Depois de publicada a série Rumores, Tremores, Tumores, afirmamos que os visitantes, os leitores de aviagemdosargonautas.blogs.sapo.pt poderiam seguir a continuação da história nos comunicados da Standard and Poor’s, da Fitch, da Moody’s , da Autoridade dos Mercados Financeiros, (AMF), do Governo francês e assim sucessivamente. Na verdade, a realidade ultrapassou e de longe a nossa capacidade de imaginação, a nossa capacidade de dedução, talvez porque somos já velhos e essas capacidades vão-se queimando com a dureza dos tempos que correm e dos tempos que passam. Talvez seja assim.
Mas nessa sequência apelámos individualmente aos poderes instituídos para que no mínimo dos minímos proibissem as vendas a descoberto e garantissem a estabilidade aos mercados financeiros, actualmente a funcionarem numa vertiginosa espiral de loucura e de destruição. E aqui, de novo, nesta peça reencontramos as vendas a descoberto, a propósito da “enorme fraude” a que a UBS terá sido sujeita, como se anunciou ontem pela imprensa especializada. E sobre esse apelo aqui francamente o repito.
Mas de novo a realidade ultrapassa tudo o que poderíamos ter imaginado sobre estes mercados financeiros, sobre a sua arquitectura e funcionamento, sobre os produtos que aí continuam a ser negociados como se nenhum deles tivesse a ver com a crise que se continua a aprofundar, e nestes mercados financeiros, nos quais os políticos não mexem, não regulam, porque nestes e a estes mercados estão vendidos, porque destes mercados estão priosioneiros ou porque destes mercado são uns ignorantes e deles nada sabem, mas se nada sabem ou nada conseguem saber porque é que os autorizam, nestes mercados, dizíamos, as “bombas de destruição” maciças continuam diariamente a rebentar nas notícias dos jornais, dos telejornais e também nas nossas vidas, de hoje e de amanhã, também.
De ontem, destes mercados, veio mais um exemplo, a UBS deu por si a braços com uma “gigantesca fraude”, milhares de milhões que voaram pelas mãos de um trader, mais um… E isto quando num curto espaço de tempo três grandes bancos franceses mostram como nos mercados se derretem os valores: de Julho a Setembro a capitalização do BNP passou de 65,87 milhares de milhões para 31,58 milhares de milhões, tendo em 12 de Setembro perdido 12,35%, a capitalização da Société Générale passou de 32,93 milhares de milhões para 12,33 milhares de milhões, com uma descida de 10,75 a 12 de Setembro, enquanto a capitalização do Crédit Agricole desceu de 26,96 milhares de milhões para 12,19 milhares de milhões com uma descida em 12 de Setembro de 10,64%.
Estes são factos relacionados ainda com a nossa série de Rumores, Tremores, Tumores, que lhes é bem anterior, estes são os tais factos sobre os quais aconselhámos que continuassem a “ler “ a nossa crónica por outras vias. E elas, as outras vias, aí estão a mostrar o inferno, os altos fornos que são os mercados financeiros de hoje, onde as nossos sociedades estão a ser consumidas e com a responsabilidade dos nossos silêncios.
De hoje e como crónica falaremos apenas de UBS e da “gigantesca” fraude a que se diz sujeita e adicionalmente disponibilizamos hoje aos nossos visitantes, aos nossos leitores, o texto da OCDE sobre Paraísos Fiscais e aqui vos deixo a minha interrogação: porque é que não estão presos os políticos que estes paraísos permitiram criar, porque não estão presos aqueles que os produtos financeiros a partir daí geridos deixam nas nossas bolsas negociar e sobre os nossos bolsos andar a roubar, porque não estão presos todos os responsáveis políticos que esta realidade andam a legalizar, mesmo sob a caução da OCDE ? Daqui também uma sugestão deixo a Nogueira Leite, Presidente da Caixa Geral dos Depósitos e amigo do Presidente da República, daqui também uma sugestão a Braga de Macedo, ex-ministro do mesmo Presidente da República enquanto primeiro-ministro, que leiam este texto da OCDE que devem claramente desconhecer e, se assim não acontece, a todos eles os devemos acusar de desonestidade intelectual quando se branqueiam os paraísos fiscais, quando se quer passar uma esponja sob a responsabilidade dos principais agentes da crise actual . Que não digam, não sabemos, não conhecemos, até porque destes falsos ignorantes, não dos verdadeiros, estará o Inferno já bem cheio e não haverá no imaginário de cada um de nós nada pior, creio eu, do que pensar que nem no inferno se tem lugar.
