Aos visitantes, aos leitores, aos acompanhantes desta viagem, um texto sobre os Paraísos fiscais, primeira parte. Um texto de uma organização católica que muito respeito, CCFD-Terre Solidaire, a chamar-nos a atenção, mais um, para o escândalo que representam os paraísos fiscais e ao não menos escandaloso silêncio dos nossos líderes políticos que fizeram ou permitiram que esta Europa esteja rodeada de paraísos fiscais, para além dos que tem no seu interior. A cada país seu paraíso fiscal: a Madeira, para Portugal, Andorra ou Gibraltar para a Espanha, Mónaco para a França. San Marino para a Itália, a Suíça para todos eles, Lichtenstein para a Alemanha, Luxemburgo para todos eles, Ilhas Anglo-Normandas (Man, Jersey…) também elas para todos mas particularmente para apoio ao maior paraíso fiscal do Mundo: Londres. Enquanto isso os Estados nacionais não têm dinheiro, não são já capazes de cobrar mais impostos a quem não foge com os seus rendimentos para esses lugares, os nossos políticos vão então direitos aos direitos conquistados ao longo de décadas, assaltam-nos no nosso presente e no nosso futuro, enquanto eles mesmos silenciam esta realidade que permitiram ou que construíram e que dá pela vergonha de paraísos fiscais, nome que, como me lembrou uma amiga e antiga minha aluna advém de um defeito auditivo dos franceses de ouvido bem duro. Aqui a cito sobre a definição Paraísos Fiscais:
“Designados,entre outros,por offshores,tax harbors,ou tax havens,a sua correspondente expressão portuguesa é de “paraísos fiscais”. Corruptela da palavra inglesa haven – que significa “porto”,“abrigo” –,e que um qualquer “ouvido” francês mais desatento interpretou como “heaven” (paradis) – que significa “céu”,“paraíso”–,o termo ficou e ganhou foro de instituição. Talvez até porque o desejo (ancestral) de encontrar um lugar ou forma de não pagar impostos sempre tenha sido considerado pelos humanos como um “lugar dos deuses”…”
E boa leitura.
Júlio Marques Mota
O G20 de 2011, crónica de um encontro (ainda) falhado ?
Bernard Pinaud, delegado geral de CCFD-Terre Solidaire
A cimeira dos chefes de Estado do G20 de 3 e 4 de Novembro de 2011 realiza-se num contexto de crise profunda. Presidido este ano pela a França, o G20 que tem por slogan “novo mundo, novas ideias”, deseja fornecer respostas colectivas à crise económica. Objectivo afirmado: melhorar de maneira duradoura a estabilidade económica. A crise que se desencadeou a partir de 2008 marca bem a falência total de um sistema económico sem qualquer sinal de bússola. Um sistema que, não contente em pauperizar as sociedades do Sul e de dilapidar os seus recursos e as suas riquezas, ataca-se agora frontalmente às populações do Norte. É já tempo de fazer o balanço das iniciativas decididos a partir do dia seguinte ao estoirar da bolha da especulação , dita crise de subprimes e de elaborar as perspectivas de modo a que, por fim, os países do G20 possam começar a agir para se criar um desenvolvimento solidário e um outro modelo económico. Proclamado “primeiro fórum de cooperação económica internacional[1]”, o G20 terá ele os meios para pôr cobro à loucura financeira e para criar as bases de uma nova ordem económica posta por fim ao serviço do humano?
Porque entre 2007 e 2011, a crise mudou de rosto. Primeiro, esteve limitada à esfera do sector imobiliário americano, depois, a crise tem-se tornado sistémica e evoluiu para um crash financeiro, o primeiro grande choque económico do século XXI. Numa economia ao mesmo tempo mundializada e globalizada, as consequências são enormes: milhões de empregos foram destruídos, somas loucas desfizeram-se em fumo enquanto os especuladores se atacam aos mercados agrícolas e às dívidas soberanas.
Pressionados a agir, os responsáveis políticos tem uma extrema dificuldade em dar uma resposta duradoura, agravando, pelas suas hesitações e atrasos, uma situação já de si bastante crítica. Ao longo das cimeiras e das declarações decretando a “moralização ” da economia, os limites dos responsáveis políticos do G20 tornaram-se cada vez mais visíveis. Depois de Washington em 2008, Londres e Pittsburgh em 2009, Toronto e Seul em 2010, é em Cannes que o G 20 deverá dar respostas concretas para os problemas urgentes.
Se a agenda francesa se quer assumir como ambiciosa, pode-se duvidar do sucesso da cimeira ao olhar para as orientações neoliberais dos discursos dos membros do grupo. Enquanto que a situação dos bancos europeus suscita reais apreensões, enquanto que os países da zona euro sofrem por sua vez o rigor imposto sob a protecção e a ajuda garantida pelo Fundo Monetário Internacional, enquanto que que os Estados Unidos têm estado minados pela crise e pela sua dívida e que todos os países membros estão todos eles mais ou menos ligados entre si , pode-se legitimamente questionar se o G20 não é finalmente mais uma causa do que a solução para a crise.
Bernard Pinaud, delegado geral
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A organização CCFD-Terre Solidaire não considera o G20 como um espaço legítimo de governança e considera que o sistema das Nações Unidas deve ser o lugar onde organizam-se as trocas de pontos de vista e as decisões entre os países ricos e os países em desenvolvimento. Se o G20 representa mais de 80% do PIB mundial, não representa nem o mundo nem o conjunto das nações. E no entanto a agenda claramente neoliberal das cimeiras ratifica políticas que não têm em conta os interesses profundos dos povos, em especial os dos países mais pobres. Se o G20 deseja prestar um apoio firme ao desenvolvimento, deve começar por aplicar regras estritas em cada um dos países-membros, nomeadamente no que diz respeito à luta contra os paraísos fiscais, a favor dea regulação das actividades das empresas multinacionais ou contra a especulação sobre os produtos agrícolas.
