Ainda A propósito de uma sessão de cinema-3ª Parte. Glencore aproveita-se da fome e do caos – Chris Arsenault – 2. Por Júlio Marques Mota

(Conclusão)

 

O conhecimento e o poder


Para ganhar dinheiro a apostar  sobre as cotações  da energia, dos metais e dos bens alimentares  – como outras multinacionais ou hedge funds – é essencial possuir a informação.


“Têm escritórios por toda a parte no mundo e são os únicos a terem  a informação quer sobre a produção quer sobre  a distribuição” diz o investigador para a segurança alimentar Kuyek. “Quando os que detêm a informação são também os que especulam, isto  é muito inquietante; podem concluir-se  contratos a prazo quando sabem que os preços vão subir.


“Em Agosto de 2010 por exemplo, a Rússia proibiu a exportação de cereais decisão posterior à  seca que destruiu as colheitas. A  3 de Agosto o director do departamento russo dos cereais de Glencore aconselhou  o governo a parar com  as exportações de cereais.  O governo seguiu o seu conselho a 5 de Agosto o que provocou  um aumento dos cereais de 15% em dois dias.


“Alguns dias antes da proibição de exportar, Glencore fez enormes  apostas” disse Kuyek. “Sabiam o que se iria  passar  de uma maneira ou outra; as multinacionais que têm informação são os melhores lugares para fazer lucros  sobre a volatilidade. “Glencore disse por  seu lado que a proibição lhes tinha feito perder dinheiro, a  eles também,  porque tinham de cumprir com as suas obrigações e entregar cereais a clientes fora da Rússia ao novo preço agora  mais elevado.


Além de manipular dos preços alimentares – essencialmente graças a informações internas –  a multinacional gigante parece ter violado as leis de vários continentes.


Procuradores  belgas acusaram os assalariados de Glencore de conspiração criminosa e de corrupção porque, na opinião destes juízes, teriam obtido de uma autoridade dos serviços públicos informações sobre as subvenções europeias à exportação de maneira ilícita. O caso será julgado a 12 de Maio em Bruxelas. 


Negócios ambíguos


Durante  o reino de Saddam Hussein no Iraque e das sanções da O.N.U que acompanharam os seus últimos anos, Glencore fez muitos bons lucros a vender  petróleo sobre o qual  havia um embargo. Em Fevereiro de 2001, Glencore comprou um milhão de barris de petróleo bruto iraquiano que era destinado aos EUA e foi  desviado para a Croácia onde foi  vendido  com um lucro de três milhões de dólares, de acordo com o relatório do Conselho de Segurança da O.N.U.


Quando a notícia foi difundida, o jornal inglês The Sunday Times titulou: “Um homem de negócios suíço discreto liga a City a uma fraude sobre o petróleo iraquiano.”


Marco Rich, o fundador de Glencore que traficou durante toda a sua  vida sobre  matérias-primas foi alcunhado como sendo aquele  “por quem  o escândalo sempre chega” pela revista Vanity Fair. Depois de  ter fundado a companhia em 1974, Rich deu-se a conhecer  por ter sido  o primeiro a fazer “combate comercial” ou seja a arrancar  mercados muito vantajosos a países que se debatiam com  problemas.


Marc Rich negociou  com os Ayatollahs quando o Irão foi posto na lista negra pelos EUA, negociou com o governo do regime de apartheid da África do Sul e contornou o embargo dos EUA sobre a Cuba e sobre a  Líbia para fazer negócios com divisas: não recuava em coisa nenhuma.


“Haverá sempre alegações segundo as quais [Glencore] traficou  com pessoas pouco convenientes” diz Chris Hinde da revista Mining Jornal “mas eu não diria que isso  é a excepção nas multinacionais.”

 

 

Glencore propôs  a Tony Hayward, antigo Director Geral de BP caído em desgraça e que é responsável pela pior maré negra  da história dos Estados Unidos,  o posto de administrador no conselho de administração da firma quando esta se abrir  ao público.

 

 

Rich vendeu a firma em 1993 mas o seu método de  não deixar fazer prisioneiros no comércio das matérias-primas tornou-se a norma nos negociantes actuais e nos especuladores incluído o director  sul-africano Ivan Glasenberg que deu ao império comercial de Rich o nome de Glencore.

 

 

Numa entrevista concedida ao Financial Times, Rich apoiou a venda de acções reconhecendo ao mesmo tempo que é “muito cómodo” para um negociante não  estar cotado  em bolsa já que os controlos legais e a transparência obrigatória “limitam a actividade da empresa.”

 

 

Talvez que Glencore entre  em Bolsa para poder aumentar ainda mais a sua dimensão e poder comprar grandes concorrentes em especial a empresa mineira gigante Xstrata. “Eles são agora tão grandes que não podem mesmo crescer mais sem estarem cotados em Bolsa, ,” diz-nos  Hinde que acrescenta que certos  colaboradores da firma querem  que ela entre em  Bolsa porque esperam embolsar milhões vendendo as suas acções nos próximos anos.

 

 

A insegurança alimentar

 

 

Sem se estarem a preocupar com as motivações da firma, os investidores institucionais dos EUA, do leste da Ásia e do Médio Oriente todos estão  decididos a  comprar acções.

 

 

Aabar, o fundo soberano dos Emiratos Árabes Unidos controlado pelas monarquias petrolíferas de  Abu Dhabi tornar-se-ia assim o mais importante “investidor de base” (em Inglês cornerstone) gastando cerca de um milhar de milhões de dólares  em acções.

 

“Parece que os  Emiratos Árabes Unidos ao comprarem  estas acções  esperam reforçar o seu controlo no mercado mundial dos cereais para a sua própria segurança,” diz Kuyek “dada a ausência de uma verdadeira política internacional –  com exclusão das  mesmas   incitações ao livre mercado e à  liberalização comercial.  

 

De acordo com ele “os países a quem  falta a  segurança alimentar como é o caso dos  países do Golfo, da Ásia do norte, da Coreia e de outras regiões  tentam controlar mais directamente a questão alimentar  porque a economia de mercado “não pode garantir preços decentes.”

 

 

“Ali, na sua cabana  na Indonésia, Lia Romi não acompanhou  as  peripécias da entrada em Bolsa de Glencore. É inquieta porque não sabe como alimentar os seus  três filhos.“

 

 

“Devo frequentemente renunciar a comprar livros e roupas à minha filha e ao meu filho  para poder  comprar bens alimentares  porque não tenho nenhumas  economias” diz.

 

 

É pouco provável que os directores de Glencore que se preparam para embolsar milhões apostam sobre o futuro de Romi cujas flutuações do mercado mundial poderia causar a sua perda bem como a dos membros da sua família. “A estabilidade tem um grande valor ” disse  David Green da Oxfam. Mas é a última coisa que pode querer  quer Glencore, porque a instabilidade traz muito mais dinheiro aos que estão  no segredo dos Deus e têm as informações necessárias para saber explorar a instabilidade.  

 

Chris Arsenaul

 

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