UM CAFÉ NA INTERNET – À tarde vou ver as gaivotas, por Eva Cruz

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

 

Eva Cruz  À tarde vou ver as gaivotas

 

 

A manhã é osso duro de roer.

 

A sala de espera é ampla, luminosa, lavada.

 

Através do vidro leitoso deixa o sol cair os seus braços generosamente sobre as plantas artificiais, verdes, como se fossem vivas.

 

Tudo é branco e cinzento da cor do gelo, o gelo que vive dentro de cada um, como se habitasse uma paisagem lunar ou uma nave espacial.

 

O ambiente é humanizado de palavras, gestos e sorrisos.

 

Voluntários de bata branca oferecem um cafezinho ou chá quente.

 

A espera é longa e são muitos a aguardar que uma voz sem rosto chame o seu nome.

 

A paisagem humana é estranha, caras pálidas, olheiras fundas, máscaras na boca, cabeças nuas, outras cobertas de lenços, chapéus ou bonés a compor o rosto, na tentativa de agarrar a beleza que a doença teima em roubar.

 

Doença que não escolhe idade.

 

Ao lado a garrafinha de água que de gole a gole se vai esvaziando.

 

Adivinha-se, lá fora, um sol brilhante e quente através do telhado de vidro.

 

E na praia as gaivotas à solta.

 

As manhãs repetem-se com o mesmo ritual que parece não ter fim.

 

À tarde vou ver as gaivotas, soltas e libertas.

 

Rente ao pôr-do-sol, sobrevoam a areia e o mar em voltas e reviravoltas.

 

São pedacinhos de papel preto e branco a cair do céu.

 

Por instinto, poisam na areia, uma a uma, todas viradas para o mesmo lado.

 

Não há nenhuma fora de linha.

 

A um sinal mágico voam em debandada.

 

Ao longe partem barcos e no ar um avião voa baixinho fazendo-se à terra.

 

A vida é feita de partidas e chegadas.

 

Amanhã as gaivotas hão-de voltar.

Leave a Reply