E talvez, algures no último segundo da consciência, ainda haja tempo para um derradeiro pensamento profundamente humano: “Bem… apesar de tudo… até teve momentos engraçados.”
por Carlos Pereira Martins
Há qualquer coisa de profundamente cómico na tragédia humana. Talvez seja precisamente isso que nos impede de enlouquecer completamente: o facto de a vida, essa criatura mal-educada, deselegante e sem qualquer respeito pelo esforço alheio, insistir em alternar os maiores sofrimentos com pequenas migalhas de felicidade, como um empregado de restaurante sovina que traz uma azeitona para acompanhar uma conta de cento e vinte euros.
Vivemos todos assim. Todos. Sem excepção. O milionário deprimido no iate, o reformado que fala sozinho no café da esquina, a senhora elegante que parece saída de um anúncio de perfumes franceses mas chora no carro estacionado ao pé do supermercado, o rapaz cheio de músculos no ginásio que sofre porque ela o deixou por um professor de Filosofia com problemas de coluna, acabou de lhe dizer com um sorriso nos olhos: “agora, pára de me escrever ou procurar, agora, tenho um boyfriend”.
E ali se foram anos dos dois melhores amigos, de segredos mútuos, cumplicidades, formas de entender o mundo e pensamentos com mais ninguém partilhados.
Todos vivemos isto !
A humanidade inteira desfila numa longa procissão de dores privadas, cuidadosamente maquilhadas com sorrisos sociais, fotografias de férias, frases motivacionais e bolos de aniversário onde ninguém tem coragem de admitir que preferia, naquele exacto momento, estar anestesiado.
E contudo, apesar disso, há intervalos.
Ah, os intervalos.
Aqueles momentos ridiculamente pequenos em que tudo parece, por alguns segundos, suportável. Um almoço de amigos onde alguém se engasga a rir e entorna vinho verde pela mesa inteira. Uma noite quente de Verão em que ninguém fala do futuro porque toda a gente está demasiado ocupada a comer sardinhas e a discutir se o árbitro foi comprado.
Um beijo inesperado – esse, tudo que é difícil suportar, faz esquecer !
O cheiro do café da manhã quando o casal ainda não se apercebera dos apertos futuros das prestações da casa. O gato, o cão ou o piriquito que decide, finalmente, demonstrar afecto depois de sete anos de desprezo psicológico. Pequenas felicidades absurdas, frágeis, ridículas, quase ofensivas na sua brevidade.
Porque, os bons momentos, mal chegam… começam logo a acabar.
É impressionante a velocidade com que a felicidade desenvolve pernas e foge. A tristeza, pelo contrário, instala-se como um familiar ou amigo desempregados: ocupa espaço, faz barulho e ninguém sabe como se livrar dela. A felicidade é como uma visita breve, “eu não me posso demorar… só vim dar um beijinho!”
O sofrimento muda a morada fiscal para dentro de nós.
E nós vamos andando.
Andando sempre.
Com doenças nossas e dos outros. Com funerais. Com contas. Com traições. Com silêncios de gente que jurava amar-nos eternamente mas afinal tinha mais interesse noutra pessoa, noutra cidade ou noutra versão de si própria. Vamos andando enquanto fingimos equilíbrio, quando na verdade somos apenas acrobatas emocionais completamente bêbedos a atravessar um fio invisível.
O extraordinário é o empenho colectivo em disfarçar tudo isto.
Que admirável teatro social.
Pergunta-se:
— Então, tudo bem?E a resposta universal é:
— Vai-se andando.“Vai-se andando” é talvez a maior obra-prima linguística da civilização portuguesa. Não confirma felicidade, não admite desespero, não compromete ninguém. “Vai-se andando” significa: “estou emocionalmente destruído, fisicamente cansado, espiritualmente confuso, mas tenho uma consulta no dentista às quatro, portanto continuo.”
E continua-se mesmo.
As pessoas casam-se enquanto têm medo. Têm filhos enquanto estão perdidas. Trabalham décadas inteiras sem perceberem exactamente porquê. Compram plantas para apartamentos sem luz natural. Fazem dietas na esperança absurda de que perder quatro quilos resolva o vazio existencial. Há quem adopte cães porque o amor humano falhou demasiadas vezes. Há quem corra maratonas. Há quem faça ioga. Há quem beba gin artesanal como se o zimbro pudesse curar a angústia metafísica.