Para a organização CCFD-Terre Solidaire, o subdesenvolvimento e o mal-desenvolvimento encontram ás suou causou Estados-Membros escolhas estratégicas discutíveis Estado-Membro matéria de políticas públicas, cupidité de certos grupos e a desregulação económica e tem opacidade financeira Para a organização CCFD-Terre Solidaire o subdesenvolvimento e o mal-desenvolvimento encontram as suas causas nas escolhas estratégicas discutíveis em matéria de políticas públicas, na ganância de certos grupos e na desregulação económica assim como na opacidade financeira.
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A organização CCFD-Terre Solidaire ainda uma vez mais mobilizada
Este ano como em cada cimeira do G20 (e do G8), a organização CCFD-Terre Solidaire lembra que existem soluções para pôr cobro à opacidade financeira e à evasão fiscal, para instaurar uma fiscalidade ao serviço do desenvolvimento, para acabar com a especulação sobre as matérias agrícolas e garantir preços remuneradores para os produtores e justos para os consumidores, para enquadrar as actividades das multinacionais e para garantir o acesso à justiça para as vítimas da mundialização económica. Quer seja para a cimeira dos chefes de Estado ou para a altercimeira de Nice (de 1 a 3 de Novembro), a CCFD-Terre Solidaire está mobilizada com alguns dos seus parceiros dos países do Sul.
Recomendações de CCFD-Terre Solidaire
Com os seus parceiros dos países do Sul, a organização CCFD-Terre Solidaire interpela os chefes de Estado membros do G20 para que as declarações sejam finalmente acompanhadas por actos e pede-se que medidas políticas concretas sejam tomadas em prol da regulação financeira, de uma taxa sobre as transacções financeiras para financiar o desenvolvimento, da soberania alimentar e pede-se também a regulação das actividades das empresas multinacionais.
1..Pôr cobro ao escândalo dos paraísos fiscais.
2. Taxar as transacções financeiras internacionais para financiar o desenvolvimento.
3. Regular as actividades das multinacionais que investem nos países do Sul.
4. Assegurar a soberania alimentar e apoiar a agricultura familiar.
Acabar com o escândalo dos paraísos fiscais.
“Esta grande diferença entre a geografia económica real e a que reflectem os paraísos fiscais, constitui hoje o cadinho das desigualdades ao nível mundial. Mas esta mentira é cometida, não tanto pelos próprios paraísos fiscais – receptáculos que consentem as vigarices que outros querem guardar secretos – mas essencialmente, pelos actores essenciais da economia mundializada : os bancos e as empresas multinacionais. (” « L’économie déboussolée. Multinationales, Paradis Fiscaux et Captation des richesses », Jean Merckaert, CCFD-Terre Solidaire, Dezembro de 2010). Preocupados em preservar a estabilidade financeira internacional e voltar a encher as caixas dos Estados, os países do G20 fizeram da luta contra os paraísos fiscais um das suas principais respostas à crise financeira, em 2009. Enquanto que novos choques agitam a economia mundial e enquanto os mercados financeiros se aproveitam da vulnerabilidade dos Estados para especular sobre os títulos da dívida pública e ditarem as suas leis, onde é que está a luta contra os paraísos fiscais?
Uma vontade em papel já bem furado
A 2 de Abril de 2009, o G20 apresentava uma determinação sem precedentes contra os paraísos fiscais e anunciava o fim do sigilo bancário, mas dois anos e meio depois, está em dificuldade perante a resolução deste problema. Para lutar contra a opacidade financeira, os Estados do G20 têm apostado muito sobre a troca bilateral de informações fiscais entre os Estados, gerando um impasse sobre a necessária transparência dos utilizadores dos paraísos fiscais e os intermediários financeiros. Para sair das listas negras e cinzentas da OCDE, certos países alérgicos à transparência foram forçados a vergar-se aos padrões internacionais. Mas os progressos realizados nos primeiros meses não levaram em medidas mais ambiciosas. Hoje, os únicos progressos substanciais em matéria de transparência assentam apenas sobre iniciativas unilaterais (como a lei Dodd-Frank Act nos Estados Unidos). Apesar dos efeitos de publicidade e das declarações ameaçadoras do G20, a tendência deste tempo, a fuga ilícita dos capitais dos países do Sul está estimada em mais de 800 mil milhões de euros por ano.
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Dodd-Frank Act Lei de reforma financeira americana adoptada a 21 de Julho de 2010, pelo Congresso americano. Entre as centena de medidas previstas, introduz-se a obrigação para as empresas mineiras , de extracção do gás e petrolíferas cotadas em Wall Street de declararem anualmente no seu relatório de actividades junto da autoridade dos mercados financeiros americana (SEC) os montantes pagos a cada governo que recebe ou em que desenvolvem as suas actividades de extracção. Esta medida é o resultado de uma mobilização quase de dez anos da sociedade civil no quadro da rede internacional “publique o que paga” e que reune cerca de 600 organizações em 55 países. A publicação dos decretos de aplicação inicialmente prevista para Abril de 2011 foi adiada muitas vezes devido forte a um lobby desencadeado pelas empresas do sector extractivo que procuram custe o que custar enfraquecer a lei introduzindo sucessivas isenções. A União Europeu está a debater um texto para introduzir uma medida similar de luta contra a corrupção na Europa. Saberá ela ir mais longe e introduzir elementos para lutar contra a evasão fiscal das empresas multinacionais?
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[1] Segundo as palavras de Jean-Claude Trichet numa entrevista concedida ao diário italiano Corriere della Serra, com data de 23 de Setembro de 2009.
