UM CAFÉ NA INTERNET – Cantiga de escárnio, por Afonso Eanes do Coton

 

 

 

 

 

 

 

 

Meestre Nicolás, a meu cuidar,

é mui bom físico; por non saber]

el assi as gentes bem guarecer,

mais vejo-lhi capelo d’Ultramar

e trage livros ben de Mompisler;

e latin come qual clérigo quer

entende, mai nõ no sabe tornar.

 

E sabe seus livros sigo trager,

come meestr’, e sabe-os catar

e sabe os cadernos ben cantar;

quiçai non sabe per eles leer,

mais bem vos dirá quisquanto custou,

todo per conta, ca ele x’os comprou.

Ora veede se á gran saber!

 

E en bon ponto el tan muito leeu,

ca per [i] o preçan condes e reis;

e sabe contar quatro e cinqu’ e seis

per [e]strolomia ‘n que aprendeu;

e mais vos quer’ end’ ora dizer eu:

mais van a el que a meestr’ Andreu,

dês antano que o outro morreu.

 

E outras artes sab’ el mui melhor

que estas todas de que vos falei;

diz das aves [en] como vos direi:

que x’ as fezo todas Nostro Senhor;

e dos [e]stormentos diz tal razon:

que mui ben pod’ en eles fazer son

todo ome que en seja sabedor.

 

Fui buscar esta cantiga de escárnio a Poesia e Prosa medievais, Biblioteca Ulisseia de Autores Portuguesas, que teve a primeira edição em 1981. A selecção, introdução e notas são de Maria Ema Tarracha Ferreira. Esta cantiga integrou o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional. Pertence ao chamado ciclo alfonsino, do século XIII. Afonso Eanes do Coton foi um segrel galego, que terá estado na corte de D. Afonso X, de Leão e Castela.

 

 

 

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