UM CAFÉ NA INTERNET – DEZ LIVROS, DEZ PROPOSTAS – por Manuel Simões

 Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

Não estou muito de acordo com a ideia de eleger dez livros do século XX que, hipoteticamente, mereçam ser postos a salvo de uma qualquer catástrofe incumbente. Para além de uma amostra inegavelmente exígua, a escolha obedece a uma opinião subjectiva, por muito que os livros seleccionados possam ser apreciados por qualidades objectivas.

 

De resto, a proposta obedece, na minha perspectiva, a uma lógica discutível, agora muito em voga, isto é, uma certa mania de eleger, por exemplo, o melhor prato da gastronomia portuguesa, o melhor monumento, a individualidade que mais se destacou, com os resultados perversos e fabricados pela máquina manipuladora de gostos, conotados, quer se queira quer não, por uma determinada ideologia.

 

Não sendo este o caso, a  minha posição é, porém, semelhante à que aqui foi expressa por Carlos Mesquita, até porque, das várias propostas (já apresentadas ou a apresentar) nunca se poderá chegar a qualquer conclusão definitiva. Apesar disso, e de entre muitos outros textos que deveriam figurar na lista, vou tentar elaborar um elenco de obras que, pela sua singularidade, influenciaram sem dúvida a produção literária do século passado. Aqui vai, pois, uma selecção entre outras possíveis, sem considerar o âmbito da ensaística, que mereceria ser igualmente contemplada.

 

Poesia, de Vladimir Maiakovski: principal representante (com Klebnikov) dos cubo-futuristas russos, os quais, em 1912, publicaram o manifesto “Uma bofetada no gosto do público”. A sua poesia distinguiu-se pela utilização de palavras consideradas anti-poéticas,  pelo abandono das regras tradicionais e pela fragmentação tipográfica do verso para acentuar o ritmo. Influenciou toda a poesia europeia, incluindo  a de alguns poetas neo-realistas portugueses, em especial Joaquim Namorado e Carlos de Oliveira.

 

Poesia e Prosa de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos e Bernardo Soares): talvez a maior revolução poética do século XX.

 

As Vinhas da Ira, de John Steinbeck: análise da exploração a que foram submetidos os trabalhadores itinerantes e sazonais, tendo como núcleo a família Joad, que migra para a Califórnia, atraída pela ilusão de riqueza da região. Romance que influenciou algumas narrativas marcantes do primeiro neo-realismo português, foi igualmente ponto de partida para o filme de John Ford, de 1940.

 

Metamorfose, de Franz Kafka: narra o episódio de um homem que acorda transformado num gigantesco

 insecto. Talvez o texto paradigmático do que veio a considerar-se kafkiano seja o seu outro romance, “O Processo”, mas ambos são metáfora de medos e inquietação que viria a espelhar-se em todo o mundo ocidental.

 

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar: romance histórico sobre as memórias fictícias do imperador no início do segundo século da era cristã. Perguntada sobre a razão da escolha de personalidades ou de visões do mundo diferentes dos nossos, respondeu: “Sem dúvida, e é isso que constitui para a maior parte das pessoas a fronteira, na verdade muito flutuante, entre a História e a ‘vida actual’. Mas é também o que torna apaixonante a História. Nesse sentido, pode dizer-se que a História é uma escola de liberdade”.

 

Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: com este romance o autor inventa o “sertão” através da linguagem e assume-o como metáfora do mundo. O que poderia parecer um romance regionalista torna-se absolutamente numa narrativa universal através das estórias paradigmáticas das muitas personagens que se encontram e desencontram nas veredas do sertão.

 

Morte  e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto:  subintitulado “auto de natal pernambucano”, é um

 poema dramático de temática nordestina e que apresenta um Severino retirante da “serra da Costela” (onde há muitos Severinos, “iguais em tudo na vida”) para o Recife, fugindo à seca, ao desemprego e à fome. Como sucede com toda a obra do autor, também este poema se constrói a partir de uma linguagem concisa, geométrica (de “pedra”), essencial. Aqui se recupera a tradição dos autos sacramentais que se representavam no Natal, ressemantizando, porém, o tema, traduzindo em poesia uma realidade dramática mas evitando a ênfase, que tiraria ao discurso toda a eficácia.

 

A partir deste poema, e com música de Chico Buarque de Hollanda, o TUCA – Teatro da Universidade Católica de S. Paulo encenou um espectáculo memorável que venceu o 1º prémio do Festival Internacional de Teatro Universitário de Nancy.

 

O Conselho do Egipto, do italiano Leonardo Sciascia: com ritmo narrativo de romance policial (há sempre coisas a indagar nos romances de Sciascia), é uma aguda observação da trama do poder, a crítica dos vícios e da corrupção do fazer político.

 

As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino: um dos poucos escritores que assumiram como horizonte explícito a floresta “imaterial” dos signos, dos símbolos, das palavras. Neste romance evidenciam-se os lugares como metáfora da existência humana, partindo das viagens de Marco Polo à China e dos seus colóquios com o imperador mongol Kublai Kan.

 

Yaka, de Pepetela: romance histórico, segue a vida de uma família de colonialistas

 portugueses na cidade de Benguela ao longo do século XIX, analisando o conflito geracional relativamente ao valor simbólico de uma máscara, metáfora dos valores tradicionais angolanos.

Leave a Reply