III-AMIZADE E SOLIDARIEDADE
Para as pessoas minhas amigas… e que se lembram de mim…
Hoje em dia, a amizade e a solidariedade, parecem ser dádivas que deviam ser recíprocas, mas, dádivas raras, escassas e caras. Em outros dos meus textos tenho definido, na base da minha mania académica, o que é amizade: uma atracção recíproca com a pessoa que nos entendemos. Não envolve nem erotismo nem amor, apenas entendimento, alegria de se estar juntos e poder confidenciar assuntos que a mais ninguém diríamos.
Quanto a solidariedade, a defini também como um estar ao serviço de outro, caso for precisa a nossa presença, sem esperar por isso uma estimação semelhante. A prova deste acerto, e uma mensagem recebida por mim de um antigo discípulo: “Caro Professor Li o seu texto de corrida. Como eu o entendo e como me sinto incapaz de tanta retribuição em falta. Vou ligar-lhe à tarde. Grande abraço”. E telefonou. Visita, nem por isso: não há tempo, na corrida académica em tempos da falências como a que vivemos, apenas permite uma frase solidária… e o descanso próprio, merecido por correr sempre para ganhar os melhores louros.
Não apenas nós antropólogos, especialmente os que nos enveredamos pela via de ser psicanalistas de crianças e dos seus pais, para sarar mágoas emotivas, sabemos o que é amizade e solidariedade porque as crianças nos ensinam. Toda pessoa que ama outros, acaba por ser amigo recíproco de quem gostamos e que sabemos que gostam de nós. Como as pessoas da minha amada Vila Ruiva, a vila onde passo a maior parte do tempo para entender a mente dos mais novos, sendo recebido sempre, como se chegar a casa, pelo meu amicíssimo António Lopes e D. Fernanda, a sua mulher. Quase como o carinho irreparável pelas das filhas, um degrau menos seus maridos, e por cima de todos, os seus filhos, meus netos e netas. Quando soube que as minhas filhas iam ser mães, não podia conter a minha alegria, sem choramingar, porque pelos netos e filhas e genros, sentimos um amor especial que nos faz felizes, seja que estejam connosco ou à distância.
Reciprocidade sem retorno necessário, apenas solidários. Na amizade solidária tudo tem cabimento. Há surpresas agradáveis, como esse dia em que sem saber como e porque, um docente me telefonou para me convidar a escrever com eles. Começou a explicar o porque, mas o parei de imediato: trabalhar convosco será para mim um imenso prazer. Assim tem sido até o dia de hoje, apesar das tristezas que me causam os desentendidos de quem não percebe o que não escrevo e me pune não publicando os meus textos por pensar que são reiterações, sem ter lido o contexto desse e outros. Os especialistas sempre reiteramos o que mais sabemos e gostamos definir, é preciso saber da matéria que falo, para não ser tão injustamente punidos.
Fiquemos apenas pela alegria que me causou esse convite, como também o que me fez outro amigo, Carlos Loures, para criarmos um blogue. A minha alegria tem sido tão grande, que entrego livros completos que ele me publica por capítulos, como estava a congeminar fazer com os Senhores que me convidaram a escrever com eles. Tinha já começado, com a imagem de dois rapazitos com couves como bonés para cobrir a testa. Era tão divertido! Nós, escritores, gostamos dar prazer aos outros, é esse o meu intuito. A minha maior alegria, é quando uma amiga minha especial, me convida a sair por longos tempos. Ou quando as minhas Paula, Ana e Maria Paula, tomam conta dos meus assuntos.
Ou a minha farmacêutica a rir comigo das nossas dores. Outra graner alegria, é esta, mal acordo de manhã, a minha solidariedade torna-se autista e ninguém me tira desta máquina, a minha amiga solidária…onde posso enaltecer e comunicar com os que amo e respeito. Amor e solidariedade são emoções possíveis se esquecemos as arestas da vida e nos lembramos, num dia como hoje, do aniversário da nossa mãe.
Amizade e solidariedade, os meus objectivos na vida….especialmente com descendentes….sentimentos que não existem no vazio: ou os cultivamos ou vivemos deprimidos. Quem quer outro sentimento que não seja recíproco, o construa, fique alegre e não perca o tempo com raivas e temores? Sentimentos negativos que, se entrarem em mim, far-me-iam infeliz até a morte…Lembranças aprendidas da nossa mãe e cultivadas para transferir na emotividade dos filhos que tanto ama! Sermos felizes, dar alegria a os outros, como as minhas Paulas, Anas e Marias, nomes fictícios, têm-me ensinado, no começo da minha velhice….que renovam a alegria de viver e fazem de nós seres descontraídos e novos, mais uma vez…

