Zona euro: Sarkozy trabalha para os bancos franceses? por Georges Ugeux. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

Georges Ugeux

 

 

A cimeira europeia deste Domingo continua mais tarde  devido a divergências entre a França e a Alemanha. Neste combate, a França está sozinha: os Estados-Membros suspeitam cada vez mais das posições assumidas pela França e temem que estas estejam marcadas pela  uma influência para não dizer pela  dominação do sector bancário. A 21 de Julho, na presença do Presidente do Deutsche Bank, Joseph Ackermann, representando o Institute Internacional of Finance, e de Michel Pébereau, um acordo sobre “um sacrifício” de 21% tinha sido anunciado e concluído. Foi necessário três meses para  que os Parlamentos nacionais aprovassem este acordo. Mas não será aplicado. Voltaram-se a colocar as cartas na mesa.  A Europa discute mas não é capaz de agir.


A razão? A ideia de uma necessidade de recapitalização dos bancos. Esta afirmação não tem verdadeiramente nenhum fundamento . Os concorrentes europeus dos bancos franceses não deixam continuamente de o afirmar. De repente, a França quer  que o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira disponha  de meios para intervir na recapitalização dos bancos. Percebe-se  bem a manobra:  os bancos franceses estão fragilizados, e a sua notação foi diminuída. A França não ousa recapitalizá-los  com medo de perder a sua  notação AAA da qual faz o seu cavalo de batalha. A França procura por conseguinte que se recapitalizem  os bancos franceses por mecanismos europeus. Ninguém é estúpido.

 

Esta posição é do ponto de vista moral, financeiro, social e politico, totalmente   indefensável:

 

– Moralmente, uma nova intervenção em defesa dos bancos levanta alguns problemas fundamentais: a Europa não pediu aos bancos que se  reestruturem.  Os Estados continuam a fazer do contribuinte o apoio de última instância   de banqueiros que não diminuíram nem num só euro as suas remunerações gigantescas. Nenhuma  regulação afectou substancialmente os bónus e as afirmações “de respeito dos princípios do G20” não passam ao nível da análise: os princípios do G 20 estão com efeito esvaziados de conteúdo prático. Os banqueiros asseguraram-se de que as tentativas da Europa em  impor tais restrições permanecem ssobretudo nos cartões das intenções. .

 

– Financeiramente, os bancos não têm necessidade de serem recapitalizados  excepto se falsificarem as suas contas, (hoje, tudo é possível)  ou se continuaram a acumular posições especulativas. Que os bancos franceses tenham adquirido bancos na Turquia, na Itália ou na Grécia é uma decisão estratégica e não há nenhuma razão para recapitalizar ou  para financiar estas sucursais. Mas a sua recusa em  abandonar as suas actividades consumidoras de fundos próprios é inaceitável. Os bancos europeus (e franceses) devem diminuir a sua dimensão em cerca de 25% em média  e, sobre “a gordura”, mas não sobre as actividades de crédito à economia. Os bancos franceses continuam a ser os líderes em produtos derivados. Nenhuma das medidas de reestruturação pelas quais passam os bancos  não foi imposta  aos bancos europeus. Para além do mais, trata-se dos bancos que se opuseram a que os testes stress de Julho fossem transparentes e sobretudo que tivessem em  conta o impacto de uma reestruturação inevitável das dívidas soberanas de certos países da zona euro.

 

Politicamente, não é aceitável que uma vez mais nem um só um euro seja gasto pelos  bancos depois da  crise de 2008.  Nenhuma responsabilidade é exigida aos bancos e aos banqueiros pelas  intervenções dos governos. Não há nenhum dogma que lhes dê  este direito. O eleitor atingiu  um nível de exasperação que gera acções como as que vivemos em  Wall Street e que agora se tornaram contagiantes na  Europa. A tentativa actual de fazer resolver pela Europa os problemas bancários não é aceitável em nenhum país europeu.  Sobretudo desde a crise de 2008.

 

Socialmente, vir socorrer a profissão mais bem paga é inaceitável. No momento em que a França  tem o défice mais elevado de todos os AAA do planeta, e nunca chegará evidentemente a um défice zero em 2013, deverão ser pedidos sacrifícios importantes à população. É inconcebível que uma parte deste défice e da dívida de  França seja aplicada a recapitalizar  o sector bancário. Têm os meios para perfeitamente se poderem reestruturar, ainda que isso passe por algumas reduções  de benefícios, e por conseguinte de remunerações.

 

O debate europeu está  bloqueado desde há meses pela defesa total do sector bancário feita por Nicolas Sarkozy enquanto que a Alemanha defende uma participação deste sector na solução das dívidas soberanas. Tem sido isto que  provocou um agravamento da crise europeia e em proporções completamente inverosímeis. Os prejuízos já se calculam em  dezenas de milhares de milhões de euros.


É tempos de reposicionar  os pêndulos na hora certa, é tempo de  renúncia às  reivindicações da França  que só custam muito, mesmo muito à Europa e ao  contribuinte francês. A responsabilidade dos Estados-Membros da zona euro  é a gerir o desequilíbrio do endividamento, não é a de recapitalizar os  bancos que verdadeiramente não têm necessidade.


Georges Ugeux, PDG de Galileo Global Advisors,  Eurozone: Sarkozy roule-t-il pour les banques françaises? , Le Monde, 22 de Outubro de 2011.

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