O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 3- por Raúl Iturra

 

 

Todos estes textos, não esquecem a figura paterna como guarda, tornando-se, assim, imprescindível, sabermos o que a figura paterna representa na infância. No meu caso das bolachas, mal entrava numa casa, de imediato ia às mobílias para procurar “gallallas”. A minha mãe ficava enternecida, a senhora da casa também. Não esquecerei o dia em que entrei na casa da enfermeira que tratava os trabalhadores da fábrica do nosso Senhor Pai, como relato noutro livro meu (a editar brevemente), e ir de forma precipitada para uma mobília de madeira de sândalo lavrado e coberta por uma peça de mármore de Carrara, que fez a minha grande ilusão.

 

Era uma mesa encantadora e chamava a minha atenção. Essa enfermeira, Dona Ema Cubillos de Geisser, era na verdade uma parteira, denominadas Matronas no Chile. Tinha dinheiro e a sua casa era de uma elegância que qualquer criança poder-se-ia iludir com a ideia de que dentro dela haveria imensas maravilhas, portanto, também, “gallalas”. O nosso Senhor Pai, de imediato, chamou-me à atenção, no seu papel de guardião: “Menino, não faça isso”. Por ser, nesses tempos filho único, pensava que tudo era meu, e não quis ouvir e não parei quieto até rever toda a mobília da casa. Não havia “gallallas”…

 

Grande desilusão! O puxão de orelhas do Senhor Pai doía menos que a falta do bem mais cobiçado, largamente conhecido pela família, amigos e vizinhos. A transgressão às ditas boas maneiras nem era um afazer mau para mim. Se tudo era meu, porque não tinha “gallallas”? Essa figura guardiã e restritiva, esse papel de pai, tão diferente do da mãe e do das mulheres que também tinham filhos, era apenas no olhar, uma grande punição. Se o pai é figura restritiva, o filho deve respeitar e ter medo. Mas eu, no meu azarado afã de ter o que queria, nem medo tinha das mandadas restrições da figura punitiva do pai.

 

Um pai que pune e vigia, se é a imagem do ser que controla, de facto, como diz Freud, acaba por ser um pai castrador . É a terceira noção que a criança aprende do pai, na cultura ocidental. Pai castrador que o filho deve matar para existir paz na família, como defino em nota de rodapé. A definição dos estágios da figura paterna perante o menino aparece no seu texto de 1923 . A teoria freudiana desenvolve estágios de paternidade, ao comparar um pai primário para a criança, com o pai que pune e castra os filhos na sua vida adulta. Freud responde à questão: o que é um Pai? O pai freudiano é o pai morto, retomado por Lacan como Nome – do – Pai (Subversão do sujeito e dialéctica do desejo no inconsciente freudiano). Pai morto articulado nos dois mitos freudianos: o pai da horda primeva e o pai do complexo de Édipo.

 

NOTAS:

 

O pai castrador é a terceira categoria, ou o terceiro estágio, do tipo de pai que aparece na estrutura da teoria da sexualidade das crianças em Freud. Está definido no texto Organização Genital Infantil e da noção de falo. O primeiro tipo de pai que ele classifica, é o proto – pai, ou pai primevo, origem da Lei, que ele dita, sem a ela se submeter: a lei do proto – pai é uma lei fálica para organizar a vida da família, assim, ele necessita estar acima da lei. É o modelo de pai que aparece no seu livro de 1912, retirado das pesquisas de Durkheim sobre os Aranda ou Arunta da Austrália Central. Proto-pai que não se submete à Lei. Esta obra, traduzida para inglês, em 1919, como Totem and Taboo. Resemblances between the psychic lives of savages and neurotics, responde a uma necessidade lógica da origem da lei, pai mítico, macho dominante, morto pelos filhos. O texto pode ser lido em francês em: Totem et tabou. Interprétation par la psychanalyse de la vie sociale des peuples primitifs (1912). Traduzido do alemão para francês com a autorização de Freud, em 1923. Reimpresso, 1951. Texte téléchargeable ! Em: http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/freud.html. A sua análise é curta e fria ao estudar emotividades, mas muito detalhada nos aspectos sobre neuroses, especialmente na análise do incesto. O autor procura, como, mais tarde, Georges Devereux, psicanalista húngaro, que enveredou pela Antropologia sob orientação de Marcel Mauss, estuda a etnia Mohave dos Estados Unidos de América, confrontando a teoria freudiana, mas no terreno, e não no texto, como Freud que analisou a etnia Arunta a partir dos estudos de Durkheim e seus discípulos, cujos resultados são analisados no livro de 456 páginas, com o título de Les Structures Élémentaires de la vie religieuse, Le système totémique en Australie, 1912, Félix Alkan, Paris, livro que pode ser lido em: http://classiques.uqac.ca/classiques/Durkheim_emile/formes_vie_religieuse/formes_vie_religieuse.html. sobre o tabu do incesto entre os Aranda. É possível ver que o proto – pai de Durkheim é diferente do de Freud, apesar de ter sido retirado das mesmas fontes etnográficas. Só que Durkheim, analisado por mim noutro texto, endereçou a sua pesquisa ao estudo dos rituais, especialmente ao sacerdote tribal Aleteucha e a sua forma de ensinar aos mais novos o saber de sobrevivência. O Aleteucha é o proto–pai entre os Arunta. Para Freud, o recurso ao ritual totémico, é uma forma infantil, donde neurótica, de apoio para viver. Para Durkheim, o proto – pai é um pedagogo, para Freud, uma fantasia mental. Paradoxo – porque teria que haver a ameaça da castração como punição se já havia a ameaça de morte? Freud diz que a morte do Pai era necessária para estabelecer uma certa relação entre os filhos. Questão colocado pelo docente Márcio Peter de Souza Leite da Pontifícia Universidade do Brasil, em:

 http://www.marciopeter.com.br/links2/ensino/feminilidade/02_o_pai_em_freud.pdf. Freud, Sigmund, (1923) 1955: The Infantile Genital Organization, Hoggart Press, and London. Em português: Organização Genital Infantil, volume. XIX, Imago, 1999, Rio de Janeiro, citada antes, em francês: L’organisation Genital de l’Enfant, em: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&sa=X&oi=spell&resnum=1&ct=result&cd=1&q=Freud+Les+Classiques+des+Sciences+sociale+L%27Organisation+Genital+de+l%27%C3%AAnfant&spell=1. A lei fálica é a que faz de um adulto um pai

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