UM CAFÉ NA INTERNET – VERSOS QUE EU FAÇO, por ÁLVARO FEIJÓ (1916 – 1941)

Um café na Internet


 

 

  

Escrevo, muita vez, molhando a pena

no amargo fel da minha própria dor

versos gritantes em que ponho em cena

fantasmas de ilusões, versos sem cor.

 

De rubro e negro, pela dor absortos,

como notas vibrantes de clarim,

finda a batalha, abençoando os mortos,

são os versos que eu faço para mim.

 

Mas outros há, rebeldes como potros,

onde a graça anda imersa, estua e ri,

feitos prò Mundo rir, neles, dos outros,

quando, afinal, neles se ri de si.

 

Outros, que mal escrevo e andam dispersos

na voz-cristal das moças do lugar,

incontestavelmente os melhores versos

que faço, porque neles sei pintar

 

verdes de esperança, azuis do céu da calma

que dentro de nós sorri,

rubros de coração, vermelhos de alma,

esses, que mal escrevo e andam dispersos

na voz-cristal do povo,

                               são os versos

que eu faço para Ti.

 

 

Outubro de 1937

 

De A Poesia de Álvaro Feijó, de João José Cochofel, Portugália Editora, Lisboa, 2.ª edição, 1961.

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