AVENIDA DA POESIA – Archibald MacLeish, Adão Cruz e Manuel Alegre

Archibald MacLeish ( Glencoe, Illinois, 1892 -1972)

 

 

ARS POETICA

 

A poem should be palpable and mute As a globed fruit Dumb As old medallions to the thumb Silent as the sleeve-worn stone Of casement ledges where the moss has grown – A poem should be wordless As the flight of birds A poem should be motionless in time As the moon climbs Leaving, as the moon releases Twig by twig the night-entangled trees, Leaving, as the moon behind the winter leaves, Memory by memory the mind – A poem should be motionless in time As the moon climbs A poem should be equal to: Not true For all the history of grief An empty doorway and a maple leaf For love The leaning grasses and two lights above the sea – A poem should not mean But be

 

__________________

 

Adão Cruz (Castelões, Vale de Cambra, 1937)

 

O MEU POEMA AZUL

 

Não sei fazer uma rosa nem me interessa não sei descer à cidade cantando nem é grande a pena minha. Não sei comer do prato dos outros nem quero não sei parar o fluir dos dias e das noites nem isso me apoquenta não sei recriar o brilho do poema azul… …e isso dá-me vontade de morrer. Procuro para além das sílabas e dos versos a voz poderosa mais vizinha do silêncio o meu poema azul… o suspiro de Outono onde a brisa se aninha no breve silêncio do perfume do alecrim. Lugar das palavras e dos versos no caminho do teu rosto junto ao rio dos teus olhos onde a vida se faz poema e o mar se deita nos lençóis de luz do fim do dia. Procuro para lá das sílabas e dos versos encontrar meu barco à entrada do mar onde repousa teu corpo entre algas e maresia meu amor perdido num campo de violetas. O meu poema é tudo isto que me vive que me ilude que me prende ao lugar azul que procuro dia e noite por entre os versos do meu ser. Mas o poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu não tem asas nem olhos nem sentimento que o traga um dia o vento se vento houver. Dizem que no cimo dos pinheiros ainda é primavera mas tão alto não chego. Mais à mão molho a minha camisa primaveril no regato cristalino que vai correndo por entre os dedos num solo de violino. Porém vestido de tempo sem espaço e de espaço sem tempo tento fundir a neve com o calor da nudez em versos que tecem mais tarde ou mais cedo o mundo das sombras. Não sei colher uma rosa nem sei descer à cidade cantando sou apenas aquele que ontem dormiu sobre um poema azul e das asas da ilusão se desprendeu. Sou aquele que ontem se despia nos braços do poema que vivia. Sou aquele que ontem habitava em silêncio o poema que acontecia. Sou aquele que ontem sonhou… em vão… com o poema azul de mais um dia. _________________________

 

Manuel Alegre (Águeda, 1936)

 

 

 

 

 

AS PALAVRAS

Palavras tantas vezes perseguidas palavras tantas vezes violadas que não sabem cantar ajoelhadas que não se rendem mesmo se feridas. Palavras tantas vezes proibidas e no entanto as únicas espadas que ferem sempre mesmo se quebradas vencedoras ainda que vencidas. Palavras por quem eu já fui cativo na língua de Camões vos querem escravas palavras com que canto e onde estou vivo. Mas se tudo nos levam isto nos resta: estamos de pé dentro de vós palavras. Nem outra glória há maior do que esta.

 

(De “O Canto e as Armas”).

 

 Ilustrações de Adão Cruz

Leave a Reply