Um café na Internet
No abrigo de S. Bento Labre
Andam sozinhas? Vão ambas a Santiago? E não tem credencial? Porquê? Vai pedi-la onde? Para que serve a compostela? Podem recomeçar a pecar… Pensam caminhar agora quantos dias? Represento o meu papel, um pouco inquieta, tentando, sem mentir, dar respostas aceitáveis, Maryvonne não percebe patavina mas tenta decifrar, também inquieta com a atitude do nosso anfitrião: um homem baixo, moreno, com fato preto e fisionomia não menos solene.
Os dormitórios dos peregrinos encontram-se vazios. Somos as primeiras a chegar, deduzimos nós, em Novembro encontrei três caminhantes, em Julho serão decerto mais numerosos; por conseguinte estendemos os sacos-cama sem espalharmos as bagagens.
Depois do duche e lavagem da roupa, passeamos à volta do santuário, admirando algumas mulheres idosas de província, magras e direitas, com fatos de passeio e uma beleza particular, desconhecida em Paris e Lisboa; que, com um pouco de sorte, avisto, uma ou outra vez, na feira de Tomar. Fazemos compras, volvemos ao albergue, cozinhamos um suculento arroz, jantamos com apetite e começamos a lavar a loiça quando, sem o ouvirmos chegar, o Inquisidor surge à nossa frente: traz o ar sinistro e um chiuauá preso pela trela.
– Gosta de cães?
– Gosto…
– Então pode ser júri!
O alberguista poisa a cadela em cima da mesa, ela esconde o rabo entre as patas, baixa-se, o dono levanta-a, levanta-lhe o rabo, tenta abrir-lhe o focinho. O animal volta a baixar-se, o homem recomeça.
– Que bonita…
Estico a mão, mas ele berra:
– Não lhe toque!
Escondo de imediato a mão atrás das costas, enquanto o indivíduo tenta outra vez abrir o focinho da bicha, que se baixa, mas ele volta a levantar a cadela, a levantar-lhe a cauda, a abrir-lhe o focinho… Isto repete-se duas, três… dez vezes. Maryvonne e eu: duas alegorias do espanto.

