O Saudoso Tempo do Fascismo – 3 – por Hélder Costa

Grândola I (Leves memórias de infância e adolescência )

 

 

 

 

Grândola, Alentejo Litoral, pequena vila de passado corticeiro, com 15 000 almas nos melhores períodos de desenvolvimento.

 

 

Lembro-me do choque que senti quando li no meu livro de geografia do 3° ano (amigo regime), que o tal maior pré­dio do mundo, o Empire State Building em New-York, tinha cerca de 20 000 habi­tantes!

 

 

 

O grupo que jogava à bola, chegou à conclusão que éramos mesmo muito pequeninos, mas mesmo assim eramos um grande país como rezava a nossa canção do Canto Coral:

 

 

 

A Oeste da Europa

 

Bem juntinho ao Oceano

 

Fica o nosso Portugal

 

Querido torrão Lusitano

 

 

Em continente é pequeno

 

Nas colónias o terceiro

 

O mais valente na guerra

 

Na descoberra o primeiro

 

 

Dos valentes portugueses

 

Contemos a sua História

 

Aos mouros e castelhanos

 

 Alcançam sempre a vitória

 

Lalalalalalalalalalallala …

 

 

Em crianças, tínhamos o jogo da bola com as disputas Sport / Desportivo, e quan¬do jogávamos, os que tinham botas tinham de se descalçar porque a enorme maio¬ria andava de pé descalço e comia uma sopa na cantina.

 

 

Esta diferença de condições de vida e de oporrunidades sempre me incomodou, e das coisas que sempre recordarei fei a injustiça de os melhores alunos da instrução primária não poderem seguir estudos porque tinham que ir trabalhar “em qualquer coisa” ou ajudar .os pais na labuta do campo.

 

 

No colégio, os primeiros amigos para a vida; primeiros namoros ou piscadelas de olho … e a perseguição dos grandes mitos: as Italianas estavam na moda, Cláudia Cardinale, a Mónica Vitti, e havia a “princesa” Romy Schneider. .. , etc.

 

 

 

Grândola: Avenida Jorge Nunes (site da Câmara Municipal de Grândola)

 

 

É possível que as miúdas também nos comparassem com os “galãs” da época, mas a verdade é que nunca nos disseram nada. Gente tímida, como convinha. E por ali andávamos descobrindo os primeiros sentimentos o Honorato, o Luís Cabral, o Mendes, o Mário e o Fernando Assunção, o Libânio, os Zé Maneis Salgado e Espadinha, o Henrique, o Casalas, o Chaínho, o Licínio, e havia uns mais velhos pedagogicamente chegados à malta, o Abílio, o Fino, o Botas, e os puros Luís Espada, Pires, o Quim “Mau Tempo”, etc.

 

 

É dessa época em que imitávamos os ídolos do futebol Puskas, Koksis, juca, Travassos e os 5 violinos, e Félix e Rogério do Benfica, que aconteceu o seguinte: Jogávamos com bolas de borracha, pequenas, porque o dinheiro que conseguíamos não dava para mais. E uma vez, com uma colecta maior, comprámos uma bola maior, parecia uma bola a sério. Ainda me lembro: era amarela, com estrias. Foi devidamente acarinhada, beijada e depois dessa homenagem começámos a árdua tarefa de lhe dar pontapés. Ia o jogo no melhor, quando um vozeirão nos ordenou que entregássemos a bola. Era a directora, óptima professora, mas uma mulher¬homem autoritária que usava o terror para impor a disciplina.

 

 

Cabisbaixo e triste, um de nós foi entregar-lhe a bola. Sem o objecto do nosso encanto, comprado a duras penas, a indignação tomou Conta de nós. Ruminámos os piores insultos que se podiam inventar, jurámos vingança e no intervalo seguinte, sempre mastigando o ódio, de repente a nossa bola foi atirada do cimo da escada (não vimos por quem) e caiu saltitante no pátio.

 

 

“A bola! A bola, pá!”

 

 

Corremos para a agarrar, e então vimos que lhe tinham pintado duas letras a roxo:  “M. P.”

 

 

–  O que é isto? Mocidade Portuguesa?

 

 

Filhos da puta, roubam a bola e agora dizem que é da Mocidade Portuguesa??!” Indignados, não acreditávamos que fosse possível o que nos tinham feito. E a decisão foi rápida: “Não é nossa, também não há-de ser deles”.

 

 

Corremos à vedação de arame farpado e rasgámos a nossa querida bola até se transformar num monte de farrapos inútil.

 

 

Foi o nosso primeiro acto de cidadania.

1 Comment

  1. Lembrei-me hoje da saudosa canção da minha infância, aprendida na 4a. classe, há mais de sessenta anos, em Perre (Viana do Castelo). Canção dos tempos da Ditadura, ela própria impregnada (na nletra) do espírito dessa época, mas o que se lhe há de fazer? Sou de esquerda, anticolonialista, mas a linda canção voltou-me à memória. Reencontrei aqui a letra (criticável, portanto). Mas não a música. Já é meio caminho andado. Obrigado. Mas não haveria um meio qualquer de se ouvir a música? Ó pá, não tenham receio. Quem é de esquerda, não volta a ser de direita. É só uma questão de matar saudades. Até se podia adaptar a letra aos nossos tempos, mantendo a música, não?…

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