(Continuação)
UMA VOLTA AO MUNDO
Rondon salva dezenas de milhares de índios. Engasgo-me, não tenho que opinar, o entrevistado é ele.. E ele continua:
– A construção de linhas telegráficas foi o motivo primeiro para as entradas de Rondon pelos sertões brasileiros.
– E fez muitas expedições?
– Inúmeras! Em 1891 já tinha instalado 1574 quilómetros de linhas telegráficas. Acabará por instalar cerca de 7000…
– Estou a ver que é ele o pai das comunicações brasileiras.
– Também é! Mais importante é ter sido o Pai dos índios brasileiros.
– Expedições atrás de expedições, instalação de linhas telegráficas, pacificação e defesa dos direitos dos índios… Sempre a andar… Esse homem nunca parou? E amores, como foi?
– Em 1892, no Rio de Janeiro, Rondon casa com Chiquinha Xavier. Ainda no mesmo ano parte para Cuiabá com a esposa. Chiquinha virá a dar-lhe um filho e seis filhas. – Vigor genital!
– Cada qual tem o seu, mais não sei… Até 1898 Rondon é o responsável pela manutenção das linhas telegráficas de Mato Grosso. Em 1899 chefia a comissão que estende as linhas de Cuiabá a Corumbá, também para a Bolívia e o Paraguai. Em 1906 atravessa 250 léguas dos sertões do Noroeste de Mato Grosso e 300 léguas da floresta amazónica, para levar os fios desde Cuiabá ao Território do Acre, fechando assim o circuito telegráfico nacional. E, nessas andanças, sempre a pacificar e a integrar novas tribos, protegendo-as contra espoliadores e bugreiros.
– Um outro Ghandi…
– Sim, tem razão, ambos viveram na mesma época. Mas, distanciados por milhares de quilómetros, ignoravam-se um ao outro. E afinal tinham missão idêntica, viver para outrem, altruísmo. Um na América do Sul e o outro na Ásia. –
Mas o mais conhecido é o Ghandi.
– Porque sacudiu a Coroa Britânica. Rondou sacudiu apenas as consciências. Foi por isso. – Sim, o Ghandi teve enorme projecção política… – … enquanto o Rondon foi apenas explorador, humanista e cientista. – Cientista? Dessa não sabia eu…
– É o que eu dizia, são as neblinas do Curupira… Em cada expedição, Rondon levava, para além da tropa, duas equipas. Uma, a dos construtores das linhas telegráficas. Outra, a de cientistas: geólogos, botânicos, zoólogos, etnógrafos, linguistas. Geógrafo era o próprio Rondon que fez o levantamento de milhares de quilómetros lineares de terras e águas, determinou as coordenadas (longitude e latitude) de mais de 200 localidades, inscreveu no mapa do Brasil 12 rios até então desconhecidos e corrigiu erros grosseiros sobre o curso de outros tantos. Os outros cientistas das suas equipas recolheram mais de 3 mil artefactos indígenas, mais de 8 mil espécimes da flora, mais de 5 mil espécimes da fauna e um número infinito de amostras minerais. A maior contribuição de sempre para o Museu Nacional…
– Espantoso! Mas, diga-me uma coisa: se não estou em erro, foi no princípio do século, antes da Grande Guerra, que Marconi inventou a telegrafia sem fios. Isso não interferiu com o trabalho de Rondon?
– A nova tecnologia demorou a chegar ao Brasil. Por outro lado, a manutenção das linhas telegráficas passara a ser pretexto para se continuar a integração dos índios. Muitos destes eram empregados na própria manutenção das linhas “mediante retribuição mais justa do que as ilusórias vantagens que colhem ao serviço de particulares que os exploram desumanamente”. Quem o diz é o próprio Rondon. Eu acho que se a TSF tivesse sido inventada uns 30 anos antes, talvez Rondon não tivesse iniciado a sua cruzada humanitária em 1890. E, em consequência, talvez hoje já não existissem índios no Brasil, holocausto.
– Afinal, sempre há males que vêm por bem… Mas Você estava a contar a contribuição para o Museu Nacional…
– Conto-lhe outra: a pedido do governo brasileiro, em 1913 Rondon organiza a expedição do ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt ao Amazonas. Partem da fronteira com o Paraguai e, ao fim de dois anos, alcançam Belém do Pará. Rondon aproveita para inscrever no mapa do Brasil um rio com mais de mil quilómetros e até então de curso misterioso, chamavam-lhe o rio da Dúvida. Roosevelt é o novo nome que Rondon lhe dá. Durante a jornada várias vezes tem que se impor para que os americanos obedeçam às suas normas de aproximação aos índios.
