Eva Cruz Pena de Morte
(Adão Cruz)
Era uma tarde do começo de Primavera.
Sentada no banco do meu jardim num deleite bucólico, a contemplar as flores de pão e queijo amarelas, espreitando por entre os fetos de pé preto, vi uma melra com uma palhinha no bico, disparar de um galho meio despido e entrar que nem uma flecha num arbusto, rente à hera do velho muro. Reconheci a fêmea pelo bico e penas acastanhadas, salpicadas de cinzento. Ia ali nascer um ninho e dentro a Primavera.
Dias seguidos fui observando a melra a construir a sua casa, com palhas, pequeninos gravetos e penas levadas no bico. De vez em quando o melro, no seu fato preto de bico amarelo, ajudava, e percebi que a emancipação já tinha chegado às aves, ou então sempre assim fora e mostravam-se mais evoluídas do que os humanos.
Ninho feito, logo foram postos quatro ovinhos, claros, de manchas avermelhadas, não saindo a fêmea de cima deles, enamorada no seu choco, durante cerca de duas semanas. Quando a via sair, espreitava de longe pelo buraquinho, não fosse ela enjeitar, e não tardei em ver quatro cabecinhas nuas, de tenro bico espetado no ar. Em breve se haviam de vestir e voar pelos céus da Primavera.
Um gato malhado de branco e preto, pequenito ainda, o resto de uma ninhada da gata amarela, espreitava, num galho seco de uma vide morta, a pequenina presa, e de um salto acrobático enfiou-se no buraco, agarrando o ninho por entre os bigodes. Foi tal a minha fúria que aos gritos o espantei, e na fuga deixou cair o ninho com os passarinhos despidos e esfacelados. A pobre da mãe melra chegou e chorou com pios desgarrados a sua desgraça. O melro voltejava por ali descontrolado.
Na calçada, ouvi o barulho…do tractor que matou o gato com as rodas traseiras. Com fúria disse para comigo: bem feito, foi como esmola num pobre! A gata amarela chegou, cheirou o corpo do gatito inerte e em cima do muro chorou o seu cântico fúnebre. Apoderou-se de mim um sentimento de pena e quase esqueci os passaritos nus.
Recordei então um texto de Camus, Reflexões sobre a guilhotina.
Numa aldeia deu-se um crime hediondo. Um assassino tinha chacinado uma família de lavradores incluindo os filhos pequenitos. O caso revoltou a população que considerava a decapitação uma pena leve de mais para tal monstro. No dia da execução, um aldeão, na sua revolta, quis a todo o custo presenciar a morte do criminoso. Só assim poderia saciar a sua sede de vingança. Levantou-se de madrugada, pois tinha à frente um longo percurso a pé, uma vez que o lugar da execução era na cidade. Viu chegar o condenado que tremendo de medo, mal se erguia nas pernas. O rosto congestionado implorava pela vida.
O aldeão, depois de ver a cabeça rolar pelo chão, voltou para casa, recusou-se a falar do caso e vomitou. Dali em diante apagou-se nele a imagem do crime hediondo. Na sua mente ficara apenas e para sempre o rosto do condenado.
Quem dera que na próxima Primavera, a melra volte ao velho muro de hera para cantar um novo hino à vida.



Soberba esta crónica Eva! aninhou-se no fundo de mim a velha piedade e compaixão pelos condenados à morte, muito bonito! bjos para ti e augusta