O Pato algemado – terror, humor, amor & etc – 2

 

O Pato algemado 

 

 

 

 

 Vamos fazer um filme?  (e acaba bem? )–  por Sérgio Madeira

 

 

Sabem o que é uma Moviola? Basicamente consiste num visor iluminado, em dois rolos e numa manivela. Acho que deixou de se usar. Mas servia para visionar filmes, fotograma a fotograma ou com movimento, se déssemos à manivela. O filme era introduzido, colocado sobre engrenagens e aí estava a Moviola pronta a funcionar. Podem ver no vídeo acima.

 

Para que servia? – já estava à espera dessa pergunta. Pois fiquem sabendo que a Moviola era essencial para fazer cinema – muitas obras primas passaram por Moviolas – digamos que era uma mesa de montagem – ia-se passando as bobinas – corta aqui, cola ali, intercala acolá… e assim se faziam filmes. Grandes filmes, em alguns casos. Vou falar dos finais felizes nos filmes e já veremos o que tem a Moviola a ver com isso.

 

Há quem prefira os finais felizes, os happy ending. Antigamente, quando alguém recomendava um filme, era raro não vir a pergunta – Acaba bem? E às vezes a resposta era: – Acaba mal, mas é muito bom. Acabar mal era um handicap – havia quem se recusasse a ver filmes que acabassem mal – “Para tragédia, chega a minha vida”, era comum ouvir-se.

 

A mim, os finais felizes sempre me fizeram desconfiar. Porque na realidade não existem, são uma invenção de Hollywood. Nada acaba bem na vida real, tudo acaba mal, porque não podemos usar a Moviola. Nas Moviolas (ou nas mesas de montagem), os finais felizes são trabalho de “tesoura”. Num dado momento da história que se está a contar, dá-se uma tesourada e obtém-se o tal final. É assim nos filmes.

 

Vou dar um pequeno exemplo com a história banal de um rapaz e de uma rapariga que se amam, João e Matilde, pode ser.

 

– Luzes! Câmara! Acção!

 

Vão casar em breve, estão muito felizes, abriram uma conta conjunta no Millenium, e andam a ver casas. Exterior estúdio – dia. Está tudo a correr muito bem, mas, Laura, a agente da imobiliária, que está a querer impingir um T1 na Brandoa (também pode ser na Rinchoa) engraça com o João.

 

Grande plano de Laura- estão num café em frente do andar e ela diz: João, você podia passar amanhã pelo meu escritório?  – Contre – plongée da parte inferior da mesa – toque da perna da vendedora na perna do rapaz Plano americano do rosto de João – expressão de totó, enlevado. Plano Próximo do rosto da futura ex-noiva – resignação.

 

Cena seguinte: Exterior natural – falésia – Boca do Inferno ou coisa assim.

 

Plano geral – Matilde, à beira da falésia lê uma carta – Plano Próximo . rosto da rapariga – lágrimas – voz de João em off -«Você me entenda, meu bem, o nosso amor não dá… Mas nunca esquecerei você… ». Plongée – a altura das falésias, logo seguido de contre-plongée – Matilde prepara o salto… – por certo se vai suicidar – Corta!

 

 Temos um drama, chocho, mas um drama. Olha, afinal não corta, continua. Panorâmica: Matilde desce os degraus e vai até à praia onde se conheceram.

 

Flashback – João, em calções de banho oferece um Olá de baunilha a Laura, também em fato de banho – João faz a sua habitual cara de parvo, o chamado sorriso alvar. Matilde, encolhe os ombros, tímida, e aceita o gelado. No rosto tem também aquele brilho baço que é costume as raparigas fazerem neste passo do ritual de acasalamento.

 

Do flashback passa-se ao tempo actual. João, reconsiderou e volta para Matilde. Laura não tinha  querido abdicar da comissão de 5% e João levou a mal e, por isso, vem ao encontro de Matilde. Correm sobre a areia um para o outro em câmara lenta (sabem como é, slow motion…) . Abraçam-se, beijam-se e o rapaz roda com a (novamente) noiva, nos braços – corta! Happy ending – venha o genérico! Acabou bem!

 

 -Isso é que era bom – grita o realizador – Happy end o tanas! Não corta nada!

 

João continua a rodar cada vez mais depressa, tropeça num calhau e larga a Matilde que vai malhar com a cabeça nuns rochedos – Grande plano – muito sangue – morreu – João chora – genérico . drama – mas não corta – vem a ambulância do INEM – desfibrilhador – Matilde é reanimada e cura-se. Beijo, genérico. Final feliz. E assim sucessivamente até que casam.

 

O carro afasta-se a arrastar tachos e latas de cerveja – genérico – Happy ending! Se continua, na A23, o João fatigado adormece ao volante, galga o separador central e vão embater num camião cisterna – explosão! Corta! Acabou mal? Não – o casal foi projectado pela explosão e acordam, cada um em cima da sua árvore, com leves escoriações e passarinhos a cantar em redor. Acabam por comprar um T3 nas Telheiras,,, happy ending… a Matilde, passados anos, envolve-se com Camilo, um vizinho,,, e assim sucessivamente.

 

Agora vejam outro este filme: Sócrates perdeu as eleições – corta! – final feliz, pois já ninguém podia aturar o seu optimismo totalmente desfasado da realidade trágica para que caminhávamos.

 

– não corta – o vencedor foi Passos Coelho – corta – drama – Passos Coelho é um sócrates pomposo e vazio, continua a conduzir-nos para o caos, esmifra-nos com impostos, faz-nos pagar uma crise que vem desde a Batalha de São Mamede, com um ar triste de quem está a cumprir um doloroso dever. É um dramalhão.

 

Estão a ver? O happy ending não existe é, como o pai Natal uma invenção dos ianques.

 

No mundo real, os camones largam bombas atómicas, desencadeiam guerras, destroem economias de países mais vulneráveis, mudam governos… – em suma, semeiam tragédias, finais infelizes l. Depois, virtualmente, é só felicidade: jingle bells, jingle bells… grandes beijos nos happy endings, lenços kleenex para as lágrimas quando acaba mal.  Tudo previsto.

 

Porque há quem goste de filmes que acabam mal. Há quem goste de sofer.

 

 

Neste filme, não há Moviola que possa valer.

 

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Aqui deixamos um Happy end diferente, uma curta-metragem realizada em 2007, pela CAFEU FILMES com realização de Cleiton Cafeu. Prémio de melhor guião no “III Festival Latino-Americano de Curta-metragem – Canoa Quebrada 2007. Participou em várias mostras e festivais, no Brasil e no exterior.

 

 

 

 

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