E os autores deste verdadeiro saque a nivel nacional, a nivel internacional, que agora em nome da dívida, dos défices, da supostamente necessária austeridade imposta em simultãneo em Lisboa, em Madrid, em Atenas, em Dublin, em Roma, em Paris, se está a realizar à escala planetária, esses, estarão nessa situação certamente, se consciência disso fossem capazes de ganhar. Mas nem isso.
Coimbra, 16 de Setembro de 2011
Júlio Marques Mota
Texto de Les Echos
A fraude coloca à luz do dia os riscos ligados aos “ exchange traded funds”
MATHIEU ROSEMAIN, Les Echos
O trader que foi preso ao que parece estaria encarregado de negociar sobre os produtos chamados “trackers”, ou ETF, que são fundos cotados e cujo desenvolvimento preocupa os reguladores.
Um novo duro golpe que vai levar a que se defenda ainda mais uma redução do banco de investimento, [um banco demasiado grande para poder falir]
A acreditar no seu perfil sobre a rede profissional LinkedIn, Kweku Adoboli, o trader agora preso, não negociava um qualquer produto financeiro por conta da UBS. O trader preso ontem em Londres por ter levado a que a UBS tenha perdido cerca de 2 mil milhões de dólares parecia negociar, entre outras coisas, os produtos ETF. Estas três letras significam “exchange traded funds”, assim chamados de “trackers” pelos profissionais da finança.
Como o seu nome o indica, os ETF são veículos de investimento, da mesma forma que os OPCVM (sicav, FCP, etc.). [e por OPCVM entende-se Organismos de Aplicações Colectivas em Valores Mobiliários]. Com uma enorme diferença : são cotados continuamente em Bolsa, a exemplo das acções. Outra particularidade: o preço das partes de ETF baseia-se num índice de títulos ou de uma matéria prima, com os quais mexem com a evolução das cotações. Daí o termo, em francês, “de fundos cotados sobre índices”.
Surgidos nos anos 1990 nos Estados Unidos, os “trackers” fizeram o seu aparecimento na Europa há já uma dezena de anos. E o seu desenvolvimento, nos dois lados do Atlântico levou uma forte aceleração desde 2005. No final de Julho, havia já quase 2.900 para uma cotação total cerca de 1.445 mil milhões de dólares, de acordo com os dados de BlackRock, um dos maiores gerentes de activos mundiais – e grande “fabricante” de ETF, através do seu departamento iShares. Este sucesso explica-se em grande parte pela simplicidade do produto e pelo fraco custo que necessita a aquisição de partes “de trackers” para os investidores (institucionais ou particulares).
Opacidade na complexidade
Mas à força de crescer a um ritmo sustentado, os ETF preocupam hoje cada vez mais os reguladores. O Conselho de Estabilidade Financeira (CSB), encarregado pelo G20 de detectar os riscos de instabilidade na finança, publicou mesmo em Abril uma nota de cinco páginas a este respeito. O organismo aí sublinhava a opacidade e a complexidade crescentes de um novo tipo de ETF, ditos “sintéticos”, cuja composição assenta sobre os produtos derivados. Esta família de ETF vê o número dos seus membros aumentar de dia para dia, entre “ETF invertidos”, “ETF alavancados” e outro “trackers” de mecânica ainda mais subtil, o que não pode deixar de nos levar a lembrar de certos produtos estruturados do período que antecede a queda de Lehman Brothers…
Mas isto não é tudo. Como os ETF escapam ainda a um quadro regulamentar próprio, as suas características diferem de um “tracker” para outro. Nomeadamente no que diz respeito à gestão do risco de contrapartida e às regras que condicionam a utilização dos subjacentes detidos pelos ETF. Assim, nada proibe aos gerentes ETF de autorizarem o crédito e o empréstimo dos títulos que eles detêm, no âmbito, por exemplo, das vendas a descoberto. Sem estarmos a falar, sequer, do risco sistémico criado pelos ETF se o seu peso continua a aumentar, dado a sua natureza seguidista, de tipo carneiros de Panurgo… O que agravaria ainda mais os sobressaltos do mercado.
MATHIEU ROSEMAIN, La fraude remet en lumière les risques liés aux « exchange traded funds » Les Echos
