OS HOMENS DO REI – 46 – por José Brandão

Luís Vaz de Camões (1524/5-1580)

Luís Vaz de Camões nasceu em 1524 ou 1525, provavelmente em Lisboa e morreu em Lisboa a 10 de Junho de 1580. Luís de Camões era filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá, segundo o confirmam os documentos oficiais. Tendo vivido quase isolado dos seus pares, nenhuns deles em sua vida se lhe refere e só depois da morte mereceu de um ou outro raro amigo uma breve alusão, que, na ausência geral delas, atinge valor de preciosa.

 

É, todavia, possível, completando os documentos que lhe respeitam, a ele ou à família, com seus escritos, tentar um esboço biográfico sem grande perigo de erros fundamentais, se bem deixando lacunas e sombras. A sua formação cultural decorreu provavelmente em Coimbra. A situação que na Universidade ocupava o tio D. Bento torna admissível ter sido ele a dirigir-lhe a educação, embora não haja registo comprovativo de que tenha frequentado a Universidade. De volta a Lisboa, participou com diversas poesias nos divertimentos poéticos a que se entregavam os cortesãos; relacionou-se através desta actividade literária com damas de elevada situação social, e com fidalgos de alta nobreza, com alguns dos quais manteve relações de amizade.

 

Entre 1547 e 1549 esteve em Ceuta como soldado. Teria sido em África que uma bala lhe vazou um dos olhos em algum recontro com os Mouros. De certeza sabe-se que a deformidade ocorreu antes da sua partida para a Índia, pois a ela se refere numa carta que de lá escreveu como sendo facto conhecido. Sobre a sua estada em Ceuta, o seu primeiro biógrafo, Pedro de Mariz, alude ao boato de que foi castigo por uns amores que, segundo dizem, tomou no Paço. Luís de Camões conheceu uma Lisboa que vivia o período áureo da sua história.

 

É quando volta de Ceuta que ele desvaira na boémia. Não parece ter modo de vida; e esta leviandade a descambar para a dissolução está de acordo com os documentos através dos quais podemos reconstruir as circunstâncias da sua partida para a Índia. Em dia de procissão do Corpo de Deus, no Rossio, com mais dois amigos, envolve-se em desordem com um tal Gonçalo Borges, criado do Paço, ao qual fere com um golpe de espada no pescoço, tendo ficado preso na cadeia do Tronco.

 

O Rei, por seu turno, lhe perdoa porque «o suplicante é um mancebo e pobre e me vai este ano (1553) servir à Índia…» Na Índia o Poeta não foi feliz. Goa decepcionou-o. Seus versos referem-se a excursões militares. São ainda as suas composições que nos informam dos momentos de grato convívio, como aquele em que, tendo oferecido uma ceia a fidalgos seus amigos − João Lopes Leitão, Vasco de Ataíde, D. Francisco de Almeida e Heitor da Silveira − encontraram estes nos pratos graciosos versos por iguarias. A vida de Camões no Oriente esteve longe de decorrer com calma e prosperidade propícias. Como soldado parece que participou numa expedição à costa do Malabar e esteve, por algum tempo, no cabo Guardafui, incorporado, ao que se crê, no cruzeiro ao estreito de Meca, entre Fevereiro e Outubro de 1555, feito pela armada de Manuel de Vasconcelos. É depois destas duas expedições que se situa o seu período em Macau. Em data que é impossível precisar, Camões naufragou na foz do rio Mekong (actual Vietname), salvando das águas o manuscrito d’Os Lusíadas. O ano de 1569 é a data do regresso do poeta a Lisboa, tendo arribado ao porto de Cascais na Primavera de 1570.

 

 

Em Lisboa encontrou ele o ambiente que lhe adensaria a tristeza que trazia do Portugal ultramarino. Sob D. Sebastião, a coisa pública decorria em termos a que, logo que o poema foi publicado, representa o monarca emergindo de ambiente de que não poupa os aspectos condenáveis – adulação, egoísmo, injustiça, hipocrisia. A 24 de Setembro de 1571, Camões obteve, de D. Sebastião o alvará que lhe permite imprimir Os Lusíadas por um período de dez anos. Em 1572 sai a obra, em Lisboa, em casa do impressor António Gonçalves. E, em 28 de Julho do mesmo ano, D. Sebastião concede ao poeta uma tença anual de 15 000 réis, a pagamento desde 12 de Março, pelos serviços que este lhe havia prestado na Índia, e não apenas para o compensar pela publicação d’Os Lusíadas.

 

Esta tença foi paga irregularmente, mas sempre na sua totalidade, dela beneficiando, por ordem de Filipe II de Espanha, a mãe do poeta, que lhe sobreviveu. É graças a essa documentação que sabemos que a morte de Camões ocorreu em Lisboa, a 10 de Junho de 1580. O valor da tença era, efectivamente, inferior a muitas outras que o poder régio concedeu, em data próxima, a servidores seus. Tudo indica que a tença era insuficiente e inadequada ao serviço que o poeta prestara à pátria. Dada a exiguidade da tença, irregularmente paga e pessimamente mal administrada, não custa aceitar a fundamental verdade da lenda sobre o abandono e miséria em que ao poeta decorreram os últimos anos da vida. Por isso não custa acreditar na lenda das esmolas recolhidas pelo seu criado Jau.

 

Em 1579 a peste assola Lisboa. Num quarto escuro, Camões estirado na cama. Tem muita febre e já ninguém duvida que é mais uma vítima da doença. Na boca, um gosto, misto de gengibre, canela, cominhos e açafrão: remédio contra a pestilência. Na casa, o fogo sempre aceso para queimar o ar que tresanda. O autor d’Os Lusíadas está muito fraco, mas insiste em escrever. Remete uma carta a D. Francisco de Almeida, referindo-se ao desastre de Alcácer Quibir, à ruína financeira da Coroa portuguesa, à independência nacional ameaçada. “Enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela”.

 

O triste fim de D. Sebastião abala o grande poeta. Desejado o nascimento de D. Sebastião, era-o também o seu retorno, tornado mito pela fé popular. Talvez numa manhã de nevoeiro, vitorioso sobre um cavalo branco.

 

A seguir: Pedro Nunes

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