No passado dia 29 de maio o major-general Carlos Branco lançou, em Lisboa, no Hotel PortoBay Liberdade, o seu último livro, Ucrânia, variações de uma guerra inacabada (Colibri). A afluência de tanta gente, ávida de o ouvir e ao apresentador Miguel Szymanski, que superlotou a sala e anexos e não deu por perdido o seu tempo, foi a eloquente demonstração de quanto sentem a sua ausência das estações televisivas como competente comentador da conflitualidade internacional que preenche o nosso quotidiano, agora apenas esporadicamente interrompida.
Carlos Branco, militar intelectualmente honesto, culto, informado, sabedor, experiente, com outras poucas e honrosas exceções distingue-se da mediocridade generalizada dos “comentaristas”, em que se incluem alguns militares, preocupados em alinhar com o “politicamente correto”, que, intencionalmente ou não, chocam pela gritante ignorância das teorias das relações internacionais, dos sistemas políticos, da polemologia (paz, guerra, origens, causas e natureza dos conflitos). Que carecem de bagagem académica e experiência curricular para saberem que estratégia é negação e implica compreender e respeitar o outro (Jean-Paul Charnay), para interpretarem o dilema da segurança e da sua duplicidade (Joseph Nye Jr.), para se preocuparem com a lógica da escalada. Para distinguirem os limites da legítima defesa e da agressão, para não confundirem ação preventiva com ação preemptiva, para perceberem que uma coisa é iniciar uma guerra outra é torná-la inevitável, para entenderem que contra-proliferação nada tem a ver com não-proliferação, que dissuasão é recusa de emprego e não o seu adiamento.
Ressurgem os fazedores de opinião que recuperam o culto do caduco aforismo romano “se queres a paz prepara a guerra”, condenado pela História como marcha inevitável para a guerra. E regressam as filosofias escatológicas e cataclísmicas da guerra que Clausewitz, com a filosofia política da guerra, havia enterrado. E ignoram o essencial do pensamento deste último e de Bouthoul, a guerra enquanto fenómeno social, instrumento racional de política nacional.
Conheço o pensamento de Carlos Branco, sei que não embarca nesse primarismo belicista e acompanho-o nas lúcidas e fundamentadas advertências para o que significará, hoje, uma guerra generalizada entre superpotências nucleares para a qual estão a querer empurrar a humanidade.
Ainda não li este seu livro, o que vou fazer. Mas já me sinto capaz de me pronunciar sobre o seu título – Uma guerra inacabada.
Inacabadas têm sido todas as guerras que derivaram do fim da Guerra Fria. Nos Balcãs, no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia, no Sudão, na África Subsariana, na Geórgia, na Ucrânia, na Palestina, no Líbano, no Irão. Inacabadas porque inacabado foi o conflito que as gerou, a Guerra Fria.
Quando se admitia que a Guerra Fria se encerrara com o fim do sistema bipolar pela implosão da URSS e do Pacto de Varsóvia, perfilou-se uma era unipolar, o “império global” norte-americano. Porém, da desastrosa gestão que Washington fez da sua hegemonia na globalização, resultou uma nova multipolaridade, um sistema difuso, instável. Emerge uma nova superpotência e o mundo regressa a uma bipolaridade tendencial, mas sem a rigidez da anterior: Ocidente Alargado versus Sul Global; OTAN e UE versus BRICS. Blocos menos coesos: EUA e UE; China, Rússia, Índia e Irão. Polos menos assumidos: EUA à deriva no Ocidente Alargado; China líder geoeconómico e Rússia líder geoestratégico nos BRICS. No Ocidente Alargado um denominador comum anuncia maus presságios: o avanço de um populismo revanchista dominado por lideranças de ínfima estatura política e cultural e carentes de credibilidade para enfrentarem as tempestades que se perfilam no horizonte.
Em conclusão, afinal a Guerra Fria não acabara. A História adiara o seu fim e apenas virara mais uma página. O estertor da unipolaridade norte-americana deixou feridas, foram e são as guerras inacabadas que se seguiram. Todas com a marca de uma hegemonia falhada, mas que ainda tenta resistir e tarda a reconhecer o advento de uma nova realidade.
Certamente voltarei ao tema depois de ler este oportuno livro do Carlos Branco.