso. … É talvez abusivo expor Jaime… observem-no e admirem-no no recolhimento da vossa fantasia criativa”. (Ensaios de Educação II, Lisboa, 1983).. das teias que o delimitam.

 

 

 

 

Clara Castilho– Filha de Lisboa, mas com experiências dos primeiros campos de trabalho para adolescentes, das canções de protesto, do pisar das uvas nas vindimas. Ainda viveu os tempos da repressão – ambiente difícil de explicar aos mais novos! – e a euforia da Revolução do 25 de Abril. Da intervenção à desilusão, dedica-se agora a “militâncias” mais cívicas, enquanto psicóloga clínica infantil, acreditando que uma presença no momento certo pode fazer toda a diferença na vida de outra pessoa (conceito de “tutor de resiliência” – Boris Cyrulnik).

 

É vice-presidente da direcção do Centro Doutor João dos Santos – Casa da Praia, vice-presidente da mesa da assembleia geral do Instituto de Apoio à Criança e directora do seu Boletim. Faz parte da Comissão Alargada da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Lisboa Ocidental, do Grupo da Área da Criança da Rede Social de Lisboa e de um Projecto de Educação Parental do Programa “Crianças e Jovens em Risco” da Fundação C. Gukbenkian. Como graça, o seu texto publicado, uma história ditada a sua mãe, foi aos 4 anos, na Revista “Os nossos Filhos”.

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