– O que é que os americanos pretendiam? Tiroteio à far west? – Mais ou menos isso… Mais tarde Roosevelt acaba por reconhecer a justeza das posições de Rondon e declara: “A América pode apresentar ao mundo duas realizações ciclópicas: ao norte, o canal do Panamá; ao sul, o trabalho de Rondon – científico, prático, humanitário.” – Até que enfim, o reconhecimento internacional…
– Houve mais: em 1914 a Sociedade de Geografia de Nova Iorque concede a Rondon o Prémio Livingstone, por ser o explorador que mais se adentrara em terras tropicais. Em 1913, já o Congresso das Raças, reunido em Londres, aplaudira com entusiasmo a obra de Rondon, apontando-a como exemplo a ser seguido “para honra da civilização universal”. Diaí Nambikuára cala-se, balança a cabeça, cepticismo. Por fim resmunga: – Para honra da civilização universal… Letra morta… Duas guerras mundiais… E depois, olhe só o que está hoje acontecendo no Brasil, e em África, e na Ásia, e até na própria Europa… Letra morta, letra morta… Recompõe-se:
– Deixemos isso… Você quer saber mais a respeito do Rondon, não é? Em 1918 levanta a carta do Mato Grosso. O melhor é Você pegar num mapa do Brasil para entender tudo o que vou dizer agora. Em 1927, já como General de Divisão, começa a dirigir a inspecção de fronteiras. Avança para o Oiapoque, junto à fronteira com a Guiana Francesa. Passa ao Rio Branco, ao Mahu e ao Tucutu, para estudar a fronteira com a Guiana Inglesa. Sobe o rio Uraricoera para alcançar a fronteira com a Venezuela. Nova expedição em 1928: sobe o rio Cuminá até às suas nascentes, junto à Guiana Holandesa.
– Desculpe interrompê-lo outra vez. Ao fazerem travessias tão longas por florestas virgens, como é que eles se abasteciam de mantimentos?
– Menina: entrar na mata é mergulhar no verde. Nesgas de azul só lá no alto, de vez em quando por entre as copas. A passarada grasnando e piando, revoadas, araponga martelando seus ouvidos. À sua volta, a bicharada espreita, pula, salta, guincha, rosna, acaba por fugir, restolhada será cobra. O arvoredo inspira água, expira, transpira verde, pingando sempre. Depois os rios, igarapés. Você nadando por entre o verde, mesmo sobre a terra fofa. Pode assustar, mas a floresta dá tudo quanto um homem precisa: palmito, chá de douradinha, mel, açúcar de biriti, peixe e caça, lambaris, antas, pacas, tatus, jacus, mutuns, cobras e macacos. Os índios sabem disso, desde sempre. Rondon e os soldados têm de aprender, e aprendem, que remédio! Está entendendo?
– Sim, entendo, fico é arrepiada só de pensar nessa ementa… Dizia Você que Rondon chegou à fronteira com a Guiana Holandesa em 1928…
– E em 1929 sai do Rio de Janeiro rumo a Manaus pelo interior do país. Atravessa o Araguaia, o Tocantins e o Amazonas, o Cucuí e o Tabatinga, até Iquitos, no Peru. Depois segue para o Acre, percorre o Xapuri e alcança Boipedra e Cojiba. Passa ao Guaporé para inspeccionar a fronteira com a Bolívia. Mais tarde já está no Paraná e Santa Catarina. É quando rebenta a revolução de 1930 e ele interrompe a marcha.
– Que revolução foi essa?
– A revolução do Getúlio Vargas. Rondon não adere, a sua filosofia impede-o de pegar em armas contra irmãos. É quanto basta para começar a ser perseguido pelas novas autoridades. Para evitar o refluxo de más vontades sobre o Serviço de Protecção aos Índios, demite-se da sua direcção, voltas e contravoltas da política… Mas antes saiba que foi feito um cálculo dos caminhos palmilhados por Rondon. O seu auxiliar, Gen. Jaguaribe de Matos, estima que ele tenha percorrido o equivalente ao perímetro da Terra. Ou seja, mais ou menos 40 mil quilómetros. Dentro do Brasil, deu uma volta ao mundo (duplo sentido, se Você quiser). Rondon é o último dos grandes exploradores do nosso planeta.
– Sei de Amundsen, Peary, Charcot e Byrd. De Rondon, como explorador, nunca ouvira falar…
– Nem como explorador, nem como nada. Contudo o nome dele, em letras de ouro, está inscrito na Sociedade de Geografia de Nova Iorque, ao lado de todos esses que Você acaba de citar. É deveras extraordinário como um vulto destes, do universo de língua portuguesa, seja praticamente desconhecido em Portugal. Menina, essa vossa ignorância ou é complexo de superioridade de borra colonialista, ou então o Curupira está mesmo soprando as neblinas do Esquecimento…
(Continua)