Tudo tentativas honestas de suportar o facto gigantesco, inevitável e quase ofensivo de existir.
Porque existir dói.
Dói muito.
Às vezes discretamente, como um sapato apertado na alma. Outras vezes como um piano a cair do décimo andar directamente sobre a esperança. Há tragédias pequenas e tragédias monumentais. Há mães que enterram filhos, filhos que enterram pais, amores que morrem devagar e amizades que desaparecem sem funeral nem explicação. Há solidões tão grandes que uma pessoa começa a conversar com electrodomésticos. E o mais extraordinário é que, ainda assim, no meio disto tudo, alguém consegue publicar nas redes sociais:
“Gratidão”.
A espécie humana tem um talento admirável para decorar o abismo com luzinhas de Natal.
Mas talvez seja precisamente isso a coragem.
Não a ausência de sofrimento, mas a insistência absurda em continuar apesar dele. Continuar a rir. Continuar a cozinhar arroz quando o coração está partido. Continuar a pôr perfume para ir trabalhar num emprego que se odeia. Continuar a apaixonar-se sabendo perfeitamente como aquilo costuma acabar. Há uma grandeza cómica nisto tudo. Uma dignidade quase pateta.
Porque no fundo sabemos.
Sabemos sempre.
Sabemos que tudo acaba.
O amor acaba.
A saúde acaba.
A juventude acaba.
As conversas acabam.
Os verões acabam.
Os cães acabam.
As músicas favoritas acabam.
Até as caixas de bolachas acabam misteriosamente em duas horas, fenómeno científico ainda mal estudado.E finalmente acabamos nós.
Esse é o “grand finale”.
A última saída de palco.
E há qualquer coisa de estranhamente reconfortante nisso. Porque a morte, apesar do terror, resolve todos os problemas logísticos da existência. Acabam-se as insónias, os ciúmes, os impostos, os grupos de WhatsApp da família, as reuniões inúteis, as palavras mal ditas às três da manhã. O universo fecha a conta e diz:
Uns partem de repente, como quem abandona um jantar a meio sem pedir sobremesa. Outros vão partindo devagar, às prestações, num lento adeus que dói a todos. Há mortes trágicas, absurdas, cruéis. Há mortes tranquilas, quase doces. Mas todas têm em comum o mesmo silêncio final, essa última porta que se fecha sobre o grande circo humano.
E talvez o mais estranho seja isto: apesar de sabermos tudo isto, apesar da evidência esmagadora da dor, da perda e da fugacidade, continuamos desesperadamente agarrados aos pequenos momentos felizes.
Uma gargalhada.
Um abraço.
Uma canção antiga.
O mar ao fim da tarde.
O cheiro da chuva.
Uma mesa cheia.
O milagre improvável de alguém nos compreender por alguns minutos.Vivemos anos inteiros por causa de instantes.
É um negócio emocional desastroso, se pensarmos bem. Décadas de ansiedade, frustração, saudade e medo… em troca de breves explosões de felicidade que desaparecem quase imediatamente. É como atravessar um deserto inteiro só para lamber uma colher de gelado antes que derreta.
E contudo… que colher extraordinária.
Talvez seja isso a vida.
Uma sucessão de batalhas perdidas iluminadas por segundos magníficos. Um espectáculo tragicómico onde toda a gente improvisa porque ninguém recebeu verdadeiramente o guião. Uma viagem cansativa feita de amores incompletos, dores inevitáveis, esperanças reincidentes e gargalhadas absolutamente deslocadas.
E no fim, quando tudo termina, talvez haja até uma espécie de paz cómica em perceber que sobrevivemos ao caos o melhor que soubemos. Mal vestidos emocionalmente, muitas vezes confusos, frequentemente ridículos… mas vivos.
Até deixarmos de estar.
E então termina o sofrimento.
Termina a pressa.
Termina o medo.Fecha-se finalmente o pano.
E talvez, algures no último segundo da consciência, ainda haja tempo para um derradeiro pensamento profundamente humano:
“Bem… apesar de tudo… até teve momentos engraçados.”



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