Apresentando Alberto Gallingani na Galeria Zeller – Adão Cruz

 

 

Alberto Gallingani

 

 

Não conhecia pessoalmente Alberto Gallingani. Estive hoje com ele. Um homem extremamente simpático. Conhecia apenas reproduções de algumas das suas obras. Portanto, a minha apresentação terá de ser superficial e não será a que ele merece.

 

Alberto Gallingani nasceu em Florença em 1938, cidade onde vive e trabalha. Durante a sua vida percorreu longos e cruzados caminhos que o levaram do realismo ao abstraccionismo, passando pela fotografia, pela escultura, pelo vídeo, pela performance.

 

Com vários outros pintores fundou em 1971 o estúdio artístico “Il Moro”, e em 1973 “O Ciclo da Geometria Utópica” trouxe-lhe um grande compromisso com os valores ideológicos das relações humanas. Descobriu “la Pittura di Nuova Realità”, abriu caminhos através de “Il Manifesto della Pittura de Nuova Realità” e “Il Manifesto della Morfologia Costrutiva”. A partir de 1981 a sua actividade artística estendeu-se ao resto da Europa. Desde então ele desenvolveu através de uma espécie de contaminação total da linguagem, da forma, dos materiais, do tempo e das situações um complexo trabalho que, sem dificuldade, se insere na realidade colectiva da arte contemporânea.

 

Não vou dissecar as obras de Gallingani, por um lado porque seria um trabalho muito difícil, e por outro lado porque sempre foi minha opinião que qualquer obra de arte não deve ser descodificada, ainda que parcialmente. A descodificação de uma obra de arte é sempre um fenómeno redutor que pode empobrecer a obra, pode silenciá-la e pode retirar-lhe toda a força geradora das capacidades interpretativas. Assim sendo vou referir-me a ela de uma forma global e abrangente.

 

Uma pintura não é só o que se vê, o que lá está, fixo e imutável. Não é, principalmente, o que se vê. Uma pintura é o que está para além dela, o que se vive e o que se sente ao contemplá-la. Ela existe para despertar em nós as mais variadas emoções e arrancar do nosso íntimo os mais diversos sentimentos, alguns hibernando há muito no fundo do nosso subconsciente.

 

Ao observar atentamente, durante dias, a complexa e intrincada pintura de Alberto Gallingani veio-me à memória um pintor ucraniano, Edward Belsky, vinte anos mais novo, cujas obras conheço há algum tempo e das quais sempre gostei muito. Entre os dois pintores há, com efeito, algo em comum, alguma similitude, o que deve ter influenciado o meu espírito. Na verdade, ao contemplar a pintura, em geral, de Gallingani, eu sou arrastado para sentimentos cujos padrões, muito provavelmente já existiam em mim e que estão próximos dos que me despertara a pintura de Belsky.

 

Desta forma, eu posso dizer que aquilo que me parece percorrer estas obras, na minha visão e interpretação pessoal, claro, é uma espécie de permanente contradição e contraste entre as duas formas de cultura que nos envolvem nesta sociedade em que vivemos, mais felizes ou menos felizes, mas de uma maneira geral tristes. De um lado, a verdadeira cultura, a cultura positiva, a cultura da construção, o sentimento cultural tão importante como o sangue, único caminho, a meu ver, para a estruturação da sociedade, para a integração social. Do outro lado, a falsa cultura, a cultura negativa, a cultura da desconstrução e da destruição, a anti-cultura e a contra-cultura da corrupção generalizada, do ter e do poder, do roubo e do assalto a tudo aquilo que é de todos numa sociedade pretensamente organizada e humanamente equilibrada.

 

A primeira, a cultura da civilização, da dignidade, da educação, da integridade e da inteligência é, como já disse, o único caminho para uma sã estruturação da sociedade, para a integração, coesão e solidariedade, o único caminho para o equilíbrio, a harmonia, a justiça, a liberdade, a felicidade e a alegria de viver. A segunda é, sem dúvida, a pseudo-cultura, a cultura da negação, a cultura da corrupção, da podridão, do salve-se quem puder, do suborno, do nepotismo, do compadrio, que leva à destruição, à desintegração e à indigência de sentir como felicidade suprema o deitar as unhas a uma lagosta, sentar o rabo num Ferrari ou num jacto privado, ou sentar-se num monte de notas cada vez mais alto, de onde se possa enxergar cada vez melhor a miséria do mundo.

 

Por isso a cultura é um inimigo a abater. E os governos, que são os governos dos grandes, falaciosamente apresentados como governos do povo, os governos daqueles a quem a cultura incomoda, sabem como fazê-lo, sabem como matar a cultura, não só através da progressiva redução e anulação dos caminhos que a ela conduzem e das programadas reduções orçamentais mas também através da massificação da vida, da estupidificação, dos obscurantismos de toda a ordem, religiosos ou não, e da globalização de ambiências que conduzem progressivamente às mais rudimentares formas de pensar e mesmo à irracionalidade. São exemplo as catedrais de lixo das grandes superfícies, os espectáculos de massas, televisivos, pseudo-desportivos e outros, cuja finalidade é o entretenimento superficial dos sentidos e a expressão e prevalência das mais básicas emoções do ser humano.

 

São estes, de uma forma global, os sentimentos que a pintura de Gallingani conseguiu reacender em mim, soprando algum lume que ainda não se havia apagado. Outros serão conduzidos a outro tipo de interpretações, emoções e sentimentos. É essa a função da arte, muito especialmente da pintura.

 

Obrigado amigo Wanzeller e parabéns por ter trazido até nós uma parte da obra deste grande artista. Parabéns Alberto pela tua vida e pela tua obra.

 

 

 

 

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